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Dossiês de Mortos e Desaparecidos Políticos

Triste memória a de um povo que tem que lembrar dos que morreram ou desapareceram sob o jugo de torturadores não confessos, não publicizados, não responsabilizados!

 

Cecília Coimbra e Flora Abreu consultando dossiês no Arquivo Público do Rio de Janeiro

 

> Mortes no Exílio

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Militante da VANGUARDA POPULAR REVOLUCIONÁRIA (VPR).

Angelo Pezzuti da Silva, nasceu em Araxá, Estado de Minas Gerais, no dia 27 de abril de 1946, filho de Carmela Pezzuti e Theofredo Pinto da Silva.

Cursou o primário no Grupo Escolar “Delfim Moreira” e o ginasial no Colégio “Dom Bosco”, ainda em sua cidade natal. O curso científico, foi feito já em Belo Horizonte, no Colégio “Padre Machado”. lngressou na Faculdade de Medicina da UFMG, em 1964, onde permaneceu até 1968, optando por se especializar em Psiquiatria.

Ângelo tinha um temperamento alegre e extrovertido. Gostava de fazer amizades e cultivá-las.

Desde criança desenvolveu o gosto pela leitura e pelos estudos. Ainda cursando o primário, dedicou-se ao estudo de piano durante 2 anos. O gosto pela música clássica, pela poesia, pelo teatro e pela leitura, principalmente dos autores regionais brasileiros mais intelectualizados e clássicos, acompanhou-o sempre.

Possuía grande fluência verbal, o que facilitava a exposição de suas idéias. Vivia intensamente, como se o momento presente fosse o mais importante. Era senhor de uma ternura especial, mesclada de um certo ar irônico.

Sua militância política iniciou-se, efetivamente, no Colégio Padre Machado, onde participou do curso de alfabetização de adultos. Aí também já sofreu os primeiros “cortes”: foi eleito Presidente da Associação de Alunos e Diretor do Curso de Alfabetização, mas seu nome foi vetado pelo Diretor do Colégio, pelas suas posições políticas de esquerda e questionamentos religiosos.

Na Faculdade de Medicina, de imediato integrou-se ao movimento de estudantes que visava a ampliação de vagas na Universidade Federal de Minas Gerais e a absorção dos chamados “excedentes”. Sua participação seguiu-se no Centro de Estudos de Medicina – CEM, no Diretório Acadêmico, e no “Show Medicina”. Em todas as frentes, lá estava o Ângelo participando.

Em busca de outras alternativas políticas, ingressou na Política Operária (POLOP) e, em 1967, juntamente com outros companheiros (Apolo Heringer e Carlos Alberto Soares de Freitas) constituíram a primeira direção do COLINA (Comando de Libertação Nacional) que tinha como objetivo a luta armada como instrumento de transformação social. Sempre esteve à frente dos grandes projetos da Organização – foi uma liderança intelectual, e participou das primeiras ações armadas desde 1968.

Em 13 de janeiro de 1969 foi preso pelo DOPS, em Belo Horizonte. Inaugura-se, aí, um tempo de passagem por várias prisões: em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro e, depois, retornando a Minas, sendo levado para a prisão de Linhares, em Juiz de Fora.

Sofreu, nesta trajetória, vários tipos de tortura física e psicológica. Entretanto, o que mais marcou foi a obrigação de assistir, na Vila Militar do Rio de Janeiro, a uma aula de tortura ministrada pelo Exército para 100 oficiais, onde alguns presos serviam de cobaia e, dentre os presos-cobaias, estava seu próprio irmão, Murilo. Estas aulas eram dadas por diversos torturadores, entre eles o contraventor “Capitão Guimarães”.

Juntamente com outros companheiros de Linhares, elaborou o “Documento de Linhares” denunciando as torturas e suas conseqüências dentro das prisões. Este foi o primeiro documento, no gênero, elaborado no Brasil e encaminhado às autoridades brasileiras que ignoraram o seu conteúdo. Foi amplamente divulgado no exterior.

Em 1970, Ângelo foi banido do país, trocado juntamente com outros 39 companheiros, inclusive seu irmão Murilo, pelo Embaixador Alemão. Ficaram exilados na Argélia.

Em 1971 foi para o Chile, onde se encontrou com sua mãe Carmela, também banida do Brasil por suas atuações políticas. E aí casou-se com Maria do Carmo Brito, com quem teve seu único filho, Juarez, que está com 23 anos cursando Ciências Biológicas na UNICAMP. Carmela vive hoje em Belo Horizonte sendo, ao lado de sua irmã Ângela, os maiores símbolos da fibra desta família na resistência à ditadura.

Em 1972, por seus contatos com grupos chilenos que lutavam pelo socialismo, foi preso e torturado por policiais brasileiros que lá se encontravam, sendo libertado  logo em seguida. Ainda no Chile, batalhou para provar a infiltração do cabo Anselmo nos meios revolucionários brasileiros, tentando convencer os companheiros que Anselmo era um traidor e responsável por várias quedas e mortes.

Em seguida, veio o golpe chileno, o que o levou a pedir asilo na embaixada do Panamá. Sua permanência no Panamá foi curta, indo para a França, onde logo se integrou ao Comitê Brasileiro cujo objetivo era obter asilo na Europa para outros companheiros brasileiros, chilenos, uruguaios que estavam em situação irregular na América Latina. Com esse objetivo, viajou pela Europa fazendo contatos com as entidades de Direitos Humanos. Em Paris, participava de um grupo de estudos que analisava o movimento histórico da América Latina e de grupos de apoio aos presos no Brasil. Por duas vezes – a primeira no Chile e a segunda na França – Ângelo retornou aos seus estudos de Medicina, conseguindo formar-se, em Paris, em meados de 1975, como Psiquiatra.

