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Dossiês | mortos

Dossiês de Mortos e Desaparecidos Políticos

Triste memória a de um povo que tem que lembrar dos que morreram ou desapareceram sob o jugo de torturadores não confessos, não publicizados, não responsabilizados!

 

Cecília Coimbra e Flora Abreu consultando dossiês no Arquivo Público do Rio de Janeiro

 

> Rio de Janeiro Mortos

1964

 

Morto em 01 de abril de 1964, em escaramuças de Rua, quando populares tentavam se opor ao golpe militar, no Rio de Janeiro, próximo ao Largo do CACO, na Faculdade Nacional de Direito (UFRJ). Foram cercados pelo CCC que atirou bombas e metralhou o prédio. Dois populares que se encontravam nas proximidades foram baleados.

Ari foi levado ao Hospital Souza Aguiar, aonde veio a falecer. Seu corpo deu entrada na IML/RJ em 02 de abril de 1964.

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1964

 

Filiação: Elvira Pascoal Viana e Ranulfo Viana

Data e local de nascimento: 21/4/1922, Itacoatiara (AM)

Organização política ou atividade: sindicalista

Data e local da morte: 08/04/1964, Rio de Janeiro (RJ)

 

Amazonense de Itacoatiara, dirigiu o Sindicato dos Estivadores de Manaus desde 1954 e, pouco antes do movimento que depôs João Goulart, mudou-se para o Rio de Janeiro por ter assumido o cargo de tesoureiro na Federação Nacional dos Estivadores, integrando também o recém-criado Comando Geral dos Trabalhadores. Mereceu dois processos na CEMDP, sendo o primeiro indeferido unanimemente, por não se enquadrar na Lei nº 9.140/95. O sindicalista teria se jogado do 5º andar do prédio do Hospital do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas (IAPETEC), no dia 08/04/1964, morrendo em decorrência da queda.

Foram anexadas aos autos cópias de livros que questionam a morte por suicídio, entre eles o de Márcio Moreira Alves, Torturas e Torturados; o de Elio Gaspari, Ditadura Envergonhada e o Dossiê dos Mortos e Desaparecidos. Márcio Moreira Alves denunciou o caso como morte sob tortura por agentes de segurança do Rio de Janeiro. Informe reservado do Serviço Secreto do DOPS/SP, referente à reunião para deliberação sobre eleições na Federação Nacional de Estivadores, traz o nome de Antogildo, que teria vínculos com o PCB, na lista dos 100 maiores inimigos do regime militar, cassados pelo primeiro Ato Institucional, de 10/04/1964.

Antogildo foi uma importante liderança sindical brasileira, tendo exercido o cargo de representante do Conselho da Confederação e do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). A atuação sindical, o envolvimento político, as circunstâncias do “suicídio”, as práticas de prisão sem motivo justo e de violência dos órgãos de segurança não deixavam dúvidas de que o suposto suicídio teria ocorrido na iminência da prisão.

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1964

 

Filiação: Olga Mello do Nascimento e Manoel Roberto do Nascimento

Data e local de nascimento: 09/2/1920, Paraíba

Organização política ou atividade: não definida

Data e local da morte: 15/08/1964, Rio de Janeiro (RJ)

 

Paraibano de nascimento, afrodescendente, 1º tenente da Reserva do Exército, integrou o 11º Regimento de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira, embarcando para a Itália no dia 20/09/1944. Participou da célebre Batalha de Monte Castelo, retornando ao Brasil em 8/5/1945. Economista, integrou a equipe da Sudene e fez cursos na Cepal. Era chefe da Divisão de Administração do Ministério da Justiça, quando foi preso no Rio de Janeiro, no dia 12/08/1964, para responder a inquéritos presididos pelo comandante da Marinha de Guerra, José de Macedo Corrêa Pinto, e pelo coronel do Exército Waldemar Raul Turola. Morreu em 15 de agosto, no intervalo do interrogatório a que estava sendo submetido no 4° andar do edifício do Ministério da Justiça. Seu nome consta no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos.

Os legistas Cyryaco Bernardino Pereira de Almeida Brandão e Mário Martins Rodrigues determinaram como causa mortis esmagamento do crânio”. De acordo com a versão oficial, Dilermano saltou da janela do 4º andar do prédio do Ministério da Justiça, no Rio de Janeiro, deixando um bilhete que dizia: “Basta de tortura mental e desmoralização”.

O corpo de Dilermano foi retirado do IML por seu irmão, Paulo Mello do Nascimento, sendo sepultado por sua família no Cemitério São João Batista. A viúva, Natália de Oliveira Nascimento, colocou em dúvida a versão policial (Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 11/11/64). Segundo ela, até mesmo o bilhete seria falsificado. O laudo pericial concluiu, por exclusão de provas, que ele foi induzido a saltar da janela do 4° andar, após longo interrogatório, dirigido pelo capitão-de-mar-e-guerra, Correia Pinto. Laudo elaborado pelo perito Cosme Sá Antunes revelou que não houve nenhum elemento que pudesse fundamentar o suicídio. Nem mesmo foram encontradas marcas no parapeito da janela, de onde teria saltado a vítima.

Jorge Thadeu Melo do Nascimento, filho de Dilermano, prestou depoimento ao Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, em 03/01/1995, declarando que, no dia 14/08/1964, às 20 horas, quando tinha 15 anos de idade, dois militares à paisana foram a sua casa, convidando-o para visitar seu pai, que se encontrava preso desde o dia 12. Ao chegar lá, o capitão Correia Pinto o obrigou a sentar e não o deixou ver o pai, ameaçando-o: “Se seu pai não confessar, não sairá vivo daqui” e “Se ele não confessar, quem vai pagar por tudo é a família”. Essas ameaças – ao que lhe pareceu – foram dirigidas a seu pai, que deveria estar ouvindo e sabendo da presença do filho. No dia seguinte, soube que Dilermano estava morto.

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1964

 

Filiação: Thamasia Bernarda de Jesus e João Tomaz de Oliveira

Data e local de nascimento: 30/01/1895, Tubarão (SC)

Organização política ou atividade: PCB

Data e local da morte: Entre 1964 e 1965, no Rio de Janeiro (RJ)

 

Catarinense de Tubarão, antigo militante do PCB e taifeiro da Marinha, participou, no Rio de Janeiro, do polêmico comício da Central do Brasil, dia 31 de março de 1964, quando Jango anunciou o desencadeamento das chamadas Reformas de Base. Logo depois do Golpe de Estado, Divo foi preso, aos 69 anos de idade, e levado para o presídio Lemos de Brito.

Sua esposa, Nayde Medeiros, professora em Criciúma (SC), chegou a visitá-lo uma vez. Ao retornar ao Rio para nova visita, descobriu que seu marido havia desaparecido. Recebeu informações desencontradas dos funcionários do presídio. Uns diziam que ele havia fugido, outros, que fora transferido para o presídio Bangu I. Nayde visitou todas as prisões e cemitérios, escreveu às autoridades, mas nunca recebeu respostas, nem certidão de óbito, nem o corpo, nem explicação alguma. Em abril de 1965, foram localizados alguns pertences de Divo no Departamento do Sistema Penitenciário (DESIP) do Rio de Janeiro. A filha de Divo, Alba Valéria, começou a procurar o pai depois de adulta. Em 1989, esteve no Rio de Janeiro visitando várias repartições públicas e presídios. Uma funcionária do DESIP localizou uma pasta, número 21.426, onde havia o nome de Divo Fernandes D’Oliveira.  Na pasta, Alba encontrou alguns documentos pessoais e nada mais.

Conforme as declarações de Jorge Feliciano, ex-militante do PCB e ex-presidente do Sindicato dos Mineiros de Criciúma e, de Amadeu Luz, dirigente do PCB em Criciúma e em Santa Catarina, Divo deve ter sido morto na prisão Lemos de Brito, no Rio de Janeiro. O corpo nunca foi entregue à família.

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1964

 

Filiação: Idê Barreto Leite e Assis Waldemar Leite

Data e local de nascimento: 20/08/1940, Dom Pedrito (RS)

Organização política ou atividade: sargento do Exército Brasileiro

Data e local da morte: 13/04/1964, Rio de Janeiro (RJ)

 

A morte do gaúcho Edu Barreto Leite – 3º sargento do Exército que trabalhava no serviço de Rádio do Ministério da Guerra – apenas 13 dias depois da deposição de João Goulart, foi anunciada pelas autoridades do novo regime como suicídio. Ele teria se atirado pela janela, pouco antes de agentes de segurança invadirem seu apartamento, na Rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro. Ao buscar maiores esclarecimentos sobre o ocorrido, porém, seu irmão Danton Barreto Leite ouviu do zelador do prédio uma história diferente. O zelador escutou muitos disparos e ruídos de luta corporal dentro do apartamento, testemunhando que Edu foi jogado pela janela. Uma moradora do prédio em frente estava acordada, com a luz apagada, junto à janela, e repetiu exatamente a mesma versão.

Danton Barreto Leite foi avisado da morte por um amigo de Edu, que leu a notícia na imprensa. Na mesma noite, ligou para o Exército atrás de informações. Como ninguém lhe prestasse qualquer esclarecimento, no dia seguinte seguiu de Porto Alegre para o Rio, chegando ao Ministério da Guerra somente depois do enterro. Os militares alegaram não ter avisado à família por desconhecer o endereço, o que é pouco plausível na disciplina tradicional do Exército. Danton foi levado a uma sala de reuniões onde os militares tentaram convencê-lo de que o irmão, “comunista e subversivo”, havia se suicidado, saltando do sétimo andar do prédio onde morava. Sentiu que se não concordasse com aquela versão seria detido, mas não ficou convencido. No dia 15 de abril, esteve no apartamento de Edu, lacrado pelo Exército, e conversou com algumas pessoas sem se identificar. Nessa ocasião, ouviu do zelador que cinco indivíduos esperavam Edu quando ele chegou à noite.

Posteriormente, o Exército nomeou uma equipe para conduzir Danton ao apartamento. O local encontrava-se muito revirado e, segundo a noiva de Edu, também presente na ocasião, faltavam objetos pessoais e a máquina fotográfica. O que mais chamou a atenção do irmão foi a porta, com várias perfurações de bala, de fora para dentro, e nenhum vestígio de sangue. No Hospital Souza Aguiar, Danton foi informado de que Edu dera entrada vivo e com fraturas múltiplas no braço esquerdo e nas costelas. O laudo do legista Amadeu da Silva Sales não ajudou a esclarecer as circunstâncias da morte, determinando apenas que o óbito ocorreu em decorrência de “hematoma retro-peritonial ao nível de sigmoide, hematoma da parede vesical”.

As autoridades militares abriram inquérito, mas o 5° Distrito Policial apenas registrou o ocorrido. Um documento de 29/07/1964, assinado pelo presidente em exercício do Superior Tribunal Militar (STM), ministro Washington Vaz de Mello, relata que nos autos do IPM instaurado para apurar a responsabilidade de dois integrantes do Exército na morte de Edu havia evidências de que ele fora vítima de um acidente, não de um crime.

Há responsabilidade do Estado em casos de suicídio – mesmo quando em versões oficiais tão inconsistentes como a relativa a Edu Barreto Leite.

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1964

 

Filiação: Lygia Violeta Tavares Roque e Lydio José Roque

Data e local de nascimento: 03/01/1929, Nazaré (BA)

Organização política ou atividade: PCB

Data e local da morte: Entre 1964 e 1967, no Rio de Janeiro (RJ)

 

A primeira prisão de Israel aconteceu ainda na década de 50, mais precisamente no dia 31/07/1953, quando trabalhava no O Momento, órgão do PCB na Bahia. Já no segundo semestre de 1964, Israel seria detido por um policial baiano, em frente à Central do Brasil, no Rio de Janeiro, e conduzido a uma delegacia que funcionava na estação. Seu irmão Peres o procurou lá, mas disseram que Israel não se encontrava naquela delegacia. Depois disso, nunca mais foi visto.

No Arquivo Público do Rio de Janeiro, onde estão as fichas do extinto DOPS, foram encontrados documentos referentes a ele: um relatório de 18/05/1955, expedido pela polícia pernambucana, afirmando que Israel era um dos principais dirigentes comunistas do Comitê Municipal de Salvador; documento com data de 13/09/1957, fazendo referência ao relatório de 18/05/1955, da polícia pernambucana. E, por último, documento de 23/02/1958, que afirmava a existência de um relatório de janeiro de 1957, da polícia de Pernambuco, sobre o militante comunista e membro dirigente do Comitê Municipal de Salvador.

Documentos mostram que Israel continuou trabalhando no jornal O Momento e militando no PCB, sendo vigiado pela polícia política. Houve também declarações de algumas pessoas, entre elas a professora Sônia de Alencar Serra, da Universidade Federal da Bahia, que serviram para comprovar a militância de Israel no PCB depois de 1953. Há ainda o depoimento de um capitão-de-fragata, informando que, na época, a pedido de seu amigo, buscou informações sobre Israel e soube que ele não teria sido preso pela Marinha, Exército ou Aeronáutica, e sim pela polícia política da Bahia, que informou ao DOPS do Rio de Janeiro que faria uma diligência no estado para prender Israel. Esse depoente dá como data da prisão “2º semestre de 1967”.

