Mais um caso de morte em treinamento acontece em dependências militares. No dia 6 de março do presente ano, o 1º tenente Elivaldo Gonçalves da Costa, de 26 anos, morreu quando participava de uma instrução ministrada, em Paracambi/RJ, pelo 1º Batalhão de Forças Especiais (BFE), sob o comando do tenente-coronel Nardi.
Segundo depoimento do militar da reserva, Genivaldo Dantas da Costa, pai do tenente, ao Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, em 6 de maio, nos dias 1º e 2 de março em visita ao seu filho, no Rio de Janeiro, ouviu do mesmo que: (…) estava com muita dor no ouvido, achando que estava com o tímpano perfurado e a mandíbula deslocada, em função de ter apanhado muito durante algumas instruções de luta (…) no sábado ele falou que não estava conseguindo mastigar a comida em virtude de muita dor no queixo (…) Estas fortes dores que estava sentindo no sábado, dia 1º de março de 2003, fez com que fosse ao Hospital da Vila Militar, em Deodoro, no Rio de Janeiro (…). Mais adiante, continua: (…) Outro fato, o meu filho, Tenente Elivaldo me ligou no dia 5 de março, às 23:00 horas dizendo: pai, eu perdi o registro de segurança de tiro do FAL (Fuzil Automático Leve), vê se o senhor consegue essa peça, se o senhor não conseguir sei que vou apanhar muito, eu vou pro barro. Estas foram as últimas palavras do meu filho comigo (…).
O laudo cadavérico, emitido pelo Hospital Central do Exército, e assinado pelo major Levi Inimá de Miranda, informa que o militar teve exaustão por choque térmico (acúmulo excessivo de calor, que teria provocado a falência dos órgãos).
Aliás, laudos como esse são rotineiros em acidentes dessa natureza, nas Forças Armadas. Em 10 de outubro de 1990, o cadete Márcio Lapoente da Silveira, 18 anos, morreu em treinamento comandado pelo tenente De Pessoa, na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende/RJ. O laudo de necropsia, assinado por Rubens Pedro Macuco Janini cujo registro profissional foi cassado pelo Cremerj, em 15 de setembro de 2000, por assinar laudos falsos durante o período da ditadura militar coincidentemente, informa que Márcio também sofreu exaustão por choque térmico. Como o laudo é somente opinativo, não sendo conclusivo, até hoje a causa mortis continua ignorada.
Segundo a reportagem Imprudência e Morte em Treinamento Militar, publicada no jornal O Globo, em 18 de maio de 2003, o soldado Wellington Alves Fonseca, que servia no 20º Batalhão Logístico Pára-Quedista, morreu, em julho de 2001, de hipotermia, apesar de, como nos casos citados acima, apresentar marcas visíveis de ferimentos graves provocados por atos violentos, que foram omitidas nos seus respectivos laudos.
Na tentativa de acobertar esses crimes, segundo a referida reportagem, a Brigada Pára-Quedista criou seu próprio serviço de medicina legal, sem especialistas, instalado na Vila Militar, evitando enviar casos suspeitos ao HCE, em Triagem.
Tanto o BFE como as Brigadas Pára-Quedistas são famosos pela violência de seus treinamentos, que se assemelham àqueles realizados na famigerada Escola Militar das Américas (SOA School of Americas) e na Academia Interamericana de Polícia (IPA), comandadas pelo exército dos Estados Unidos e pela CIA.
Ambos tinham como objetivo ensinar técnicas de repressão e tortura à alunos, sobretudo, de países da América Latina. Pelo menos 350 militares e policiais brasileiros, nas décadas de 60 e 70, freqüentaram essas escolas de torturadores. Desses, 19 possuem seu nome listado como torturador e/ou membro do aparato de repressão, no Projeto Brasil Nunca Mais, coordenado pela Arquidiocese de São Paulo, que consiste no resultado da microfilmagem de todos os processos de presos políticos que se encontram no Superior Tribunal Militar, em Brasília, abrangendo o período de 1964 a 1978.
Os centros de treinamento funcionaram, de 1954 até 1995, primeiro no Panamá. Posteriormente, a IPA foi transferida para Washington. Em 1984 foi a vez da Escola das Américas mudar-se para o Fort Benning, na Geórgia/USA. Em maio de 2002, após intensas campanhas feitas pelas entidade