No dia 11 de setembro de 1975, Ângelo morreu em um acidente de motocicleta em Paris. Seu corpo foi cremado no Cemiterio Père Lachese onde estão os maiores heróis franceses e, em 1976, trazido para o Brasil. Suas cinzas foram colocadas no Cemitério das Paineiras em Araxá, sua terra natal. Sobre sua morte, seu amigo Herbert Daniel escreveu: “… não saberemos se foi seu gosto pela ironia que determinou a escolha da data, aniversário do golpe do Chile. Ângelo escapou da cadeia no Brasil, escapou do golpe no Chile; mas não escapou da sua ânsia de viver demais. Não viveu para ver nenhum resultado. Este é o resumo brutal de todas as mortes provisórias…”

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Nascido em Natal, no Estado do Rio Grande do Norte, no dia 27 de novembro de 1915. Seus pais eram Luiz Ignácio de Albuquerque Maranhão e Maria Salomé de Carvalho Maranhão.

Seu irmão Luiz Ignácio Maranhão Filho, ex-Deputado Estadual do Rio Grande do Norte e membro do Comitê Central do PCB, é desaparecido político desde abril de 1974.

Por volta de 1930, era filiado ao PCB, com atuação política no sul do país. Retornando a Natal em inícios do Estado Novo, fundou um jornal e um clube de futebol. Divergindo da direção regional do PCB, acabou sendo expulso do Partido, filiando-se ao Partido Social Progressista (PSP).

Em 1954 foi eleito Deputado Estadual, sendo dois anos depois nomeado prefeito de Natal.

Em 1958, disputou uma cadeira na Câmara dos Deputados, pela legenda da UDN, ficando na suplência. De 21 de julho a 3 de novembro de 1960 assumiu a cadeira de Deputado Federal.

Em 1960 foi eleito Prefeito de Natal pelo Partido Trabalhista Nacional (PTN), assumindo a Prefeitura em 1961. Em sua administração deu prioridade à Educação.

Com o golpe de 1964, foi afastado, preso e teve seu mandato cassado. Levado preso para Recife, acabou sendo transferido para a prisão de Fernando de Noronha. Somente foi libertado em fins de 1964.

Partiu para o exílio no Uruguai, sendo ulgado à revelia e condenado a 18 anos de prisão. Em 30 de julho de 1971, faleceu em Montevidéu, vítima de uma parada cardíaca. Foi casado com Dária de Souza Maranhão, com quem teve um filho.

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Militante da VANGUARDA ARMADA REVOLUCIONARIA PALMARES (VAR-PALMARES).

Filha de Clélia Lara Barcellos e Waldemar de Lima Barcelos, nasceu no dia 25 de março de 1945, em Antônio Dias, Minas Gerais, onde seu pai trabalhava como agrimensor.

A profissão do pai a levou a regiões diversas: São Paulo, Goiás, Rio de Janeiro e todos eram obrigados a acompanhá-lo em suas andanças. Para os filhos isso significou freqüentar diversas escolas.

Em Belo Horizonte, Dora estudou no Colégio Estadual Nossa Senhora de Fátima.

Seus avós haviam ajudado a organizar uma escolinha num bairro pobre. Dora, com 14 anos, junto com Maria Helena, sua irmã, lecionava nesta escolinha que ficava numa das favelas da cidade. Lecionaram por mais de dois anos, em contato permanente com a miséria dos moradores da favela, imigrantes de zonas rurais.

Quando era aluna do curso primario, Dorinha sonhava ser missionária. Quando moça, ela pensava em servir como médica no próprio Brasil ou no exterior.

Começou a estudar Medicina, na UFMG, em 1965. Durante o curso, começou a perceber a miséria que a cercava

Dora cursava o quinto ano de Medicina, na área de Psiquiatria, e dava plantões no Hospital “Galba Veloso” e no Pronto Socorro.

Nos hospitais onde Dorinha trabalhou, como estudante, havia 80 pacientes em dormitórios planejados para 15 pessoas. Faltava alimentação adequada, os doentes eram submetidos ao penoso processo de choque elétrico e tratados mais como números do que como seres humanos. A partir daí, Dora começou a se rebelar.

Em 1968 aderiu à ideologia marxista-lenista, admirando, como grandes exemplos, personalidades como as de Che Guevara e de Carlos Marighella e recebendo uma grande influência das teorias de Regis Debray Nessa época, Dora já estava atuando no movimento estudantil.

No dia 19 de março de 1969, Dora mudou-se para o Rio de Janeiro, entrando para a clandestinidade como militante da organização VAR-PALMARES. Dorinha usava os nomes de Maria Auxiliadora Montenegro e Maria Carolina Montenegro e os codinomes Dodora, Maria Alice, Maria Eugênia, Chica e Laura. Mesmo vivendo como clandestina, continuou enviando notícias, através de cartas, para sua família.

Dorinha foi presa no dia 21 de novembro de 1969 no Rio de Janeiro, em companhia de Antônio Roberto Espinoza e Chael Charles Schreier, na casa em que moravam na rua Aquidabã, 1053, em Lins de Vasconcelos, por denúncias de vizinhos.