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1964

 

Filiação: Nair Barbosa de Souza e Alcides de Souza

Data e local de nascimento: 1931, local não definido

Organização política ou atividade: sindicalista

Data e local da morte: 17/04/1964, Rio de Janeiro (RJ)

 

José de Souza era membro do Sindicato dos Ferroviários do Rio de Janeiro. Foi preso e conduzido ao DOPS/RJ, na Rua da Relação, no dia 08/04/1964, para averiguações. A versão oficial foi de que José cometeu suicídio nove dias depois, atirando-se pela janela do terceiro andar do prédio da Polícia Central do Rio de Janeiro.

Em depoimento à Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da Seção do Estado do Rio de Janeiro da OAB, em 04/12/1995, José Ferreira, também preso nas dependências do DOPS na Rua da Relação, conta que viu José de Souza chegar àquela unidade policial. Segundo Ferreira, ele estava bastante nervoso com a prisão, devido aos constantes gritos e tiros de metralhadora, mas, principalmente, por constatar que os presos voltavam desmaiados quando iam prestar depoimento. José Ferreira contou ainda que, na manhã de 17 de abril, às 5 horas, foram acordados pelos agentes policiais que alertaram para o fato de José de Souza encontrar-se morto no pátio do DOPS.

A necropsia, realizada por Vicente Fernandes Lopes e Elias Freitas, confirmou a versão de suicídio com esmagamento do crânio. O corpo foi retirado do IML e enterrado em 18/04/1964.

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1964

 

Filiação: Helena Elias Carneiro e João Carneiro

Data e local de nascimento: 1899, na Síria

Organização política ou atividade: não definida

Data e local da morte: 01/4/1964, Rio de Janeiro (RJ)

 

A sexagenária Labibe Elias Abduch era casada com Jorge Nicolau Abduch, com quem teve três filhos. Foi morta por um disparo no dia 01/04/1964, quando caminhava pela Cinelândia, no Rio de Janeiro, interessada em obter informações sobre o movimento militar no Rio Grande do Sul, onde se encontrava um filho. Narrando a cena e os fatos desse dia, a revista O Cruzeiro, em edição extra de 10/4/1964, traz a seguinte matéria: “14 horas. É o sangue. A multidão tenta mais uma vez invadir e depredar o Clube Militar. Um carro da PM posta-se diante do Clube. O povo presente vaia os soldados. Mais tarde, choque do Exército… dispersam os agitadores, que voltam à recarga, pouco depois. Repelidos a bala, deixam em campo, feridos, vários manifestantes: entre eles, Labib Carneiro Habibude e Ari de Oliveira Mendes Cunha, que morreram às 22h no Pronto-Socorro”.

O corpo de Labibe deu entrada no IML no dia 02/04/1964, de onde foi retirado para sepultamento pela família. De acordo com o legista Nelson Caparelli, a causa mortis foi “ferimento transfixante do tórax, por projétil de arma de fogo, hemorragia interna”.

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1964

 

Filiação: Maria Alves de Oliveira e Manoel Cândido de Oliveira

Data e local de nascimento: 21/10/1934, Sergipe

Organização política ou atividade: sargento do Exército Brasileiro

Data e local da morte: 08/05/1964, Rio de Janeiro

 

No livro Torturas e Torturados, Márcio Moreira Alves denunciou a prisão de Manuel Alves de Oliveira, 2º sargento do Exército, retido no Regimento Andrade Neves, em abril de 1964, onde respondia a IPM. O livro informa ainda que ele foi removido para o Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro, e morreu no dia 08/05, em circunstâncias não esclarecidas. O laudo necroscópico elaborado no IML/RJ confirma que o corpo deu entrada no dia 08/05/1964, procedente do HCE.

”Em outro documento do HCE, o médico chefe do SDP, Samuel dos Santos Freitas, presta a seguinte declaração, em 23/4/1964: “Declaro que o 2º sargento Manuel Alves de Oliveira encontra-se baixado na 13ª enfermaria e devido às suas condições atuais encontra-se impossibilitado de assinar qualquer documento”.

Matéria do Correio da Manhã, de 16/09/1964, traz a seguinte notícia: “A viúva do sargento Manuel Alves de Oliveira, Norma Conceição Martorelli de Oliveira, disse ontem ao Correio da Manhã que o seu marido foi torturado no HCE, onde inclusive, aplicaram-lhe choques elétricos. ‘Numa das poucas vezes em que consegui visitá-lo… verifiquei que o seu corpo estava coberto de marcas, que mais tarde soube serem de ferro quente. Estava transformado em um verdadeiro flagelado, com a barba e os cabelos crescidos’.”. A notícia continua: “… revelou ainda a viúva do militar torturado que as autoridades procuraram convencê-la de que seu marido era débil mental. ‘Chegaram a dizer… que ele ficou despido na enfermaria 13 e colocou a roupa pendurada nas grades do cárcere. Se isso ocorreu, é porque as torturas já o haviam enlouquecido’..”..

E mais: “... nem sei mesmo como explicar porque o internaram no HCE, pois quando Manuel saiu de casa estava em perfeita saúde. Não tinha nenhuma doença e jamais demonstrou qualquer desequilíbrio mental, como, aliás, prova o fato de ter 10 anos de Exército…”  “… Acrescentou a Sra. Norma que conseguiu avistar o marido apenas três vezes e depois teve suspensa essa ordem: ‘Na primeira vez… apesar de seu estado, conseguiu dar-lhe comida na boca. Depois da proibição de visitá-lo, somente voltou a ter notícias suas quando já estava morto. ‘Não consegui saber qual causa foi atribuída à sua morte e o atestado de óbito também não a esclarecia’…”

No livro de registros de enterros do cemitério do Realengo (RJ), onde o sargento foi sepultado no dia seguinte ao da sua morte, não há qualquer referência sobre a causa, revelando apenas que o sepultamento ocorreu às expensas do Grupo de Canhão Anti-Aéreo-90, onde servia. Segundo depoimento da esposa, Manuel foi preso em casa, na presença dos cinco filhos menores do casal, por um homem em trajes civis que chegou com outras pessoas sem farda, em uma Kombi. Somente dois dias depois, recebeu a confirmação de que ele estava preso e ficou surpresa ao descobrir que era mantido no HCE, pois não se encontrava doente ao sair de casa.

Antes disso, no I Exército, disseram à esposa que o sargento estava preso em um navio-presídio, o que não era verdade. Segundo conseguiu apurar, a única acusação feita a seu marido foi ter sido candidato à presidência do Clube dos Subtenentes e Sargentos do Exército nas últimas eleições, sendo simpatizante do ex-presidente João Goulart.

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1965

 

Filiação: Geomira Araújo de Mello e Paulino de Mello

Data e local de nascimento: 20/07/1913, Espírito Santo (PB)

Organização política ou atividade: não definida

Data e local da morte: 30/07/1965, no Rio de Janeiro (RJ)

 

Paraibano de nascimento, o comerciante Severino Elias se mudou para o Rio de Janeiro aos 17 anos, engajando-se na Aeronáutica. Foi preso em 1935, quando da tentativa de insurreição liderada por Luiz Carlos Prestes, do PCB e da Aliança Nacional Libertadora. Foi preso no dia 28/07/1965 por oficiais da Aeronáutica, que estavam à paisana e armados de metralhadoras, sendo conduzido à Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro (RJ). Lá permaneceu incomunicável por um dia, ao fim do qual teria cometido suicídio com um lençol, segundo a versão oficial. O registro de ocorrência nº 1122, da 37ª DP (30/07/1965) confirma comunicação da Base Aérea e informa que “…cerca de zero hora de hoje o indivíduo Severino Elias de Melo, de qualificação ignorada, preso para averiguações por ordem do encarregado de um IPM instaurado no Núcleo do Parque de Material Bélico, suicidou-se (enforcou-se) no xadrez da Base Aérea do Galeão”.

O óbito nº 29.474 teve como declarante Dalton Pereira de Souza, e foi firmado por Cyríaco Bernardino de Almeida Brandão. A família retirou o corpo de Severino para enterrá-lo no Cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador (RJ). Consta no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos que a militância política de Severino é “desconhecida”. Mas sua filha incluiu no processo depoimento onde comprova a atividade política do pai. Além disso, o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro guarda um dossiê do departamento Federal de Segurança Pública, Comunismo no Exército, que inclui seu nome em uma lista de pessoas libertadas em 1935.

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1966

 

Militância política desconhecida.

 

O corpo de José Sabino entrou no IML/RJ, em 19 de maio de 1966 (data de sua morte), pela guia expedida pelo Hospital Paulino Werneck, após ter sido ferido à bala em manifestação de rua, no Rio de Janeiro, reprimida pela polícia.

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1968

 

Filiação: Domergues Dias de Amorim e José Leite de Amorim

Data e local de nascimento: 22/07/1946, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: não definida

Data e local da morte: 23/10/1968, Rio de Janeiro (RJ)

 

Servente da Companhia Antarctica Paulista, no Rio de Janeiro.

Morto aos 22 anos de idade, em 23 de outubro de 1968, após ser baleado em uma passeata na Avenida 28 de setembro, no Bairro de Vila Isabel.

Ao que tudo indica, Clóvis não fazia parte da passeata, tendo sido morto pelas armas dos policiais que tentavam dispersar os manifestantes desarmados.

Clóvis deu entrada no Hospital Pedro Ernesto, já sem vida. Seu corpo foi encaminhado ao IML pela 20ª DP.

O corpo foi retirado por seu pai, José Leite de Amorim, sendo enterrado pela família no Cemitério do Mundú.

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1968

 

Filiação: Alzira Novais Meira e Valdomiro de Souza Meira

Data e local de nascimento: 22/06/1943, Nanuque (MG)

Organização política ou atividade: não definida

Data e local da morte: 01/04/1968, no Rio de Janeiro (RJ)

 

David trabalhava na Companhia de Navegação Costeira do Rio de Janeiro e morreu baleado aos 24 anos, durante manifestação pública de protesto contra o assassinato de Edson Luiz, realizada no quarto aniversário do regime militar, na Avenida Nilo Peçanha, centro do Rio. O corpo foi encaminhado ao IML/RJ, após exame necroscópico em 02/04/68, assinado pelos legistas Nelson Caparelli e Ivan Nogueira Bastos, que atestava a morte por “ferimento penetrante do tórax por projétil de arma de fogo, determinando lesão no pulmão”. A certidão de óbito, cujo declarante é Nelson Gonçalves Chaves, informa que a mãe de David, Alzira Novaes Meira, retirou o corpo do IML para ser enterrado no Cemitério de Inhaúma. Seu nome consta no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos.

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1968

 

Filiação: Maria de Belém Lima Souto

Data e local de nascimento: 22/08/1956, Belém (PA)

Organização política ou atividade: Movimento Estudantil

Data e local da morte: 28/03/1968, Rio de Janeiro (RJ)

 

A morte do secundarista Edson Luiz Lima Souto ficou como grande marco histórico das mobilizações estudantis de 1968. Com 18 anos recém-completados, 1m59 de altura e armado apenas com o sonho de conquistar condições dignas na escola onde estudava, foi morto com um tiro certeiro no peito, disparado à queima-roupa por um tenente da PM, em 28/03/1968, contra estudantes que se manifestavam no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. A bala varou seu coração e alojou-se na espinha, provocando morte imediata.

Indignados, seus colegas não permitiram que o corpo fosse levado ao IML, conduzindo-o para a Assembleia Legislativa em passeata. Lá, sob cerco de políciais civis e militares, foi realizada a autópsia e aconteceu o velório. O caixão chegou ao cemitério João Batista nos braços de milhares de estudantes.

Nascido em Belém do Pará, Edson era filho de uma família muito pobre que se empenhou para enviá-lo ao Rio de Janeiro, a fim de que concluísse os estudos secundários. Matriculou-se no Instituto Cooperativo de Ensino, nas proximidades da Secretaria de Economia do Estado. Conforme entrevistas concedidas à revista Fatos e Fotos por integrantes da Frente Unida dos Estudantes do Calabouço, o garoto não chegava a ser um líder estudantil. Falava pouco e ainda estava meio desconfiado, mas colaborava colando jornais murais e dando recados, contaram os colegas.

Estava programada mais uma passeata e Edson resolveu jantar mais cedo, naquele 28 de março, para ter tempo de preparar alguns cartazes.

Segurava a bandeja na mão quando começou uma correria e foi atingido por um cassetete no ombro. Os policiais militares, que tinham invadido o local, começaram a atirar. Os estudantes armaram-se de paus e pedras para responder. Foi quando Edson caiu. Na mesma ocasião, tiros atingiram o comerciário Telmo Matos Henrique e o estudante Benedito Frazão Dutra.