Levados para o Quartel da PE na Vila Militar, foram bastante torturados e Chael, em conseqüência das torturas, morreu em menos de 24 horas de prisão, conforme testemunho de Dorinha.

Banida para o Chile, em 23 de janeiro de 1971, quando do seqüestro do embaixador Suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, junto com outros 69 presos políticos brasileiros. Dorinha viajou acreditando que poderia levar uma vida normal – estudando e trabalhando – fazendo o que queria, lutando pelos oprimidos. No Chile, que ela tanto amou, onde reencontrou a alegria, a esperança e a liberdade, voltou a estudar.

Em 1973, com a queda de Allende e o golpe militar, Dora teve que conseguir asilo político na embaixada do México, onde viveu 6 meses e trabalhou como intérprete.

Do México foi para a Bé1gica e da Bé1gica para a França, onde ficou 2 meses e, de lá, para a Alemanha, passando a viver em Colônia e a fazer um curso da língua alemã. Como aluna aplicada e estudiosa conseguiu ir para Berlim Ocidental, depois de passar, em primeiro lugar, no concurso de língua alemã, entre 600 estrangeiros. Na Alemanha, finalmente, conseguiu dar prosseguimento ao curso de Medicina que, no Brasil, interrompera no 5° ano e no Chile não conseguira concluir.

Para conclusão do curso, com especialidade em Psiquiatria, pelo seu currículo, foi feita a exigência de que se submetesse a 24 provas, de 4 horas cada uma. Dora, com a coragem e disposição que lhe eram peculiares, dispôs-se a fazer as provas; recebia para isto, uma bolsa do governo alemão, que, era uma das maiores na época, e receberia até carro, a ponto de dispensar a ajuda familiar, que até então fora imprescindível.

Parece que Dora não deveria mesmo concluir o curso de Medicina. Quando estava fazendo a 18ª prova, jogou-se sob os trilhos do metrô, encontrando morte instantânea. O governo alemão encarregou-se das providências e arcou com todas as despesas, desde que morreu até o traslado do seu corpo para o Brasil, além de conceder uma indenização que, a pedido de sua família, foi revertida em benefício dos seus companheiros que mais precisassem. Seu corpo foi cremado na Alemanha, trazido para o Brasil e enterrado em Belo Horizonte.

Em 26 de agosto de 2004, a Comissão Especial da Lei 9140/95 reconheceu a responsabilidade da União no assassinato de MARIA AUXILIADORA LARA BARCELLOS Processo nº. 114/04 RELATÓRIO Requerimento: O requerimento é apresentado pela mãe, Clélia Lara Barcellos. Militância Política e fatos: Maria Auxiliadora foi militante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares – Var-Palmares. Consta no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos, na referência a mortes no exílio, com o relato de suicídio. Filha de Clélia Lara Barcellos e Waldemar de Lima Barcelos, nasceu no dia 25 de março de 1945, em Antônio Dias, Minas Gerais e morreu na Alemanha, em 01 de junho de 1976. Cursava o 5º ano de Medicina, quando foi presa, em 21 de novembro de 1969, no Rio de Janeiro, juntamente com Chael Charles Schreier e Antonio Roberto Espinoza. Levados para o Quartel da Polícia do Exército (PE) na Vila Militar foi barbaramente torturada, juntamente com Antonio e Chael. Em conseqüência das torturas, Chael morreu em menos de 24 horas de prisão. A denúncia de Maria Auxiliadora e Antonio Roberto à Auditoria Militar foi fundamental para o resgate da história de Chael. Esteve ainda em várias prisões: Linhares, Juiz de Fora e na Penitenciária de Bangu. Após dois anos como prisioneira política, foi banida para o Chile, junto com outros 69 presos políticos brasileiros, trocados quando do seqüestro do embaixador Suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, em 13 de janeiro de 1971. Lá obteve asilo e voltou a estudar medicina, apesar das dificuldades e da necessidade de regredir em dois anos em função das diferenças de currículo. Em 1973, com a queda de Allende e o golpe militar, Dora viu-se obrigada a conseguir asilo político na embaixada do México, onde viveu 6 meses e trabalhou como intérprete. Do México seguiu para a Europa, tentando prosseguir seus estudos na Bélgica e, posteriormente foi para a França, quando através da Cruz Vermelha, obteve do governo da Alemanha concordância para reabilitar bolsa de estudos que, quando ainda no Chile, havia obtido através de concurso. Chegou à Alemanha no dia 10 de fevereiro de 1974. Prestes a concluir o curso de medicina, com especialidade em psiquiatria, foi internada em uma clínica de tratamento médico-psiquiátrico, acometida de graves problemas emocionais e de amnésia. Em 1º de junho de 1976, logo após ter consultado seu médico, atirou-se frente a um trem na estação de metrô, em Berlim Ocidental. O governo alemão arcou com todas as despesas do traslado do corpo para o Brasil, 15 dias depois. Do governo brasileiro, a família não recebeu qualquer amparo. Durante muito tempo, a família no Brasil pensava que sua Maria Auxiliadora, Dora, Dodora, Dorinha, tinha morrido em um acidente. Para amenizar a dor da família distante, os companheiros na Alemanha ocultaram seu triste fim. No livro “A Fuga”, editado em 1984, Reinaldo Guarany, o companheiro com quem vivia na Alemanha, relata: “(…) Dora matou-se a 1º de junho de 1976. Direta e decidida como sempre fora na vida, atirou-se na frente de um trem, na estação de Neu-Westend. Não pudemos ver seu corpo, estava muito estraçalhado. O Brasil foi pressionado pela igreja alemã e pelo governo social-democrata e acabou aceitando que seu corpo fosse transladado para Minas Gerais e, assim, cumpriu-se o que Dora afirmara em 1971, em um filme de um americano chamado Saul Landau: – Tarde ou cedo, voltarei para o Brasil! Durante muitos anos menti para sua mãe, dizendo que Dora morrera em um acidente de carro. Anos depois, o Tristão de Ataíde, no início da campanha pela anistia, relatou a morte de Dora, como suicídio, fruto do desespero dos exilados. Dois meses antes de matar-se, Dora tivera uma pane psíquica. Foi internada em uma clínica em Spandau e minha rotina passou a ser: hospital-universidade-casa-hospital. Teve alta uma semana antes de matar-se, mas seus pesadelos eram constantes. Havia um que a vivia atormentando: éramos perseguidos dentro de um túnel, oprimia-nos uma sensação de sufoco e angústia porque, por mais que corrêssemos, nunca alcançávamos o fim do túnel, depois caíamos em uma espécie de espiral, rodando para baixo, tontos, perdidos. Na manhã em que se matou, Dora avisou-me: – Sabe, tenho pensado em me matar. Quase caí de quatro. Conversei com ela horas, dizendo das coisas bonitas que tínhamos em nossas vidas, que nosso quartinho era pequeno naquela residência estudantil, mas que havia um lindo parque florido naquele início de verão, que logo iríamos nos arrancar para Moçambique e aí ninguém ia segurar a gente que o Geisel estava cai-não-cai no Brasil e que voltaríamos para nossa terra, para escutar um idioma de cristãos, ouvir música de gente, comer comida de reis. Abracei Dora e nunca antes em minha vida fui tão sincero no meu egoísmo: – Dora, se você se matasse o que ia ser de mim? (…) Dora era tudo para mim, era a companheira de todas as horas, juntos nos encolhíamos no escuro dos cinemas berlinenses, tão agarradinhos, que a sensação que eu tinha era a de estar no útero materno. Éramos cicatrizes um do outro, mas dessas cicatrizes que a gente gosta de carregar, que nos lembra a própria identidade. Dora sossegou-me em meu medo e insegurança e garantiu que iria até a clínica. Eu ainda dei adeus para ela, da janela. Não sei se sorria ou chorava, só sei que estava grato a ela. Ela foi caminhando entre as flores do parque do nosso Wohnheim, confundindo-se com os brilhos da chuva da noite passada, que ofuscavam meus olhos. E eu nunca mais a vi (…).” Para se entender o suplício que viveu, basta examinarmos a denúncia de Dora frente à 2ª Auditoria da Marinha, em 27 de maio de 1970: “(…) que foi presa no dia 21 de novembro, que estavam juntos a declarante, Antonio Roberto e Chael (…) que foram presos em casa, na Rua Aquidabã, no Lins, por uma turma mista, composta por elementos do DOPS e da Polícia do Exército; que foram conduzidos ao DOPS, onde se procederam as providências de rotina; que se encontravam os três numa sala, de onde Chael foi chamado para dirigir-se a uma sala ao lado, onde Chael foi espancado, ouvindo a declarante os seus gritos; que depois dessas duas horas, Antonio Roberto também foi chamado, que de dez horas da noite as quatro horas da manhã, Antonio Roberto e Chael ficaram apanhando, durante cujas horas, a declarante permaneceu na sala, de início, assinalada; que nesta sala foram tirando aos poucos sua roupa; que não pode identificar os nomes daqueles que o faziam; que o Dr. Wasconcelos dirigia o que ia acontecendo, que não pode precisar bem se era este o nome do policial; que um policial, entre calões proferidos por outros, ficou a sua frente como traduzindo manter relações de sexo com a declarante, ao tempo em que tocava em seu corpo, que esta prática perdurou por duas horas; que o policial profanava os seus seios e usando uma tesoura, fazia como iniciar seccioná-los; que entre semelhante prática, sofreu bofetadas, já quando a sala vieram cerca de 15 pessoas; que abriram a porta da sala em seguida, e se