Conforme a versão de algumas testemunhas, o tenente PM Alcindo Costa teria ficado enraivecido ao ser atingido por uma pedrada na cabeça.

Outros jovens presentes no local afirmaram que Edson foi atingido por se encontrar à porta quando a tropa chefiada por Alcindo entrou em formação fechada de ataque.

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1968

 

Filiação: Aristotelina da Silva Lembo e Hércules Lembo

Data e local de nascimento: 05/07/1952, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: não definida

Data e local da morte: 01/07/1968, Rio de Janeiro (RJ)

 

Dias antes de completar 16 anos de idade, o comerciário Fernando da Silva Lembo morreu baleado pela PM do Rio de Janeiro. Ele foi uma das inúmeras vítimas da repressão política exercida contra manifestações de protesto que ocorreram naquela cidade no dia 21/06/1968. A virulência policial atingiu tal escala, nessa data, que ensejou a realização de uma gigantesca manifestação cinco dias depois, a histórica Passeata dos Cem Mil, quando a população do Rio tentou dar um basta à escalada repressiva das autoridades de segurança do regime militar.

Atingindo na cabeça, Lembo foi levado para o Hospital Souza Aguiar. Lá, permaneceu em estado de coma e faleceu no dia 1º de julho. O legista Alves de Menezes definiu como causa mortis: “ferida penetrante no crânio com destruição parcial do cérebro”.

O estudante morreu no Hospital Souza Aguiar. O boletim de informações fornecido pelo IML/RJ, documento indispensável para a remoção do cadáver, também informa que Lembo, ao ser internado naquele hospital, apresentava “ferida por projétil de arma de fogo com orifício de entrada na região temporal. Projétil localizado na região occipital”. O relator afirma não haver dúvida de que Lembo morreu vítima da violência policial, o que também é comprovado por matéria jornalística anexada aos autos.

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1968

 

Filiação: Geralda Maria de Jesus e Joaquim Paula

Data e local de nascimento: 10/02/1938, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: Operário

Data e local da morte: 02/04/1968, Rio de Janeiro (RJ)

 

Operário, Jorge Aprígio de Paula foi outra vítima do mesmo dia de manifestações no Rio de Janeiro, em protesto contra a morte de Edson Luiz. Naquele 1º de abril de 1968, um dos vários grupos de estudantes em passeata se aproximou do Palácio de Laguna, residência do ministro da Guerra, na Rua general Canabarro. Soldados da Polícia do Exército, que protegiam o local, abriram fogo contra os manifestantes, atingindo várias pessoas e matando Jorge. O corpo do estudante entrou no IML no dia 02/04/1964, denotando que o óbito pode ter ocorrido na véspera ou no dia 02.

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1968

 

Filiação: Lucia da Cruz Nunes e Álvaro Goulart Nunes

Data e local de nascimento: 13/10/1947, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: Movimento Estudantil

Data e local da morte: 22/10/1968, Rio de Janeiro (RJ)

 

O estudante Luiz Paulo da Cruz Nunes cursava o segundo ano da Faculdade de Medicina da UERJ (à época Universidade do Estado da Guanabara), sendo também estagiário em patologia, quando foi morto, aos 21 anos, no Rio de Janeiro, depois ter sido atingido por um tiro em manifestação estudantil em frente à sua faculdade, no dia 22/10/1968. Internado no próprio Hospital Pedro Ernesto, local da manifestação, com ferimento no crânio, foi operado, mas faleceu na mesma data. A necropsia foi realizada pelos legistas João Guilherme Figueiredo e Nelson Caparelli.

De acordo com o médico Lafayette Pereira, colega de turma de Luiz Paulo, os dois estiveram com cerca de outros 600 alunos protestando contra o regime militar no dia 22/10/1968, à tarde, em frente ao Hospital Pedro Ernesto, no bairro de Vila Isabel, quando um camburão da polícia estacionou em frente aos manifestantes e cinco pessoas armadas com pistolas calibre 45 saltaram e descarregaram suas armas contra eles. Acuados pela estreita porta de entrada para o hospital, não tiveram para onde correr. Cerca de 10 colegas foram baleados, mas o único com gravidade foi Luiz Paulo, atingido na cabeça. “Faleceu na mesa de cirurgia do hospital que ele, ainda jovem, já gostava de frequentar como estudante brilhante que foi. Assisti à luta dos neurocirurgiões para salvar-lhe a vida. Teve duas paradas cardíacas que foram recuperadas e uma terceira, definitiva, às 21 horas”, contou Lafayette. Cópia da certidão de óbito juntada aos autos estabelece como causa mortis: “Ferida penetrante do crânio com destruição parcial do tecido nervoso e hemorragia das meninges”.

O jornal Correio da Manhã de 23/10/1968 estampou: Polícia mata estudante a tiros e ataca Hospital das Clínicas. A matéria descreve: “Pela manhã foram realizadas duas passeatas e várias assembleias internas. Depois das 12h os estudantes da UEG foram para a porta do Hospital das Clínicas e estavam inaugurando a estátua Liberdade-68 quando foram atacados por agentes do DOPS, a tiros. Três policiais foram feridos em lutas corporais. Depois do primeiro choque os estudantes foram para dentro do hospital, que funciona junto da Faculdade de Ciências Médicas, em Vila Isabel, e os policiais os cercaram totalmente. Mas numa das salas do hospital a luta continuava: um aluno do segundo ano de Medicina, Luiz Paulo Cruz Nunes, de 23 anos, baleado no crânio, não resistiu a duas horas de operação, respiração artificial e choques elétricos no coração. Às nove da noite, estava morto”.

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1968

 

Filiação: Lucia da Cruz Nunes e Álvaro Goulart Nunes

Data e local de nascimento: 13/10/1947, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: Movimento Estudantil

Data e local da morte: 22/10/1968, Rio de Janeiro (RJ)

 

O estudante Luiz Paulo da Cruz Nunes cursava o segundo ano da Faculdade de Medicina da UERJ (à época Universidade do Estado da Guanabara), sendo também estagiário em patologia, quando foi morto, aos 21 anos, no Rio de Janeiro, depois ter sido atingido por um tiro em manifestação estudantil em frente à sua faculdade, no dia 22/10/1968. Internado no próprio Hospital Pedro Ernesto, local da manifestação, com ferimento no crânio, foi operado, mas faleceu na mesma data. A necropsia foi realizada pelos legistas João Guilherme Figueiredo e Nelson Caparelli.

De acordo com o médico Lafayette Pereira, colega de turma de Luiz Paulo, os dois estiveram com cerca de outros 600 alunos protestando contra o regime militar no dia 22/10/1968, à tarde, em frente ao Hospital Pedro Ernesto, no bairro de Vila Isabel, quando um camburão da polícia estacionou em frente aos manifestantes e cinco pessoas armadas com pistolas calibre 45 saltaram e descarregaram suas armas contra eles. Acuados pela estreita porta de entrada para o hospital, não tiveram para onde correr. Cerca de 10 colegas foram baleados, mas o único com gravidade foi Luiz Paulo, atingido na cabeça. “Faleceu na mesa de cirurgia do hospital que ele, ainda jovem, já gostava de frequentar como estudante brilhante que foi. Assisti à luta dos neurocirurgiões para salvar-lhe a vida. Teve duas paradas cardíacas que foram recuperadas e uma terceira, definitiva, às 21 horas”, contou Lafayette. Cópia da certidão de óbito juntada aos autos estabelece como causa mortis: “Ferida penetrante do crânio com destruição parcial do tecido nervoso e hemorragia das meninges”.

O jornal Correio da Manhã de 23/10/1968 estampou: Polícia mata estudante a tiros e ataca Hospital das Clínicas. A matéria descreve: “Pela manhã foram realizadas duas passeatas e várias assembleias internas. Depois das 12h os estudantes da UEG foram para a porta do Hospital das Clínicas e estavam inaugurando a estátua Liberdade-68 quando foram atacados por agentes do DOPS, a tiros. Três policiais foram feridos em lutas corporais. Depois do primeiro choque os estudantes foram para dentro do hospital, que funciona junto da Faculdade de Ciências Médicas, em Vila Isabel, e os policiais os cercaram totalmente. Mas numa das salas do hospital a luta continuava: um aluno do segundo ano de Medicina, Luiz Paulo Cruz Nunes, de 23 anos, baleado no crânio, não resistiu a duas horas de operação, respiração artificial e choques elétricos no coração. Às nove da noite, estava morto”.

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1968

 

Filiação: Maria Madalena Rodrigues Ferreira e Manoel Alves Ferreira

Data e local de nascimento: 06/03/1950, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: não definida

Data e local da morte: 05/08/1968, Rio de Janeiro (RJ)

 

Manoel morreu no Rio de Janeiro, em 05/08/1968, depois de ser ferido na cabeça por duas balas, na Avenida Rio Branco, esquina com Sete de Setembro, quando participava da mencionada manifestação de 21 de junho. Ele foi socorrido no Hospital Souza Aguiar e operado. Em seguida, foi transferido para a Casa de Saúde Santa Luzia e, posteriormente, para o Hospital Samaritano, onde não resistiu, conforme consta no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos. O corpo do estudante entrou no IML/RJ pela Guia n° 85, da 10ª DP. O atestado de óbito (n° 92.932) foi assinado pelo legista Rubens Pedro Macuco Janini, tendo como declarante Francisco de Souza Almeida. O enterro, realizado pela família, aconteceu no Cemitério de Inhaúma (RJ).

O estudante trabalhava em uma loja chamada 5ª Avenida, no centro da cidade. Ao chegar para trabalhar observou que a passeata avançava e estava cada vez mais perto de seu local de trabalho. Naquele dia as lojas fecharam mais cedo. Ao ver uma pessoa tombar na manifestação, o rapaz correu ao seu encontro e ficou de joelhos, tentando socorrer o ferido, quando recebeu os tiros que o mataram 45 dias depois.

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1968

 

Morta a tiros pela polícia carioca, no dia 21 de junho de 1968, quando da repressão às manifestações de Rua realizadas naquele dia.

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1969

 

Filiação: Emilia Brickmann Schreier e Ire Schreier

Data e local de nascimento: 23/09/1946, São Paulo (SP)

Organização política ou atividade: VAR-Palmares

Data e local da morte: 22/11/1969, Rio de Janeiro (RJ)

 

Dirigente da VAR-Palmares, cursava o 5º ano de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo em 1968, integrando a executiva da União Estadual dos Estudantes. Após a decretação do AI-5, passou a atuar na clandestinidade. Tinha sido antes, militante da DISP. Participou da redação e distribuição de um jornal denominado Luta Operária. Documentos dos órgãos de segurança registram sua participação em algumas ações armadas em São Paulo, inclusive em dois assaltos a banco onde ocorreram mortes.

Foi preso no dia 21/11/1969, em uma casa no bairro de Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro, onde residia com Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, e Antônio Roberto Espinosa, também integrantes da VAR-Palmares. Os três foram levados para o batalhão da Polícia do Exército e Chael morreu no dia seguinte, submetido a indescritíveis torturas, como chegou a ser noticiado pela revista Veja, driblando a rigorosa censura de imprensa vigente na época. O caso também foi publicado em veículos internacionais como o New York Times, Le Monde e The Times.

A versão oficial, registrada em documento do II Exército encontrado nos arquivos do DOPS/SP, resumia: “reagiram violentamente com disparos de revólver, espingarda e mesmo com bombas caseiras. Da refrega, os três terroristas saíram feridos, sendo Chael o que estava em estado mais grave. Foram medicados no HCE, entretanto Chael sofreu um ataque cardíaco, vindo a falecer”.

Em depoimentos à Auditoria Militar, Dora e Espinoza denunciaram a morte de Chael e a tortura sofrida pelos três. Marcada profundamente pela violência a que foi submetida, Maria Auxiliadora viria a cometer suicídio em 1976, atirando-se nos trilhos do metrô na Alemanha. Na última vez em que ambos viram Chael na Polícia do Exército, ele tinha o pênis dilacerado e o corpo ensopado de sangue. Apontaram, em juízo, o nome dos torturadores e responsáveis pela morte de Chael: capitão João Luís, tenente Celso Lauria e capitão Airton Guimarães, sendo este último um conhecido expoente do jogo de bicho no Rio de Janeiro, preso mais de uma vez em anos recentes por contravenções e crimes mais graves.

Outro depoimento é do coronel Carlos Luiz Helvécio da Silveira Leite, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 24/02/1988. Conforme declarou na entrevista, esse oficial estava de plantão quando recebeu a comunicação da Vila Militar de que o universitário paulista havia falecido naquela dependência durante interrogatório. O coronel, que fora membro do Centro de Informações do Exército, declarou que o oficial por ele enviado para esclarecer os fatos lhe disse: “Fiquei encabulado de ver o corpo despido e o número de equimoses e sevícias que o cadáver apresentava”.