dirigiram à sala contígua, interpelavam a Chael e Antonio Roberto, como era a declarante sob o prisma sexual, que não era mulher para um só, cabendo ser satisfeita pelos dois; que em seguida, os policiais (…) tentou se encostar na declarante, a quem a declarante fez alvo de uma cusparada; que prosseguiram as torturas, inclusive bofetadas; que pelas quatro horas da madrugada, Chael e Roberto saíram da sala onde se encontravam, visivelmente ensangüentados, inclusive no pênis, na orelha e ostentando corte na cabeça; que daí foram transferidos para a Polícia do Exército, (…) nesta mesma madrugada; que nesta unidade do Exército, os três presos foram colocados numa sala, sem roupas; que inicialmente chamaram Chael e fizeram-no beijar a declarante toda, e em seguida chamaram Antonio Roberto para repetir esta prática, empurrando a cabeça dele sobre os seios da declarante e (…) repetindo que ele tanto estava habituado; que depois um indivíduo lhe segurou os seios, apertando-os, enquanto outros torturadores lhe machucavam, inclusive a palmatória; que depois usaram um cacetete e empurravam a declarante contra a parede; que em seguida prosseguiam as torturas, através de choques secos, que a declarante suportava; que em seguida Antonio Roberto e Chael foram levados para a sala do lado e de onde estava a declarante, que ouvia gritos de Chael dizendo não saber de nada; que após fizeram a declarante deitar-se ao chão, que molharam, prosseguindo com a (…) dos choques; que esta prática se repetiu por duas horas; que tais torturas duraram até sete horas da manhã, quando Chael parou de gritar, ficando caído no chão e Antonio Roberto foi levado para um banco, onde ficou sentado, ainda mais ensangüentado do que viera da polícia; que então chegou o Cap. Lauria e disse que a declarante não ia apanhar mais, que podia vestir sua roupa; que foi conduzida à enfermaria, onde recebeu um ponto à cabeça, tendo os lábios rachados, com o rosto deformado e varizes lhe advieram, somente muito tempo depois, recompondo sua aparência local; que daí foi levada para a 1ª Cia. de Intendência, onde saía para prestar depoimentos perante muita gente, observando a declarante que era considerada como peça muito importante no movimento, antes de prestar declarações; que foi ouvida pelo Cap. Lauria, por um tal de Fernando, o qual teve um comportamento excelente com a declarante; que nos seguintes dias após vinte e um de novembro, a declarante prosseguiu sendo ouvida, que continuou apanhando, embora com um cunho psicológico, torturas físicas suportáveis; que o Cap. Guimarães apertou o seu pescoço dizendo que iria enforcá-la até quanto agüentou e que sendo fria não lhe importaria de morrer, que identificou esse nome até recentemente, quando chegou ao local onde se encontrava a declarante, totalmente bêbado em companhia do Cap. Lauria; que o Cap. Lauria também estava com um comportamento estranho, cheirando a bebidas, de onde tinham vindo de um churrasco da polícia; que proferia insultos morais à declarante; que na 1ª Cia. De Intendência, o pessoal era ótimo, completamente neutro (…); que Chael estava desesperadamente gritando na Polícia do Exército, no sábado pela manhã, que somente vinte dias depois veio ter notícias da morte de Chael; que Antonio Roberto assistiu a morte de Chael (…).” Mesmo depois de tamanho sofrimento, e ainda sob a guarda dos torturadores, Maria Auxiliadora não só teve a coragem de denunciar as torturas sofridas e o assassinato de Chael, como foi capaz de, em 17 de novembro de 1970, frente ao Conselho Especial de Justiça do Exército, reunido na 1ª Auditoria, em São Paulo, de fazer as declarações que seguem: (…) que pelos nomes não conhece as testemunhas arroladas pelo dr. Procurador (…); que não conhece as provas constantes dos autos; que a imputação não vê verdadeira pois não se filiou à Var Palmares e nem prestou qualquer auxílio àquela organização; que não sabe de algum motivo particular a que deva atribuir a acusação e nem conhece pessoa ou pessoas a que deva ser imputada a prática do delito narrado na peça vestibular; que está sendo processada, pelos mesmos motivos, perante a 2ª Auditoria da Marinha, da 1ª CJM; que não foi ouvida pelas autoridades policiais no Estado de S.Paulo; que no Est. da GB prestou depoimento perante a autoridade policial e na 2ª Auditoria da Marinha; (…) que perante aquela autoridade judiciária fez um longo relato das sevícias que sofreu e descreveu, detalhadamente, como ocorreu sua prisão; que, repetindo, afirma não ter pertencido a nenhuma organização clandestina; (…) perguntada se tem outras declarações a fazer, respondeu afirmativamente e declarou (…) ipsis literis, o seguinte: que não cometeu crime algum, (…) nem eu, nem qualquer indiciado em outra organização, pois os verdadeiros criminosos são outros; se há alguém que tenha de comparecer em Juízo esse alguém são os representantes desta Ditadura implantada no Brasil, para defender interesses de grupos estrangeiros que espoliam as nossas riquezas e exploram o trabalho do nosso povo; que, além deste crime, que acho ser o primordial, como conseqüência disso, mais da metade da população brasileira é mantida no sub-emprego, na miséria, no analfabetismo e nas doenças endêmicas. Que, além desses citados crimes, o crime de haver torturado até a morte brasileiros valorosos como João Lucas, Mario Alves, Olavo Hansen e Chael Charles, que foi chutado igual a um cão e cujo atestado de óbito registra 7 costelas quebradas, hemorragia interna, hemorragias puntiformes celebrais, equimoses em todo o corpo. Em segundo lugar, não existe justiça e imparcialidade num Tribunal da Ditadura, só existirá verdadeira Justiça, quando depois da implantação do socialismo no Brasil, for formado um Tribunal Popular que julgará, sem os recursos das torturas e das sevícias, mas implacavelmente, os verdadeiros criminosos.Em terceiro lugar, embora não tenha sido militante da VAR, concordo inteiramente com a linha política da organização e considero que só a luta armada, levada a cabo pelos trabalhadores e explorados, poderá destruir o exército da ditadura e do imperialismo, construindo o socialismo no Brasil (…) Suas declarações atestam sua militância e seu martírio e justificam o gesto alucinado. Voto pela inclusão do nome de Maria Auxiliadora Lara Barcellos dentre as vítimas fatais da ditadura militar, por entender que esta é uma reparação moral indispensável para resgatar tanto a sua memória, quanto a dignidade nacional. Reconhecer a responsabilidade do Estado na sua morte, levada ao suicídio pelas seqüelas das torturas, do banimento e do exílio é um ato do presente voltado para o futuro, representando o mais vivo repúdio à violência, ilegalidades e torturas praticadas pelo Estado durante a vigência da ditadura militar. Nesta semana em que se comemoram os 25 anos da anistia parcial e restrita da ditadura militar, a nossa homenagem a Maria Auxiliadora, guerrilheira morta na luta pela liberdade. Suzana Keniger Lisbôa Relatora Comissão Especial – Lei 10.875/04 Em 26 de agosto de 2004.