Em A Ditadura Escancarada, Elio Gaspari acrescenta mais informações e analisa: “Havia um cadáver na 1ª Companhia da PE. Em casos anteriores esse tipo de problema fora resolvido com um procedimento rotineiro. Fechava-se o caixão, proclama-se o suicídio e sepultava-se o morto. O método já dera certo duas vezes, naquele mesmo quartel. Em maio, com Severino Viana Colou, e em setembro, com Roberto Cieto. Tratava-se de seguir o manual, e Helvécio despachou para a PE de Deodoro o tenente-coronel Murilo Fernando Alexander, do CIE.

O cadáver de Chael foi levado por Alexander para o hospital central do Exército. ‘Não concordaram em aceitá-lo como se tivesse entrado vivo’, contou o tenente-coronel Helvécio. A decisão fora tomada pelo próprio diretor do hospital, general Galeno da Penha Franco. Pior: o general reteve o morto e determinou que se procedesse à autópsia. O CIE tinha dois problemas. O tiroteio e as prisões da Rua Aquidabã eram públicas pois haviam sido noticiados pelas rádios. Ademais, os presos foram três, e dois estavam vivos. Isso excluía a fórmula do sumiço do corpo, usado dois meses antes na Operação Bandeirante, depois do assassinato de Virgílio Gomes da Silva. O atestado de óbito excluía a versão de suicídio. “A origem social de Chael, um ex-estudante de medicina saído de uma família judia da classe média paulista, cortava o caminho ao funeral de indigente que ajudara a abafar a morte de Severino Colou”.

O corpo do estudante foi entregue à família em caixão lacrado. Militares do II Exército acompanharam o traslado dos restos mortais para São Paulo, proibindo a realização do ritual judaico de sepultamento no cemitério israelita do Butantã, que inclui um banho no cadáver, para que as verdadeiras circunstâncias de sua morte não ficassem estampadas

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1969

 

Filiação: Liubovi Gradinar Delizoicov e Jorge Delizoicov

Data e local de nascimento: 27/03/1951, em São Paulo (SP)

Organização política ou atividade: VPR

Data e local da morte: 16/10/1969, Rio de Janeiro (RJ)

 

O estudante paulista Eremias Delizoicov foi morto aos 18 anos de idade, no Rio de Janeiro, em 16/10/1969. Militante da VPR, estava na sua residência, na Vila Cosmos, quando a casa foi cercada pela Polícia do Exército.

Criado no bairro da Mooca, na capital paulista, Eremias militava no Movimento Estudantil secundarista, como aluno da escola estadual MMDC, tendo se engajado na campanha para obter fundos de solidariedade à greve dos metalúrgicos de Osasco, em julho de 1968. Em 1967, fora aprovado no exame de seleção da Escola Técnica Federal de São Paulo e cursou, simultaneamente ao colegial no MMDC, o curso de mecânica. Estudava música e praticava esportes. Com 11 anos, havia disputado, em 1962, o torneio paulista de judô, obtendo a primeira colocação na categoria. Em 1967, integrou a equipe de remadores do Corinthians e começou a treinar capoeira. Em 1969, ao saber que fora identificado pelos órgãos de segurança, comunicou aos pais sua militância política. Tentaram convencê-lo a sair do país, mas o filho optou pela luta na clandestinidade.

O corpo de Eremias deu entrada no IML/RJ sem identificação e foi enterrado com o nome de José Araújo Nóbrega, o sargento Nóbrega, militante da VPR que ainda vive. Conforme documento da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, foi sepultado no Cemitério São Francisco Xavier e recolhido ao ossuário geral cinco anos depois, sendo incinerado, ‘como de praxe’.

Os pais de Eremias somente foram informados de sua morte pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury em janeiro de 1970, mas nunca receberam os restos mortais. Somente 23 anos depois obtiveram judicialmente o atestado de óbito.

A perícia oficial registra que Eremias foi atingido por disparos de armas de fogo e apresentava ferimentos lácreo-contusos, cuja procedência seria verificada na necropsia, sendo citados pelo menos 29 disparos nas paredes da casa. Os legistas Elias Freitas e Hygino de Carvalho Hércules atestaram ferimento transfixante da cabeça com dilaceração do encéfalo e não lhes bastou todo o alfabeto — de ‘a’ a ‘z’ — para a identificação dos orifícios de entrada e saída de projéteis de arma de fogo. Sendo insuficiente o número de letras, iniciaram uma nova série de ‘a’ a ‘f’, com acréscimo de novo símbolo, e ainda, para viabilizar o trabalho, passaram a identificar os orifícios de forma agrupada. Ao todo, são descritas 19 lesões de entrada e 14 de saída de projéteis.

O perito criminal Celso Nenevê analisou os laudos de perícia e de exame cadavérico, comparando-os com as fotos anexadas. Constatou que os responsáveis pela perícia local, estranhamente, não verificaram ou não descreveram, disparos feitos do interior para o exterior da residência cercada. Ressaltou que a posição do corpo, pela foto, não é compatível com sua posição de repouso final, nem tampouco é condizente a mancha de sangue que aparece na parede com a posição do corpo. Pôs em dúvida que, no local, pudesse ter havido explosão capaz de causar as lesões descritas, já que até os fragmentos de vidro oriundos dos tiros nas janelas são identificados.

Quanto ao exame cadavérico, Nenevê descreve que “a vítima apresenta contusões profundas (…) com características daquelas produzidas por onda de choque, oriunda da detonação de artefato explosivo. Dada a grande intensidade das lesões que experimentou a vítima em função da onda de choque, é praticamente certo o estado de, no mínimo, morte cerebral da vítima”, impossibilitando que ela tivesse condições de ataque, defesa ou fuga. Mas registra a impossibilidade de uma conclusão definitiva, deixando indagações em aberto: “onde estas lesões se produziram, já que a residência não foi este local, e ainda como foi ter naquele local após a explosão, estes são questionamentos que não puderam ser esclarecidos pela falta de elementos materiais no processo”.

Os familiares de Eremias, ao receberem a indenização doaram o valor para a criação do site www.desaparecidospoliticos.org.br, construído e alimentado pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, que o denominou Centro de Documentação Eremias Delizoicov.

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1969

 

Filiação: Erotilde Malta da Silva e João Ricardo da Silva

Data e local de nascimento: 20/08/1925, Minas Gerais

Organização política ou atividade: sindicalista

Data e local da morte: 17/07/1969, Rio de Janeiro (RJ)

 

Afrodescendente e ascensorista da Rede Ferroviária Federal, onde foi funcionário durante 19 anos, Geraldo Bernardo foi preso na madrugada de 08/07/1969 quando sua casa foi invadida por uma patrulha do Exército. Foi levado para a Vila Militar de Deodoro, onde ficou por alguns dias. Ao voltar para casa, Geraldo, que segundo sua esposa Iraci de Lima Silva “sempre foi uma pessoa gentil”, passou a mostrar-se nervoso e irritado. No dia 17/07/1969, ele foi levado por Iraci e pelo irmão José Vicente da Silva ao serviço médico da Rede Ferroviária Federal, que funcionava no 19º andar do edifício sede no Rio de Janeiro. Geraldo disse, então, que precisava ir ao banheiro. Ao estranhar a longa demora, Iraci foi verificar o que estava acontecendo e constatou que ele havia se jogado da janela.

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1969

 

Filiação: Miracy Torres Gonçalves e Paulo Fernandes Gonçalves

Data e local de nascimento: 28/12/1949, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: estudante

Data e local da morte: Desaparecido em 26/03/1969, Rio de Janeiro (RJ)

 

O caso de Paulo Torres Gonçalves, estudante secundarista carioca, funcionário do Ibope e aluno do curso científico do Colégio Profissional Ferreira Viana, Maracanã, Rio de Janeiro. Foram anexados documentos dos pais denunciando o desaparecimento do filho em 26 de março de 1969, aos 19 anos, e sua busca nos diversos órgãos públicos. Em seus relatos, informam que receberam de um sargento da Aeronáutica e de um capitão do Exército a notícia de que Paulo teria sido preso pelo DOPS e encaminhado à Marinha. Nada havendo contra ele, seria libertado em breve, o que não ocorreu.

Segundo pesquisas feitas pelo Grupo Tortura Nunca Mais/RJ (GTNM/RJ) junto à mãe de Paulo, um detento da Ilha Grande enviou carta aos pais de Paulo contando que teria estado com ele, no Presídio Tiradentes, em São Paulo (SP), encontrando-se o jovem completamente desmemoriado. O relato foi confirmado na presença do casal e do chefe da segurança da Ilha Grande. Em 1971, a família recebeu a notícia de que o estudante apareceu morto, vítima de afogamento. O cadáver, contudo, não correspondia a ele. As informações da época, em atendimento aos pedidos de localização, indicavam que Paulo Torres não registrava antecedentes nos órgãos de segurança.

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1969

 

Filiação: Maria do Carmo Silveira Pimenta e José Bastos Pimenta

Data e local de nascimento: 04/03/1945, Niterói (RJ)

Organização política ou atividade: MR-8

Data e local da morte: 27/06/1969, Rio de Janeiro (RJ)

 

No dia 27/06/1969, na Rua Bolívar, em Copacabana, Rio de Janeiro, o apartamento onde estava o estudante fluminense Reinaldo Silveira Pimenta foi invadido por agentes da polícia política. Em circunstâncias não esclarecidas, Reinaldo caiu ou foi jogado pela janela do apartamento. Foi encaminhado ao Hospital Miguel Couto, morrendo poucas horas depois. Seu corpo deu entrada no IML/RJ com a guia nº 13, da 14ª DP, como desconhecido, “morto ao cair na área interna do prédio”.

A necropsia foi assinada no dia seguinte pelo médico Mário Martins Rodrigues, que determinou a causa mortis como “fratura da coluna vertebral com ruptura do pulmão esquerdo e hemorragia interna”. O prontuário do DOPS/RJ, registra que Reinaldo, “suicidou-se em 27/06/1969, ao ser preso no aparelho da Rua Bolívar, nº 124, apt. 510, em Copacabana, alugado pelo Partido”.

Constam no processo notícias veiculadas nos jornais do dia 01/07/1969, informando o ocorrido, sendo fato que agentes do DOPS (ou do CENIMAR, segundo alguns registros) ocupavam o prédio e suas imediações, aguardando a chegada de Reinaldo.

Reinaldo cursava o 3º ano de Engenharia na Universidade do Estado da Guanabara (hoje UERJ), depois de ter estudado no Colégio Salesiano Santa Rosa, em Niterói, frequentando também aulas de inglês no Instituto Brasil-Estados Unidos, além de trabalhar como professor. Militante do Movimento Estudantil, morreu como dirigente do primeiro MR-8, grupo nascido da Dissidência do PCB em Niterói, que tentou iniciar a implantação de uma base guerrilheira no Oeste do Paraná. Documentos dos órgãos de segurança do regime militar incluem seu nome como integrante do “comando de Expropriações” da organização, imputando-lhe a participação em algumas ações armadas de reduzida expressão, em 1968 e 1969.

Foi sepultado no cemitério de Maruí, em Niterói, e durante o mandado do prefeito Saturnino Braga, do Rio de Janeiro, a Câmara Municipal aprovou a designação de uma Rua da Vila Kennedy com o seu nome.

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1969

 

Filiação: Dorvalina da Silva Cietto e Primo Cietto

Data e local de nascimento: 12/10/1936, Pederneiras (SP)

Organização política ou atividade: MAR

Data e local da morte: 04/09/1969, Rio de Janeiro (RJ)

 

Roberto Cietto foi preso no dia 04/09/1969, quando passava casualmente em frente à casa do embaixador americano Charles Burke Elbrick, sequestrado no mesmo dia. Era conhecido e procurado pelos agentes de segurança, pois em maio daquele ano havia fugido da penitenciária Lemos de Brito, no Rio de Janeiro, Levado diretamente para o primeiro Batalhão da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, resistiu a apenas algumas horas de torturas.

Roberto havia iniciado a militância política na penitenciária, onde cumpria pena como preso comum, após estabelecer contato com os presos políticos, aderindo assim à resistência política. Fugiu do presídio junto com um grupo de presos políticos, dentre eles alguns ex-marinheiros, como Avelino Capitani, José Duarte e Marco Antônio da Silva Lima (morto em janeiro de 1970), além do ex-sargento da Aeronáutica, Antonio de Paula Prestes, que constituíram uma nova organização clandestina denominada MAR — Movimento de Ação Revolucionária. De início, o grupo de nove prisioneiros evadidos se instalou na região de Angra dos Reis, onde realizou deslocamentos e treinamentos de guerrilha. Em seguida, retornaram ao Rio de Janeiro, onde, segundo os órgãos de segurança, Cietto participou de algumas ações armadas.

Em A Ditadura Escancarada, o jornalista Elio Gaspari escreveu sobre Cietto: “interrogam-no durante três horas, o máximo. Às 18h40 ele morreu de pancada. O cadáver tinha o olho direito roxo, com um corte na pálpebra e ferimentos na testa, no tórax, num braço e numa perna. Foi sepultado como suicida. De acordo com as versões oficiais, era o 17º do regime, o sétimo a se enforcarr numa cela, o sexto a fazê-lo num quartel. Segundo o laudo da perícia, asfixiou-se sentado”.

O corpo deu entrada no IML no mesmo dia 4, sendo necropsiado por requisição do Quartel do I Exército, de onde foi removido. A necropsia, assinada pelos médicos Elias Freitas e João Guilherme Figueiredo, em 05/09, confirma a versão oficial de que Roberto teria cometido suicídio por enforcamento, em sua cela, no DOI-CODI/RJ, apesar de descrever algumas escoriações encontradas no corpo, como hematomas, na pálpebra direita, no braço direito e na perna esquerda. As fotos da perícia de local, realizada pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli, mostram claramente marcas de torturas. Além disso, análise do material fotográfico mostra que não havia como Roberto ter se enforcado, pois estava praticamente sentado. Também o laudo de perícia de local, feito pelo mesmo órgão oficial cita outras escoriações além das apresentadas na necropsia, afirmando que, “(…) a necropsia a ser procedida deverá esclarecer a autenticidade dos ferimentos por ações contundente constatadas nas regiões frontal orbitária direita e face anterior do joelho direito da vítima” (sic).

O atestado de óbito contém apenas seu nome. Todas as outras informações constam como ignoradas, apesar de tratar-se de alguém que já havia cumprido pena, tendo todos os dados de identificação disponíveis para as autoridades, o que foi confirmado por sua ficha do Instituto Félix Pacheco. Roberto Cietto foi enterrado como indigente no cemitério de Santa Cruz (RJ), em 30/09/1969.

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1969

 

Filiação: Maria Belarmina da Conceição e Ulisses Viana Callôr

Data e local de nascimento: em 1930, CaRuaru (PE)

Organização política ou atividade: COLINA

Data e local da morte: 24/05/1969, Rio de Janeiro (RJ)

 

O sargento Severino Viana Callôr, nascido em Pernambuco e ex-presidente da Associação de Cabos e Sargentos da PM do estado da Guanabara, militante do COLINA, foi preso e morreu em uma cela da 1ª Companhia da Polícia do Exército, no Rio de Janeiro. De acordo com o IPM nº 1.478, realizado no quartel general da 1ª Divisão de Infantaria, na Vila Militar, ele estava preso e foi encontrado morto por volta das 11h35 do dia 24/05/1969, enforcado com a própria calça, amarrada em uma das barras da cela. Assinou a necropsia o legista Rubens Pedro Macuco Janine. A família somente requereu em 2002.

Da mesma forma que já mencionado a respeito de João Lucas Alves, documentos dos órgãos de segurança do regime militar acusam Severino, genericamente, de participação em algumas ações armadas ocorridas em 1968, ao lado do sargento Lucas, tanto em Belo horizonte quanto no Rio de Janeiro, incluindo-o também como integrante do comando que matou o major do exército alemão Edward Von Westernhagen, já mencionado.

O auto da autópsia é datado de 24/05/1969, sendo que o cadáver deu entrada no IML às 17h20 do dia 02/06/1969, oriundo do Hospital Central do Exército. Sua morte sob torturas foi denunciada em depoimentos de presos políticos nas auditorias militares.

O laudo pericial do local de morte foi assinado pelos sargentos Euler Moreira de Moraes e Erivaldo Lima dos Santos. Embora registre que “Em ambas as pernas, na altura da canela, apresentava ferida contusa e escoriações generalizadas pelo tronco. Nas nádegas apresentava hematomas de formato irregular”, o documento não menciona torturas e, pelo contrário, tece malabarismos de interpretação para justificar outro dos suicídios em que o corpo é encontrado com pés apoiados no solo: “efetuou rodopios da esquerda para a direita até que com essa ação as duas pernas da calça enrolaram-se, passando a constituir um tirante único. Com a continuação dos movimentos, a pressão produzida passou a agir diretamente sobre o pescoço, causando o desfalecimento. Consequentemente, suas pernas perderam a sustentação do tronco, aumentando, desse modo, a pressão sobre o pescoço, atuando com mais eficácia por baixo do queixo, pouco acima do ‘pomo de adão’, ocorrendo com a duração da ação aí localizada, a interrupção do fluxo normal de ar”.

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1970

 

Filiação: Walkyria Sylvete de Palha Freire e Almerindo de Campos Freire

Data e local de nascimento: 15/05/1946, Belém (PA)

Organização política ou atividade: ALN

Data e local da morte: 04/07/1970, Rio de Janeiro (RJ)

 

Eiraldo de Palha Freire foi baleado e preso no dia 01/07/1970, no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, por militares da Aeronáutica, quando tentava sequestrar um avião de passageiros da empresa Cruzeiro do Sul para libertar presos políticos. Também foram presos na mesma operação seu irmão Fernando Palha Freire e o casal Colombo Vieira de Souza Júnior e Jessie Jane, militantes da ALN que teriam decidido realizar o sequestro para libertar o pai de Jessie, preso político em São Paulo como militante da mesma organização. Eiraldo morreu em 04/07/70, no Hospital da Aeronáutica, sendo sepultado pela família no dia seguinte, no Cemitério São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro.

Os três presos sobreviventes da tentativa de sequestro do avião foram formalmente acusados pela morte de Eiraldo, e Colombo indiciado por tê-lo atingido. No decorrer do julgamento, a Promotoria concordou com a versão da defesa de que Eiraldo havia cometido suicídio.

O exame de corpo de delito, realizado um dia antes da morte, no Hospital da Aeronáutica, no Galeão, quando Eiraldo já se encontrava em coma, foi firmado por Fausto José dos santos Soares e Paulo Erital Jardim, que simplesmente registraram estar baleado. A necropsia, firmada por José Alves de Assunção Menezes e Ivan Nogueira Bastos, descreve algumas escoriações no seu corpo, como na fronte, nariz, incisões cirúrgicas nas regiões temporais e traqueostomia.

O fato inquestionável é que foi visto por Jessie Jane no DOI-CODI e somente foi levado a exame de corpo de delito dois dias depois da prisão. Além disso, tinha, após o exame de corpo de delito, outros ferimentos não descritos no laudo, mas referidos na necropsia.

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1970

 

Filiação: Szajna Spiegner e Jacob Spiegner

Data e local de nascimento: 30/12/1948, Barra do Piraí (RJ)

Organização política ou atividade: MR-8

Data e local da morte: 17/02/1970, Rio de Janeiro (RJ)

 

José Roberto cursou o antigo ginásio e científico no tradicional Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, quando começou a participar do Movimento Estudantil, atuando no grêmio. Estudou também na Aliança Francesa e Cultura Inglesa, fazendo vários outros cursos como cinema e jornalismo. Participou de um concurso de cinema amador de curta metragem, obtendo o 1º lugar. Em 1966, ingressou na Faculdade de Economia da UFRJ, sendo aprovado em 1º lugar no vestibular. Tornou-se ativista do Diretório Acadêmico. Após a decretação do AI-5, passou a atuar na clandestinidade como integrante da Dissidência da Guanabara, que assumiria em setembro de 1969 o nome de MR-8. Era, então, namorado de Vera Silvia Araújo Magalhães, também militante do MR-8 que participou do sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sendo posteriormente presa e torturada. Ela foi banida do país após o sequestro do embaixador alemão no Brasil, Von Holleben, em junho de 1970.

Documentos dos órgãos de segurança do regime militar registram que, em abril de 1969, na III Conferência dessa organização clandestina, Spiegner foi escolhido como um dos três integrantes de sua Direção Geral, ao lado de Daniel Aarão Reis Filho e Franklin de Souza Martins, grupo que foi ampliado no final daquele ano com a entrada de Cid de Queiroz Benjamin, Stuart Edgard Angel Jones e Carlos Alberto Vieira Muniz.

Spiegner morreu aos 21 anos, em 17/02/1970, no Rio de Janeiro, na Rua Joaquim Silva, nº 53, entrada 5, quarto 8, por agentes do DOI-CODI/RJ, onde, segundo a versão oficial, teria ocorrido tiroteio. Seu corpo deu entrada no IML às 12h30m do dia 17/02/1970. No laudo de necropsia, assinado pelos legistas Ivan Nogueira Bastos e Nelson Caparelli, consta que, “a morte ocorreu às 5h30m do dia 17”. Consta na guia que ele foi “perseguido como elemento subversivo por agentes do DOPS, reagiu à bala ferindo policial, e finalmente foi alvejado mortalmente”. O corpo foi enterrado pela família no Cemitério Comunal Israelita de Vila Rosali.

A verdade dos fatos foi obtida do próprio laudo do IML, que detalha os ferimentos no corpo. José Roberto recebeu vários tiros, sendo que dois deles contestam a versão oficial. Examinando as fotos de perícia do local, verifica-se que o corpo fora encontrado em uma sala com o piso acarpetado, onde não havia espaço para que pudesse ter sido atingido, de longe, na coxa. O outro ferimento é sintomático de execução.

Entre os documentos anexados ao processo na CEMDP, há também um requerimento da 1ª Auditoria da Marinha, do Rio de Janeiro, de 03/04/1970, solicitando o laudo ao IML e referindo-se à morte de José Roberto Spiegner “por acidente”. O relator concluiu seu voto afirmando que José Roberto Speigner foi morto quando se encontrava detido por agentes dos órgãos de segurança, sob custódia do Estado.

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1970

 

Filiação: Amélia Guimarães de Brito e Jayme Ferreira de Brito

Data e local de nascimento: 22/01/1938, Belo horizonte (MG)

Organização política ou atividade: VPR

Data e local da morte: 18/04/1970, Rio de Janeiro (RJ)

 

Dirigente da VPR, depois de ter integrado a VAR-Palmares e, antes, a Polop e o Colina, do qual foi um dos fundadores, Juarez Guimarães de Brito recorreu ao suicídio para não ser preso. Havia marcado um encontro com um companheiro na Lagoa Rodrigues de Freitas, no Rio de Janeiro, em 18/04/1970. Chegando à área, na esquina das Ruas general Tasso Fragoso com Jardim Botânico, o carro em que estava com a mulher, Maria do Carmo Brito, foi fechado por um Volkswagen grená. Segundo depoimento dela, Juarez seguiu dirigindo o veículo enquanto ela manejava uma pequena pistola. Os ocupantes do Volkswagen saíram do carro atirando contra os dois militantes. Quando se percebeu completamente cercado, Juarez, já baleado no braço e no abdômen, tirou a arma da mão de Maria do Carmo e desferiu um tiro contra o próprio ouvido direito, cumprindo um pacto que tinha firmado com ela, de não serem presos vivos.

Nascido em Belo Horizonte, Juarez passou parte da infância no Maranhão, quando seu pai, engenheiro, foi secretário de Agricultura daquele estado. Na capital mineira, estudou no Colégio Batista e formou-se em 1962 nos cursos de Sociologia e Política e Administração Pública na UFMG. Apaixonado por cinema, era assíduo frequentador do cineclube do Colégio Arnaldo. Foi membro da juventude trabalhista do PTB e trabalhou junto aos sindicatos de trabalhadores, assessorando e organizando cursos de história e oratória. Participou de várias mobilizações da época, como a greve dos mineiros de Nova Lima, contra a Hanna Corparation e dos trabalhadores da Liga Camponesa de Três Marias.

Em 1963, foi trabalhar em Goiás como assessor e professor da Universidade Federal. Em 1964, mudou-se para Recife, onde exerceu funções na Sudene. Após a deposição de Goulart, foi preso e permaneceu cinco meses detido. Ao ser libertado, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde continuou a trabalhar como sociólogo e pesquisador. Liderou o grupo dissidente da Polop que, em julho de 1968, constituiu o Colina, responsável por inúmeras ações armadas, em Belo Horizonte e no Rio. Após a fusão entre Colina e VPR, que deu origem à VAR-Palmares, Juarez foi um dos dirigentes da nova organização. Comandou a maior operação armada para obtenção de recursos financeiros ocorrida em todo o ciclo da guerrilha urbana, o roubo do cofre de uma amante do ex-governador paulista Adhemar de Barros, contendo 2,8 milhões de dólares.

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1970

 

Filiação: Clarice da Silva Lima e Joaquim Lucas de Lima

Data e local de nascimento: 21/10/1941, João Pessoa (PB)

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local da morte: 14/01/1970, Rio de Janeiro (RJ)

 

Paraibano de João Pessoa, afrodescendente e ex-sargento da Marinha, Marcos Antônio da Silva Lima foi um dos fundadores e, por duas vezes, vice-presidente da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, entidade que comandou importantes mobilizações reivindicatórias e políticas no âmbito da Armada, no período entre 1962 e março de 1964. Já nas vésperas do movimento que depôs João Goulart, 1113 marinheiros, reunidos em vigília no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, tiveram a prisão decretada por insubordinação aos seus comandantes militares, que já ultimavam, àquela altura do calendário, os últimos preparativos para o Golpe de Estado.