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Nascido em Cachoeira do Sul, Rio Grande do Sul, onde foi um ativo participante do movimento estudantil secundarista. Foi morto em 1973, numa manifestação de rua no Chile. Pertencia às Brigadas do MIR – Movimiento de lzquierda Revolucionario.

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No Dossiê anterior constava como TEREZINHA VIANA DE JESUS.

Nasceu em 22 de julho de 1941 em Aracaju, Sergipe.

Filha de Antônio Veriano de Assis e de Edith Vianna de Assis.

Fez seus estudos em sua cidade natal, concluindo o Curso de Economia na Universidade Federal de Sergipe. Mudou-se para Belo Horizonte, onde trabalhou na Caixa Econômica Federal.

Em 1972 foi presa. Ao ser libertada, exilou-se no Chile, onde fez um curso de especialização na Universidade de Santiago.

Após o golpe no Chile, em setembro de 1973, viajou para a Holanda onde chegou em fevereiro de 1974. Residiu inicialmente em Rotterdam e depois em Amsterdam.

Prosseguindo seus estudos na Universidade de Amsterdam, doutorou-se em Economia.

Até 15 de setembro de 1977, trabalhou na Prefeitura de Amsterdãm, mas seu contrato não foi renovado, o que a colocou na condição de desempregada. Esta situação agravou os problemas psicológicos que vinha apresentando.

Em 3 de fevereiro de 1978, Terezinha foi encontrada morta sob a janela do apartamento em que residia.

De sua irmã Selma Viana de Assis Pamplona:

Foi presa política e torturada em Belo Horizonte/MG, não sei precisar o ano, mas foi entre 1968-72 quando tinha aproximadamente 31 anos de idade.

Saiu do Brasil e foi para o Chile em fevereiro de 1973.

Em setembro/73, com o golpe no Chile que derrubou o Presidente Salvador Allende, ela foi mandada para a Holanda pela ONU; inicialmente, Rotterdam e depois, Amsterdam.

Em meados de 1977 ela começou a me escrever, dizendo estar se sentindo seguida sempre, pois onde estava via as mesmas pessoas (entre 2 e 4); em julho/77 saiu de férias (trabalhava na Prefeitura de Amsterdam) e fazia curso de línguas; viajou pela Rússia e países da Europa Oriental e onde chegava, (em cada cidade), encontrava aquelas mesmas pessoas. Quando voltou da viagem encontrou o seu apartamento totalmente remexido, desarrumado, fora do lugar. Observou que o seu telefone estava “grampeado” e pedia que eu não lhe telefonasse. Às vezes, quando voltava do serviço, encontrava seu apartamento remexido demonstrando ter entrado gente; começou a receber telefonemas anônimos com ameaças. Foi ficando nervosa, preocupada… Por fim, apareceu morta, caída da janela embaixo.

Ocorre que ela era muito católica, tinha medo da morte. E antes de se sentir seguida, estava gostando muito de Amsterdam. De repente…

Uma das pessoas que a seguia, ela ficou sabendo que se tratava de polícia secreta do Chile. Quanto aos outros ela não chegou a saber.Morreu em 2 ou 3 de fevereiro de 1978, com 36 anos.”

Informações prestadas por sua irmã Selma Viana de Assis Pamplona Conceição.

Dossiê sobre Therezinha Viana de Assis:

Therezinha Viana de Assis (22/07/41-03/02/78)

Nascida THEREZINHA VIANA DE ASSIS, saiu do Brasil no início de 1973, usando o codinome Terezinha Viana de Jesus. Filha de Antonio Veriano de Assis e de Edith Vianna de Assis, nasceu em Aracaju capital do Estado de Sergipe-Brasil em 22/07/41.

Fez seus estudos em sua cidade natal, concluindo o curso de Economia na Universidade Federal de Sergipe. Mudou-se para Belo Horizonte, onde fez outros cursos e era funcionária da Caixa Econômica Federal.Nesta cidade, foi militante da AP e de outras facções.

Foi presa e torturada em Belo Horizonte-Minas Gerais, entre os anos de 1968 e 1972, não sabendo eu precisar o período exato que permaneceu presa e sendo torturada . Ao ser libertada e ainda temerosa de nova prisão e de outras torturas, coisas que ela não suportaria, tendo em vista os sofrimentos anteriores , dos quais foi vítima, exilou-se no Chile no início do ano de 1973, onde fez um curso de especialização na Universidade de Santiago, em nível de pós-graduação.No Chile, pelo que vim a saber por terceiros, ela militava no MIR.

Em setembro de 1973, com o Golpe de Estado no Chile, do qual resultou a derrubada e morte do então presidente Salvador Allende, ela foi acolhida na condição de asilada política, pelo Governo da Holanda, chegando aquele País em fevereiro de 1974, tendo inicialmente residido em Roterdam e posteriormente mudado para a cidade de Amsterdam, onde se estabeleceu até a morte.

Naquela cidade, ela se adaptou muito bem e me escrevia alegre e satisfeita com tudo: com o sucesso nos estudos, com a cidade, com o trabalho que vinha realizando na Prefeitura local na área de planejamento. Estava feliz, apesar de se encontrar na condição de asilada. Era como dizia, uma asilada privilegiada por ter conseguido um emprego. Os seus superiores imediatos na Prefeitura, também estavam satisfeitos com o seu trabalho. Tudo ia bem e ela aproveitava as folgas para conhecer outros paises da Europa.