Marcos Antônio estudou no colégio Lins de Vasconcelos, em João pessoa, na escola Técnica de Comércio, em Campina grande, e no Colégio Estadual Liceu Paraibano, também em João Pessoa. Ainda na Paraíba, foi jogador de futebol pelo time Estrela do Mar. Em 1958, iniciou sua formação de marinheiro na Escola de Aprendizes de Pernambuco. Trabalhou no navio Ary Parreiras e no Porta Aviões Minas Gerais. Como marinheiro de 1ª classe, viajou pelo mundo: Itália, Egito, frança, Japão.

Nos primeiros dias de abril de 1964, logo após ouvir pelo rádio a notícia de que havia sido expulso da Marinha por força do primeiro Ato Institucional, buscou asilo na Embaixada do México, deixou o país e transferiu-se para Cuba, onde recebeu treinamento de guerrilha num primeiro grupo de ex-militares que, sob a liderança de Leonel Brizola, constituíram o MNR, sigla às vezes traduzida como Movimento Nacional Revolucionário e, outras vezes, como Movimento Nacionalista Revolucionário. Em outubro de 1964, foi condenado a nove anos de prisão e, em 1966, a mais três anos.

Retornando ao Brasil para engajar-se na resistência clandestina, instalou-se no Mato Grosso, em articulação com os militantes do MNR que tentaram organizar uma guerrilha na Serra do Caparaó entre fins de 1966 e abril de 1967. Nesse período, Marcos Antônio foi preso em São Paulo e transferido para a Penitenciária Lemos de Brito, no Rio de Janeiro, ali chegando em março de 1967.

Marinheiros e outros militantes ali reunidos, em boa parte militares, recrutaram alguns presos comuns e constituíram nova organização, denominada Movimento de Ação Evolucionária — MAR, que protagonizou audaciosa fuga daquele presídio, em 26/05/1969, escondendo-se o grupo na área rural de Angra dos Reis, até romper o cerco militar após algumas semanas. Mesmo assim, o MAR durou poucos meses, sendo que Marcos Antônio e a maioria de seus integrantes se engajaram no PCBR.

Na noite do dia 14/01/1970, já moribundo, com uma bala na cabeça, foi deixado no Hospital Souza Aguiar, como desconhecido, morrendo em poucos minutos. Sua mulher recebeu por telefone a notícia da morte, com a orientação de aguardar a publicação do fato, para que não viesse a ser interrogada sobre suas próprias atividades e sobre como recebera a informação. A notícia somente foi divulgada uma semana depois, através de nota do comando da 1ª Região Militar, informando que Marcos Antônio morrera num tiroteio onde foi ferida e presa Ângela Camargo Seixas, também do PCBR, e dois agentes dos órgãos de segurança.

O laudo da necropsia é assinado pelo legista Nilo Ramos de Assis, que definiu como causa mortis “ferida transfixante do crâneo com destruição parcial do encéfalo”. A irmã de Marcos Antônio, Marlene Lucas de Lima, só conseguiu retirar o corpo no dia 20 de janeiro, levando-o para sepultamento no Cemitério de Inhaúma.

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1971

 

Filiação: Jovelina Alves Coqueiro e José Augusto Coqueiro

Data e local de nascimento: 18/07/1937, Aracatu (BA)

Organização política ou atividade: MRT

Data e local da morte: 06/02/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Aderval Alves Coqueiro foi um dos 40 presos políticos trocados pelo embaixador alemão Von Holleben, em junho de 1970. Tinha sido preso em São Paulo, em 29/05/1969, como militante da Ala Vermelha, sendo torturado na 2ª Companhia da Polícia do Exército, depois transferido para o DOPS/SP e, finalmente, Presídio Tiradentes. Banido e enviado à Argélia, de lá se deslocou para Cuba, regressando ao Brasil já integrado ao MRT — Movimento Revolucionário Tiradentes, grupo dissidente da Ala Vermelha.

Coqueiro morreu no Rio de Janeiro, de acordo com laudo oficial assinado por João Guilherme Figueiredo, no dia 06/02/1971, no Cosme Velho, em consequência de “ferida transfixante no tórax e lesão do pulmão direito”. Seu corpo foi entregue à família posteriormente, sendo enterrado no cemitério de Inhaúma no dia 14.

Nascido no município baiano de Brumado, Coqueiro iniciou cedo sua militância política no PCB e foi um dos candangos que trabalharam na construção de Brasília, além de ter sido operário da construção civil no estado de São Paulo, onde residiu desde 1961. Ao se desligar do PCB, passou a integrar o Comitê Regional do PCdoB/SP, focando suas atividades na zona rural. Por volta de 1967/1968, desligou-se do PCdoB para integrar a Ala Vermelha. Vivendo em São Bernardo do Campo e Diadema, trabalhou também como operador de máquinas e vendedor autônomo. Casado com Isaura tiveram duas filhas. Coqueiro teria retornado ao Brasil em 31/01/1971, valendo-se de um esquema clandestino da VAR-Palmares, e foi morar no apartamento do bairro Cosme Velho, onde foi morto uma semana depois. Não foi possível localizar perícia de local, fotos e nem o laudo necroscópico.

As matérias de jornais da época permitiram desqualificar a versão oficial. O Jornal do Brasil de 08/02/1971 referiu-se ao cerco de mais de 50 policiais e publicou uma foto de Coqueiro morto, alvejado pelas costas. O Jornal da Tarde, na mesma data, complementa as informações com o depoimento de um oficial que participara da operação, informando que a localização da casa onde estava Coqueiro começara a ser feita um mês antes. Para complementar as informações, foi possível localizar o zelador do prédio onde Coqueiro foi morto, que declarou não ter presenciado o tiroteio, pois estava no último andar do edifício. Mas ouviu, durante a operação militar, um agente gritando: “atira e mata”. O zelador contou ainda que foi chamado pelos policiais para prestar informações sobre a vítima e viu o cadáver no local, com diversas marcas de tiro. Também afirmou que Coqueiro estava desarmado, vestido com apenas um calção, e que ouviu um dos agentes dizer: “Bota a arma do lado dele”. O zelador, em seu relato, não deu qualquer indicação de que Coqueiro teria tentado reagir.

O episódio teve grande repercussão na imprensa porque Aderval Alves Coqueiro foi o primeiro baiano encontrado no Brasil pelos órgãos de segurança. Franquearam o acesso de fotógrafos ao local, mas não exibiram o ocorrido para a imprensa. Salvo a presença do revólver junto ao corpo, não foi apresentada qualquer indicação precisa comprovando a alegada resistência a tiros.

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1971

 

Filiação: Maria Helena Dias Fleury e Hermano Pires Fleury Junior

Data e local de nascimento: 05/01/1945, São Paulo (SP)

Organização política ou atividade: MOLIPO

Data e local da morte: 10/12/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Um dos principais dirigentes do MOLIPO, morto misteriosamente no Rio de Janeiro em 10/12/1971, Carlos Eduardo foi o segundo ex-preso político banido do país a ser executado depois de regressar ao Brasil para novo engajamento na resistência clandestina ao regime militar. Nascido na capital paulista, tinha sido estudante de Filosofia na USP e, simultaneamente, de Direito na PUC/SP. Fora enviado à Argélia em junho de 1970, sendo um dos 40 presos políticos libertados em troca do embaixador alemão no Brasil, sequestrado numa operação conjunta entre VPR e a ALN.

Sua prisão anterior, como subcomandante do Grupo Tático Armado da ALN, tinha ocorrido em São Paulo, em 30/09/1969. Naquela ocasião, foi torturado dias seguidos na OBAN. Transferido para o Presídio Tiradentes, escreveu uma carta ao seu antigo professor na Faculdade de Direito e ministro interino da Justiça, Manoel Gonçalves Ferreira Filho, denunciando as torturas sofridas por ele e por seus companheiros de prisão. Denunciou na mesma carta que Virgílio Gomes da Silva, dado como desaparecido, tinha sido, na verdade, assassinado a pancadas e choques no pau-de-arara, na antevéspera do seu próprio suplício.

“Não vou enumerar exatamente o que sofri momento a momento, vou dar alguns exemplos dos métodos de interrogatórios que sofri: o pau-de-arara, telefone, choques na cabeça, nos órgãos sexuais e no resto do corpo como o mostram as cicatrizes que tenho até hoje. Os choques que levei no 2º dia de tortura foram de 220 volts e durante mais de cinco horas seguidas pendurado no pau-de-arara, o que me causou uma parada cardíaca. Quando isto ocorreu estava chegando, naquele momento, na OBAN, os delegados do DOPS, Tucunduva, Fleury e Raul Ferreira. Foram estas pessoas que me fizeram voltar à vida, através da massagem no coração, fricção com álcool no corpo etc., pois o pessoal da OBAN deu-me como clinicamente morto. Esta sessão de cinco horas de 220 volts foi precedida por uma tarde inteira de agressões e choques na cadeira do dragão, além de ter ficado na noite anterior das 22h30 até 6h30 da manhã deste dia no pau-de-arara, levando choques”.

Preferindo morrer a prosseguir naquelas sevícias, Carlos Eduardo inventou um encontro falso na Avenida Brigadeiro Luis Antônio, escapou dos agentes, entrou em uma loja, apossou-se de uma tesoura e a enfiou no peito, embora a lâmina não tenha atingido órgão vital. Levado para o Hospital das Clínicas, recuperou-se e, conforme relata na carta ao ministro, voltou ao pau-de-arara e à cadeira do dragão quando levado de volta à prisão. A respeito de sua morte, o laudo de necropsia registra que Carlos Eduardo teria sido encontrado morto no interior de um veículo com um tiro. Seu corpo foi registrado no IML/RJ com o nome de Nelson Meirelles Riedel. A nota oficial divulgada pelos órgãos de segurança afirma que sua morte ocorreu ao final de tiroteio na praça Avaí, na proximidades do Méier, cidade do Rio de Janeiro, após tentar abandonar o carro que fora abordado pelos agentes, por volta de 3h30 da madrugada.

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1971

 

Filiação: Maria de Lourdes Oliveira e Geraldo Theodoro de Oliveira

Data e local de nascimento: 31/08/1947, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: VPR

Data e local da morte: 22/03/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Gerson Theodoro, integrante da VPR, acusado pelos órgãos de segurança de ter participado de várias ações armadas, inclusive dos sequestros dos embaixadores alemão e suíço, foi morto no Rio de Janeiro, em 22/03/1971, nas dependências do DOI-CODI/RJ. No dia seguinte, os jornais divulgaram nota oficial emitida no dia 22 informando que, às 11 horas da manhã, na esquina da Avenida Suburbana com a Rua Cupertino, em Madureira, o militante teria recebido voz de prisão, reagiu a tiros, foi ferido e morreu quando transportado para o Hospital Salgado Filho.

Gerson era negro e tinha sido estudante secundarista em São Paulo, trabalhando como auxiliar de escritório. Frequentou, à noite, em 1968, o Cursinho do Grêmio da Faculdade de Filosofia da USP, preparatório ao vestibular. Fora funcionário da Companhia Siderúrgica Nacional, lotado no escritório de São Paulo, de 29/11/1966 a 07/05/1969, quando foi obrigado a abandonar o emprego por perseguição política. Desde então, passou a viver na clandestinidade.

A certidão de óbito desmente a versão oficial. A certidão informa como local da morte a Rua Barão de Mesquita, 425, sede do 1º Batalhão da Polícia do exército, ou seja, o próprio endereço do DOI-CODI/RJ, o que contradiz a informação divulgada no comunicado do dia 22. Não existe foto do corpo de Gerson e o auto de exame cadavérico utiliza a falsa identidade Pedro de Castro Corrêa e foi localizado nos arquivos do STM e do extinto DOPS.

Segundo os Relatórios do Ministério da Aeronáutica e da Marinha, “faleceu em tiroteio com agentes dos órgãos de segurança ao reagir à prisão, em 22 de março de 1971, em Madureira/RJ”.

O corpo de Gerson entrou no IML, como Pedro de Castro Corrêa. Feita sua identificação pelas impressões digitais, foram emitidos exame necroscópico e certidão de óbito com o nome verdadeiro.

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1971

 

Filiação: Pascoalina Ferreira e Isaac Ferreira Caetano

Data e local de nascimento: 13/03/1941, Bebedouro (SP)

Organização política ou atividade: VPR/ALN

Data e local da morte: 12/07/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Heleny foi presa por agentes do DOI-CODI/RJ no dia 12/07/1971, no Rio de Janeiro. Seu nome integra a lista dos desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95. Ela já havia sido presa em março de 1970, sendo solta em abril do ano seguinte, ou seja, três meses antes de ser presa pela segunda vez.

Paulista de Bebedouro, Heleny foi casada com Ulisses Telles Guariba, professor de História na USP, de quem tinha sido colega na Faculdade de Filosofia daquela Universidade. Tiveram dois filhos. Ela se especializou em cultura grega, trabalhou em teatro e deu aulas na Escola de Arte Dramática de São Paulo — EAD.

Em 1965, tinha recebido bolsa de estudos do Consulado da França em São Paulo, especializando-se na Europa até 1967. Fez inúmeros cursos, inclusive em Berlim, onde estudou Brecht e estagiou como assistente de direção. Ao voltar ao Brasil, foi contratada pela Prefeitura de Santo André para dirigir o grupo de teatro da cidade. Ali desenvolveu inúmeros trabalhos culturais, montando uma peça de Molière com os alunos das escolas municipais. Com o AI-5, seu trabalho foi interrompido, tendo ingressado na Aliança francesa, em São Paulo, onde também montou e dirigiu peça de teatro em francês.

Em março de 1970, foi presa pela primeira vez, em Poços de Caldas (MG), por militância na VPR, sendo torturada na Operação Bandeirantes (DOI-CODI/SP) pelos capitães Albernaz e Homero. Ficou internada no Hospital Militar durante dois dias, em função de hemorragia provocada pelos espancamentos. Foi transferida para o DOPS/SP e, depois para o Presídio Tiradentes, sendo assistida pelo advogado José Carlos Dias, que seria mais tarde presidente da Comissão Justiça e Paz de São Paulo e, posteriormente, ministro da Justiça. Solta em abril de 1971, preparava-se para deixar o país. Os familiares e advogados fizeram buscas persistentes por todos os órgãos de segurança. Um brigadeiro chegou a confidenciar a uma amiga de parentes de Heleny ter visto o nome dela numa lista de presos da Aeronáutica.

Apesar do silêncio e da negativa sistemática das autoridades, as provas acerca da prisão e desaparecimento de Heleny foram sendo coletadas. Inês Etienne Romeu, em seu relatório de prisão, testemunhou que, durante o período em que esteve sequestrada no sítio clandestino em Petrópolis (RJ), conhecido como “Casa da Morte”, dentre outros desaparecidos ali, estiveram, no mês de julho de 1971, Walter Ribeiro Novaes, Paulo de Tarso e uma moça, que acredita ser Heleny. Na casa clandestina em Petrópolis, Heleny foi torturada durante três dias, inclusive com choques elétricos na vagina.

O relatório do Ministério da Aeronáutica diz que Heleny foi “presa em 20 de outubro de 1970, em Poços de Caldas/MG, sendo libertada em 01 de abril de 1971…” Já o Relatório de Ministério do Exército afirma que “foi presa em 24 de abril de 1970 durante a Operação Bandeirantes e libertada a 1º de abril de 1971”.

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1971

 

Filiação: Iracema Guimarães Lins e Sadote Pierre Lins

Data e local de nascimento: 13/03/1937, Maceió (AL)

Organização política ou atividade: PCB

Data e local da morte: 11/02/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

José Dalmo ligou-se ao PCB ainda na adolescência e, mais tarde, integrou a Executiva Estadual desse partido em Alagoas. Foi cronista no jornal A Voz do Povo. Visitou Cuba e a União Soviética entre 1962 e 1963, para participar de atividades de formação política. Sua primeira prisão ocorreu em 1964, logo após a deposição de João Goulart. Estudou no Colégio Marista Alagoano e, mais tarde, foi expulso do curso de Direito da Universidade Federal de Alagoas sob acusação de subversão. No início de 1967 foi morar no Rio de Janeiro, junto com sua companheira Maria Luiza Araújo, recém-formada em Medicina. Também trabalhou como representante de laboratórios farmacêuticos. No dia 22/03/1970, o casal teve o apartamento invadido e ambos foram levados para o DOI-CODI/RJ, onde permaneceram incomunicáveis por mais de 30 dias. José Dalmo ficou preso por seis meses e Maria Luiza só foi solta um ano depois.

Em 18/05/1970, José Dalmo Guimarães Lins foi identificado e fotografado, sendo recolhido ao xadrez especial, à disposição do DOPS, para responder a inquérito, No dia 19 prestou declaração e no dia 20 foi removido para o CODI.

José Dalmo não conseguiu superar os traumas causados pela prisão. No dia 11/02/1971, Maria Luiza, confinada no Presídio Talavera Bruce, foi informada de que ele havia se jogado da janela da residência do casal, no bairro do Leblon. Dalmo tinha 37 anos. Maria Luiza foi escoltada ao enterro do marido por soldados do Exército e por policiais.

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1971

 

Filiação: Maria Gomes Conceição e Antônio Gomes Teixeira

Data e local de nascimento: 30/09/1941, Maceió (AL)

Organização política ou atividade: MR-8

Data e local da morte: 23/06/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Militante do MR-8, ex-marítimo e funcionário da Prefeitura de Duque de Caxias (RJ), José Gomes Teixeira, foi preso em 11/06/1971 por agentes do CISA e levado à Base Aérea do Galeão, onde foi torturado e visto pelo cunhado Rubens Luiz da Silva. Morreu em 23/06/1971, pouco antes de completar 30 anos. Era casado com Zeni Bento Teixeira, com quem teve cinco filhos. Não foi possível reunir mais informações sobre sua biografia e atividades políticas anteriores. Documentos dos órgãos de segurança do regime militar registram que Carlos Lamarca, antes de ser deslocado para a Bahia, ficou abrigado em vários “aparelhos” no Rio de Janeiro, inclusive na residência de José Gomes Teixeira. Em nota oficial no próprio dia 23/06/1971, os órgãos de segurança informaram a morte de José, mais uma vez por suicídio. Os legistas, Olympio Pereira da Silva e Ivan Nogueira Bastos determinaram como causa mortis asfixia mecânica.

Na certidão de óbito, apesar de constar o nome verdadeiro e endereço completo, José Gomes foi enterrado como indigente no cemitério de Ricardo de Albuquerque, no Rio de Janeiro (RJ). Em 15/06/1976, seus restos mortais foram transferidos para o ossuário geral e, 1980/1981, foram para a vala clandestina do mesmo cemitério. Laudo e fotos de perícia de local do Instituto Éboli mostram José Gomes enforcado em um lençol, no interior da cela no Depósito de Presos.

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1971

 

Filiação: Maria Aleixo dos Santos e Manoel Raimundo da Costa

Data e local de nascimento: 28/12/1939, Recife (PE)

Organização política ou atividade: VPR

Data e local da morte: 05/08/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

O ex-sargento da Marinha, José Raimundo da Costa era casado com Gisélia Morais da Costa e tinha dois filhos. Importante dirigente da VPR em 1970 e 1971, conhecido como “Moisés”, participou, segundo informações dos órgãos de segurança, de várias ações armadas, inclusive do sequestro do cônsul japonês em São Paulo. Foi morto no Rio de Janeiro, em 05/08/1971, após ter sido preso pelo DOI-CODI/RJ.

Apesar de os organismos de segurança terem conhecimento pleno sobre sua verdadeira identidade, José Raimundo foi enterrado sob identidade falsa no cemitério de Ricardo de Albuquerque. No livro de saída de indigentes do IML, ao lado de seu nome está manuscrita a palavra “subversivo”. Em 01/10/1979, seus restos mortais foram transferidos para um ossuário geral e, entre 1980 e 1981, foram levados para uma vala clandestina.

A versão oficial dos órgãos de segurança sobre a morte de José Raimundo é de que ele reagiu à prisão e foi morto por elementos da Inteligência do Exército, no dia 05/08/1971, em uma travessa próxima à Rua Otacília Nunes, no bairro carioca de Pilares. Em documento localizado no DOPS/RJ, de 05/08/1971, o comissário Jayme Nascimento registra que “às 7h — pelo telefone, o coronel Sotero, Oficial de Permanência do C.I.E., comunicou que, em uma travessa próxima à Rua Octacílio Nunes, em Pilares, havia sido morto um elemento subversivo de nome José Raimundo da Costa, quando reagiu à prisão numa diligência efetuada por elementos pertencentes ao serviço de Segurança do Ministério do Exército”.

Entretanto, na mesma data, seu corpo deu entrada no IML/RJ, com o nome de Odwaldo Clóvis da Silva. Ou seja, apesar de já identificado como José Raimundo, sua necropsia foi lavrada com falsa identidade pelos legistas Hygino de Carvalho Hércules e Ivan Nogueira Bastos, que confirmaram a versão oficial de morte em tiroteio. Em laudo do Instituto Carlos Éboli, os peritos registraram: “os pulsos da vítima apresentavam hematomas em toda sua extensão”. Na foto de seu corpo, a olho nu, se pode perceber a marca evidente das algemas que prendiam os pulsos de José Raimundo.

José Raimundo foi uma das vítimas do agente infiltrado José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo. Esse fato foi comprovado por documento localizado no arquivo do DOPS/SP, onde Anselmo menciona seus encontros com José Raimundo e registra as possibilidades de contatos com ele. Inês Etienne Romeu, no relatório que escreveu sobre o período em que esteve sequestrada no sítio clandestino de Petrópolis (RJ), afirma que, em 04/08/1971, ouviu o carcereiro “Laurindo” informar aos agentes policiais “Bruno” e “César” que José Raimundo havia sido preso numa barreira. Posteriormente, outro carcereiro, “Dr. Pepe”, lhe disse que José Raimundo foi morto 24 horas após sua prisão, numa encenação montada em uma rua do Rio de Janeiro.

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1971

 

Filiação: Avelina Villas Boas Pinto e Feliciano Pinto

Data e local de nascimento: 08/07/1948, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: MR-8

Data e local da morte: 03/04/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Integrante do MR-8, com militância anterior na ALN, foi presa e morta nos primeiros dias de abril de 1971, no Rio de Janeiro. A versão oficial divulgada pelos órgãos de segurança registrava que, no dia 02/04/1971, em enfrentamento com agentes da Brigada de Paraquedistas do Exército, na Rua Niquelândia, 23, Campo Grande, Marilena fora ferida, morrendo posteriormente. A morte de Marilena somente foi divulgada em junho, dois meses após o ocorrido.

A versão oficial já existia bem antes, conforme informação do Ministério do Exército, datada de 23/04/71, localizada nos arquivos do DOPS, Marilena foi levada para o sítio clandestino em Petrópolis (RJ), que ficou conhecido como “Casa da Morte”, conforme relatório de prisão feito por Inês Etienne Romeu em 1981.

O corpo de Marilena foi entregue à família em caixão lacrado, cinco dias depois da data da morte, sendo enterrado no cemitério São Francisco Xavier, no Caju. O atestado de óbito registra morte em 03/04/1971 no Hospital Central do Exército e foi assinado pelo médico Rubens Pedro Macuco Janini. A causa mortis foi estabelecida como “ferimento penetrante de tórax com lesões do pulmão e hemorragia interna”.

Marilena Villas Boas Pinto, estudante do segundo ano de Psicologia da Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro (RJ), passou a viver na clandestinidade a partir de 1969. Inicialmente atuou na ALN, ligando-se posteriormente ao MR-8. Não foi possível coletar mais informações sobre sua biografia e militância anterior.

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1971

 

Filiação: Maria de Lourdes Prata e Mário Rodrigues Prata

Data e local de nascimento: 26/09/1945, Cantagalo (RJ)

Organização política ou atividade: MR-8

Data e local da morte: 02/04/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Integrante do MR-8, com militância anterior na ALN, foi preso e morto nos primeiros dias de abril de 1971, no Rio de Janeiro. A versão oficial divulgada pelos órgãos de segurança registrava que, no dia 02/04/1971, em enfrentamento com agentes da Brigada Paraquedistas do exército, na Rua Niquelândia, 23, Campo Grande (RJ), Mário teria morrido.

Mário Prata foi estudante de engenharia na Universidade Federal do Rio de Janeiro e iniciou sua militância política no Movimento Estudantil, passando a atuar na clandestinidade em 1969, quando sua prisão preventiva foi decretada pela Justiça Militar. Era intensamente procurado pelos órgãos de segurança, acusado de matar um PM que, em 1970, o conduzia preso, quando lograra fugir. Em 1982, os alunos da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia, em Nova Friburgo (RJ), aprovaram homenagear a memória desse militante batizando com o seu nome o Diretório Central dos Estudantes.

A morte de Mário somente foi divulgada em junho, dois meses após o ocorrido. Mas a versão oficial já existia, conforme informação do Ministério do Exército, datada de 23/04/71, localizada nos arquivos do DOPS.

A certidão de óbito, lavrada como de “um homem”, informa que a morte se deu no dia 2 de abril, às 20h45, mas o corpo foi encaminhado ao IML somente às 7h40 do dia seguinte, ou ainda às 11 horas, conforme registro no Centro de Informações do Exército. O atestado, assinado por José Guilherme Figueiredo, repete a causa mortis que consta no livro de registros do IML: “feridas penetrantes do tórax e abdome e transfixiantes do abdome com lesão do pulmão esquerdo, fígado e baço, hemorragia interna, anemia aguda”.