Em Amsterdam, ela prosseguindo com os seus estudos, chegou a doutorar-se na área de Economia. Em meados de 1977, nas férias de verão, ela decidiu conhecer países da Europa Oriental; e de cada cidade, de cada País, por onde passava, me escrevia, mandava fotos e postais; estava feliz, pela oportunidade de conhecer uma região, a qual sempre aspirou conhecer.

Mas….tinha algo que a inquietava e ela chegou a falar em algumas correspondências. É que em cada cidade na qual chegava, sempre avistava quatro pessoas, sempre as mesmas, dando a entender, que estavam seguindo-a. Isso a inquietava muito e ela começou a ficar com medo.

Retornando desta viagem para Amsterdam, ela encontrou o seu apartamento totalmente remexido, desarrumado mesmo, sinalizando que algum estranho tinha penetrado no ambiente, procurando talvez alguma coisa que ela não soube identificar. Pediu informações a algumas pessoas e ninguém soube esclarecer.

Ela que já tinha começado a ficar com medo durante a viagem, começou a ficar apavorada e muito nervosa. Saía para o trabalho e quando voltava, verificava a mesma coisa: que pessoas estranhas tinham penetrado em sua residência e remexendo-a totalmente.

Foi ficando nervosa….com medo de tudo e de todos e não encontrava explicações. Até que um dos companheiros asilados falou que ela tivesse cuidado, porque ele havia sido informado de que policiais do Chile e do Brasil, estavam seguindo asilados em diversos países, inclusive na Holanda. Suspeita esta, que ela não conseguiu comprovação.

Mais ou menos em setembro/outubro de 1977, ela me pediu que não mais telefonasse para ela, nem escrevesse, pois achava que havia escuta em sua linha telefônica e que as suas correspondências estavam sendo violadas. Falou que sempre que pudesse, daria notícias. Não deu mais notícias e eu fiquei preocupada. Até que no começo de fevereiro de 1978, o meu irmão mais velho recebeu a notícia do seu falecimento, com informações confusas. Ele foi a primeira pessoa da família a receber a notícia.

Ela havia sido encontrada agonizando, quase morta, sobre a calçada do Edifício onde residia na cidade de Amsterdam. Foi levada, ainda com vida, para o Academische Ziekenhuis da Vrije Universiteir, onde foi operada, mas não resistiu. A queda provavelmente do 7º andar onde residia, causou-lhe fraturas de costelas e uma grande hemorragia no baço. A morte foi considerada como suicídio, sem que ocorressem investigações aprofundadas sobre o fato.

Mas a Therezinha nunca se suicidaria. Em primeiro lugar, devido a sua formação religiosa a qual conservava; depois, porque estava felicíssima em Amsterdam: gostando do emprego, da atividade que vinha desenvolvendo na Prefeitura local, dos seus estudos, da cidade. Enfim, estava feliz, apesar da condição de asilada política. Foi uma morte que precisava ser apurada e os responsáveis punidos devidamente. 11 de abril de 2004

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Frade dominicano.

Nascido em Fortaleza/CE no dia 14/09/45, filho de Ildefonso Rodrigues de Lima e Laura Alencar Lima.

Estudou em Fortaleza com os padres jesuítas. Foi dirigente regional e nacional da JEC (Juventude Estudantil Católica). Em 1965, ingressou na Ordem dos Dominicanos, sendo ordenado sacerdote em 1967, e também foi aluno de Filosofia da USP.

Militante da Ação Estudantil Católica, foi seu coordenador para o Nordeste. Foi preso em 1968, sob a acusação de ter alugado o sítio onde se realizou o Congresso da UNE, em lbiúna.

Preso novamente em 4 de novembro de 1969, em companhia de outros padres dominicanos porque acusados de terem ligações com a ALN e Carlos Marighela.

Frei Tito foi torturado durante 40 dias pela equipe do delegado Sérgio Fleury. Transferido depois para o Presídio Tiradentes, onde permaneceu até dia 17 de dezembro. Nesse dia, foi levado para a sede da Operação Bandeirantes (DOI-CODI/SP), quando o Capitão Maurício Lopes Lima, disse-lhe: “Agora você vai conhecer a sucursal do inferno”. E foi o que ocorreu. Torturado durante dois dias, pendurado no pau-de-arara, recebendo choques elétricos na cabeça, órgãos genitais, nos pés, mãos, ouvidos, com socos, pauladas, “telefones”, palmatórias, “corredor polonês”, “cadeira do dragão”, queimaduras com cigarros, tudo acompanhado de ameaças e insultos. A certa altura, o Capitão Albernaz ordenou-lhe que abrisse a boca para receber a hóstia sagrada, introduzindo-lhe um fio elétrico que queimou-lhe boca a ponto de impedi-lo de falar.

Frei Tito foi deixado durante toda uma noite no pau-de-arara e, no dia seguinte, tentou o suicídio com uma gilete, sendo conduzido às pressas para o Hospital do Exército do Cambuci, onde ficou cerca de uma semana sob tratamento médico sem, contudo, deixar de ser submetido a tortura psicológica constante.

Banido do país, em 13 de janeiro de 1971, quando do seqüestro do embaixador da Alemanha no Brasil, viajou para o Chile e depois para a Itália e a França.

Após algum tempo, instalou-se na comunidade dominicana de Arbresle, tentando desesperadamente lutar contra os crescentes tormentos de sua mente, abalada profundamente pela tortura. Já no exílio, foi condenado pela 2ª Auditoria a pena de 1 ano e meio de reclusão, em 23 de fevereiro de 1973.

No dia 7 de agosto de 1974, com 31 anos de idade, Frei Tito enforcou-se, pendurando-se em uma árvore. Foi enterrado no Cemitério Dominicano de Sainte Marie de la Tourette, próximo a Lyon, na França. Em 25 de março de 1983, seus restos mortais foram trasladados para o Brasil, acolhidos solenemente na Catedral da Sé, em São Paulo, com missa rezada por D. Paulo Evaristo Arns e enterrado no jazigo de sua família em 26/03, em Fortaleza

TV Globo – Linha Direta – Justiça.

Reconstituição da história de Frei Tito.

Dia 16 de novembro de 2006, às 21h45.

A agonia de Tito

O programa Linha Direta – Justiça desta quinta-feira vai retratar a história de luta, fé e sofrimento do ativista religioso cearense Frei Tito, interpretado pelo ator Guilherme Piva

O próximo Linha Direta – Justiça vai ser especial. O programa vai exibir a história de Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, ativista religioso cearense que entrou para a história política do País, por ter lutado pelos direitos humanos durante o árduo período da ditadura militar. Preso e torturado, mesmo depois do exílio, nunca conseguiu se livrar das marcas e do sofrimento pelos quais passou. Mesmo com tratamento psiquiátrico, ele não desvinculou-se do passado e se suicidou na França, em 1974. O drama de Tito será recontado no especial, em que o ator Guilherme Piva interpretará o frade.

Nascido em Fortaleza, de uma família de 15 irmãos, Tito foi dirigente nacional e regional da Juventude Estudantil Católica. Em 1965, tornou-se frade dominicano. Depois se mudou para São Paulo, estudou Ciências Sociais na USP, e começou a se engajar aos movimentos de resistência ao regime. Foi um dos organizadores do famoso Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), em Ibiúna (SP), onde acabou sendo preso.

Frei Tito foi torturado, ao lado de mais 12 frades dominicanos, durante 40 dias. Na reconstituição, o delegado e chefe da equipe que os torturou, Sérgio Fleury, será vivido pelo ator Ísio Ghelman. Depois de todo o sofrimento que passou, conseguiu que sua história fosse divulgada através de uma carta. A denúncia correu por diversos jornais, em todo o mundo. Banido do País, em 1971, viajou para o Chile e para a Itália. Em Roma, ele foi rejeitado pelos religiosos, que o consideravam subversivo. Só foi conseguir asilo num convento em L’Abresle, na França. Dominado pela tristeza que o abatia, pelas recordações das violentas e humilhantes torturas que sofreu, Tito permanecia abalado. Os amigos ficavam preocupados, sobretudo com os relatos. O frade dizia que a imagem do delegado Fleury aparecia por todas as ruas e janelas. Perturbado com tudo isso, ele se enforcou aos 31 anos de idade, em 1974. Seu corpo só foi trazido ao Brasil em 1983, quando o já viviamos o processo de redemocratização.

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Militante da VANGUARDA POPULAR REVOLUCIONÁRIA (VPR).

Participou da guerrilha do Vale do Ribeira, em São Paulo.

Exilou-se no Chile de onde, após o golpe, foi para a França.

Em fins de abril de 1977, faleceu em conseqüência de um desastre de automóvel em Aix-en-Provence, na França.

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Filha de Antônio Soares de Arruda e de Laura Soares Silva, nasceu no dia 15 de julho de 1918, em São Pedro de Jequitinhonha, no Vale do Jequitinhonha, no Estado de Minas Gerais.

De família pobre, Zizinha, nome carinhoso pelo qual se tornou conhecida, desde cedo começou a trabalhar como operária na inúdstria de confecção.

Sempre trabalhando como operária, foi viver em São Paulo.

Em 1938, casou-se com Antônio Ubaldino Pereira, com quem teve três filhos.

Com o golpe de 1964, acabou se ligando à UPR e foi presa incomunicável em fins de 1970. Seu marido havia sido preso desde 1969, sendo banido para o Chile em 13 de janeiro de 1971. Assim que foi solta, Zizinha partiu para aquele país. Ali viveu e trabalhou até o golpe de setembro de 1973, quando o casal novamente se viu separado pelas circunstâncias: enquanto Antônio Ubaldino viajou para a Argentina e daí para a Suécia. Zizinha asilou-se no Panmá. Mesmo sem documentos, prosseguiu sua viagem com o objetivo de se reunir ao amigo e companheiro de vida e de lutas. Finalmente o casal se reuniu em Lund.

Em 1974, começou a trabalhar como restauradora de objetos do Museu Lund. Além disso, presidia o Comitê Brasileiro de Mulheres Democráticas, fundado na cidade de Lund.

Embora nunca deixasse de desejar retornar ao Brasil e rever seus filhos, netos e amigos, tais desejos não se materializaram: em 9 de setembro de 1978, Zizinha morreu de câncer, no exílio. Seu corpo foi cremado e as cinzas levadas para São Paulo onde viviam seus familiares.

Em Lund, a sala onde os exilados brasileiros se reuniam para lutar pelo retorno ao Brasil recebeu seu nome, justa e merecida homenagem àquela que tão bem encarnou a vida de milhares de mulheres brasileiras.

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