O enterro de Mário somente foi realizado no dia 23 de abril e, apesar de reconhecido no próprio dia 3, como atesta ofício da SSP/RJ à Auditoria Militar, foi sepultado no cemitério de Ricardo de Albuquerque como desconhecido, tendo seus restos mortais idos parar, anos depois, na vala clandestina do cemitério. A foto do corpo, encontrada nos arquivos do DOPS/RJ, mostra somente o rosto, sendo visíveis hematomas e outras marcas, além de edema na parte frontal do crânio.

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1971

 

Filiação: Maria Lacerda de Almeida da Silveira e Léo Octavio da Silveira

Data e local de nascimento: 03/02/1951, Itaipava (RJ)

Organização política ou atividade: VPR

Data e local da morte: 22/03/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Maurício Guilherme, integrante da VPR, acusado pelos órgãos de segurança de ter participado de várias ações armadas, inclusive dos sequestros dos embaixadores alemão e suíço, foi morto no Rio de Janeiro, em 22/03/1971, nas dependências do DOI-CODI/RJ. No dia seguinte, os jornais divulgaram nota oficial emitida no dia 22 informando que, às 11horas manhã, na esquina da Avenida Suburbana com a Rua Cupertino, em Madureira, o militante teria recebido voz de prisão, reagiu a tiros, foi ferido e morreu quando transportado para o Hospital Salgado Filho.

Maurício Tinha 20 anos e era também estudante secundarista. Não foi possível reunir outras informações a respeito de sua biografia e militância política anterior. Sua certidão de óbito, assinada pelo Dr. José Alves de Assunção Menezes, registra que seu corpo foi enterrado por familiares no cemitério São Francisco Xavier, no Caju.

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1971

 

Filiação: Mariana Lanari Ferreira e Joaquim Rodrigo Nin Ferreira

Data e local de nascimento: 02/06/1944, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: não definida

Data e local da morte: 12/08/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Formado em Engenharia Mecânica pela PUC/RJ em 1967, participou de vários encontros nacionais e internacionais sobre sua área profissional. Foi professor assistente do Curso de Engenharia Naval da UFRJ. Quando foi preso, trabalhava no Ministério da Indústria e Comércio e se preparava para viajar com bolsa de estudos para Holanda.

Raul Amaro voltava de carro de uma festa com alguns amigos, em 01/08/1971, quando foi interceptado por uma radiopatrulha que fazia uma blitz na entrada do Leme, Rio de Janeiro. Tanto ele quanto o colega que estava junto não portavam carteira de trabalho, e seu documento de identidade era antigo. Os policiais resolveram deixá-los passar. Algum tempo depois, foi novamente interceptado, em Laranjeiras, pela mesma radiopatrulha, que fazia outra blitz, Ao revistar o carro, os policiais pegaram dois desenhos com a localização de ridências de amigos, que interpretaram como sendo mapas. Raul Amaro foi detido e levado ao DOPS, onde permaneceu sendo interrogado durante toda a manhã de domingo.

Na quinta-feira, 12/08, por volta de 14h30, o Hospital Central do Exército entrou em contato com os pais de Raul pelo telefone. A mãe, acompanhada do genro Raul Figueiredo Filho, chegou ao hospital por volta de 15h30, e soube que seu filho morrera antes das 14h. Entre 21h e 22h chegou o legista Rubens Pedro Macuco Janine para o exame do cadáver. O tio-avô de Raul, professor Manoel Ferreira, médico da Organização Mundial de Saúde, também legista, quis assistir à autopsia, mas foi impedido. Somente lhe foi permitido entrar cerca de duas horas depois, quando constatou que o jovem fora seviciado. Raul deu entrada no Hospital Central do Exército no dia 04/08, sem identificação e sem informação alguma sobre o ocorrido, apresentando equimoses nas coxas e pernas. O professor Manoel Ferreira informou que o escrivão leu na frente dele o laudo de necropsia com a descrição das sevícias.

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1972

 

Filiação: Maria Tereza Cabral e Cezario Nogueira Cabral

Data e local de nascimento: 14/10/1948, São Paulo (SP)

Organização política ou atividade: ALN

Data e local da morte: 25/04/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

Cabral, como era conhecido entre os alunos da Faculdade de medicina da USP, em Pinheiros, foi presidente do Centro Acadêmico Osvaldo Cruz (CACO) em 1970, e era militante da ALN desde 1969. Liderança muito querida entre seus colegas de faculdade, participou da tradicional encenação teatral do Show Medicina e também de uma montagem dirigida por Alberto Daversa, Noite de Guerra no Museu do Prado, de Rafael Alberti, que narra a heroica resistência dos republicanos espanhóis frente ao ataque final das forças nazistas, em 1939. Cabral também jogava rúgbi e praticava outras modalidades esportivas, sendo um caso raro de militante de esquerda, naquele período polarizado da história brasileira, a manter amizade normal com os colegas de faculdade alinhados com as posições da direita.

Sua prisão, em circunstâncias ainda hoje não esclarecidas, ocorreu provavelmente em 11/04/1972, no Rio de Janeiro, mas os fatos só foram divulgados pelos jornais no dia 18, com a versão de que Cabral morrera ao resistir à prisão na Rua Zizi, 115, bairro Lins de Vasconcelos. As informações dos jornais eram coincidentes quanto ao local, mas não quanto ao horário da ocorrência: às 2h20 segundo a Folha da Tarde, ou às 22h, conforme o Jornal do Brasil. Ao mesmo tempo, o atestado de óbito registra que Antonio Carlos morreu às 5h25, enquanto os peritos atenderam às 3h40 a ocorrência solicitada pelo DOPS/RJ para laudo em local de morte violenta. Seu corpo foi encaminhado ao IML como sendo de um desconhecido, pelo DOPS.

O laudo assinado por Olympio Pereira da Silva e Jorge Nunes Amorim descreve tiros em regiões vitais: dois no pescoço e três próximos ao coração, registrando também muitas escoriações, sem definir a origem. As escoriações nas mãos, tórax, na testa e nas faces do rosto são visíveis nas fotos de seu corpo e atestam torturas.

O relatório de perícia relativo à ocorrência informa que os peritos compareceram ao local às 3h40 do dia 12 de abril, atendendo requisição do DOPS, e descreve o local do encontro do corpo de Antonio Carlos, na entrada da casa. Assinalaram feridas contusas e equimoses nas nove fotos que acompanham o laudo. Registram que suas vestes se achavam em desalinho, denunciando bruscos movimentos de luta, e que suas vestes e mãos estariam impregnadas de tinta de impressão. O atestado de óbito foi firmado por Olympio Pereira da Silva, que deu como causa da morte, ocorrida às 5h25 do dia 12 de abril, ferimentos penetrantes e transfixantes do tórax e abdômen, com lesões do pulmão direito, coração e fígado, hemorragia interna. As marcas de tortura são claramente visíveis nas fotos: escoriações nas mãos, tórax e rosto, nem todas descritas na necropsia.

O corpo foi reconhecido pela irmã, Maria Elizabeth Nanni, após a publicação da versão oficial. O corpo foi entregue à família em caixão lacrado, tendo o enterro contado com a presença ostensiva de agentes policiais. Cabral era outro dos militantes acusados pelos órgãos de segurança de ter participado da execução do marinheiro inglês David Cuthberg, conforme já relatado no caso anterior, bem como do assalto à casa de Saúde Dr. Eiras, em que foram mortos três vigilantes de um transportadora de calores.

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1972

 

Filiação: Heloiza Pinto de Oliveira e Januário de Almeida de Oliveira

Data e local de nascimento: 16/02/1950, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: VAR-Palmares

Data e local da morte: 29/03/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

Antônio Marcos foi morto, juntamente com outros três militantes da VAR-Palmares, Lígia Maria Salgado Nóbrega, Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo e Wilton Ferreira, no Rio de Janeiro, em 29/03/1972, em circunstâncias até hoje não esclarecidas, ficando o episódio registrado como “Chacina de Quintino”. A versão dos órgãos de segurança só foi divulgada uma semana depois, em 06/04/1972. A manchete dos jornais informava que nove militantes teriam se entrincheirados na casa 72, na Avenida Suburbana, nº 8695, bairro de Quintino, naquela data, tendo três deles morrido no local (Antônio Marcos, Lígia Maria e Maria Regina), enquanto os demais teriam conseguido fugir. Segundo o “livro negro” do Exército, essa residência seria o aparelho onde moravam James Allen da Luz, o principal dirigente da VAR naquele momento, e Lígia Maria.

As primeiras notícias trocavam as identidades dos mortos. Entre os nomes de Quintino, não se incluía Antonio Marcos e sim James Allen da Luz, dirigente da mesma organização, que fugiu do cerco.

Antonio Marcos era carioca, seminarista e atuou no Movimento Estudantil entre 1966 e 1968. Estudou no Colégio João Alfredo, onde teve uma de suas poesias premiada em concurso interno do colégio. Durante o seminário participou de um trabalho comunitário em Osvaldo Cruz, subúrbio do Rio, na paróquia do Padre João Daniel. Depois de militar na Ala Vermelha, ingressou na VAR-Palmares. Em 1971, foi forçado a ir para a clandestinidade, quando foram presos vários companheiros do trabalho comunitário em Osvaldo Cruz noticiado na imprensa como Grujoc, isto é, Grupo de Jovens de Osvaldo cruz. Foi morto aos 22 anos.

O laudo de Antonio Marcos registra “feridas transfixantes de tórax e abdômen com perfuração de pulmão, coração, fígado, estômago e rins, hemorragia interna e anemia aguda consecutiva”. O corpo chegou ao IML como desconhecido. Conseguiu ser retirado por seu pai, em 10/04/1972, por pressão da Igreja, pois seu tio era padre influente no Rio de Janeiro. Mas foi entregue num caixão lacrado, onde só aparecia o rosto. Ao mesmo tempo, foram feitas ameaças para que não abrissem o caixão e nem denunciassem as condições em que havia sido entregue. O enterro, em 11/04/1972, realizado no cemitério São Francisco Xavier, teve a presença de policiais que continuaram com as ameaças.

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1972

 

Filiação: Maria Lady Nascimento Furtado e Mauro Albuquerque Furtado

Data e local de nascimento: 17/06/1946, São Paulo (SP)

Organização política ou atividade: ALN

Data e local da morte: 10/1/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

Estudante de Psicologia na Universidade de São Paulo, com ativa militância no Movimento Estudantil, Aurora tinha sido a responsável pela imprensa da União Estadual dos estudantes de São Paulo, no final da década de 1960, período em que era conhecida como Lola, sendo namorada e companheira de José Roberto Arantes de Almeida. Foi também funcionária do Banco do Brasil, na agência Brás, capital paulista.

Militante da DISP — Dissidência Estudantil do PCB/SP —, passou à clandestinidade após ter sido editado o AI-5. Ao ser morta, militava na ALN, atuando no Rio de Janeiro, sendo a responsável pela publicação do jornal Ação e tendo participado de inúmeras ações armadas, de acordo com informações dos órgãos de segurança, inclusive o assalto à Casa de Saúde Dr. Eiras, que deixou um saldo de três vigilantes de segurança mortos e da execução do marinheiro inglês David Cuthberg. Aurora foi presa no dia 09/11/1972, em Parada de Lucas, Rio de Janeiro, depois de ter entrado em uma blitz policial realizada por uma patrulha do 2º Setor de Vigilância Norte. Tentando romper o cerco, Aurora teria matado um policial. Após correr alguns metros, foi aprisionada viva, dentro de um ônibus onde havia se refugiado, sendo conduzida imediatamente para a delegacia policial de Invernada de Olaria.

Aurora foi submetida ao pau-de-arara, sessões de choques elétricos, espancamentos, afogamentos e queimaduras. Aplicaram-lhe também a “coroa de cristo”, fita de aço que vai gradativamente sendo apertada, esmagando aos poucos o crânio. Morreu no dia seguinte. Entretanto, seu corpo crivado de balas, foi jogado na esquina das Ruas Adriano com Magalhães Couto, no bairro do Méier. A versão oficial divulgada foi de que teria sido morta durante tentativa de fuga.

A Folha de São Paulo do dia 11/11/1972 informou: “De madrugada, Aurora que fora presa às 9h40m de 9 de novembro, conduzia agentes da polícia carioca a um local do Méier, onde estaria localizado um “aparelho”, na esquina das Ruas Magalhães Couto e Adriano. Aurora pediu para descer, disse que por motivo de segurança queria dirigir-se a pé ao ‘aparelho’. Ao descer, Aurora saiu correndo e gritando em direção a um Volkswagen que estava nas proximidades; nesse momento, começou um intenso tiroteio entre os agentes da polícia e os ocupantes do carro; ao terminar o tiroteio, Aurora, baleada, estava morrendo, caída na rua; preocupados em socorrer Aurora, os agentes deixaram o volkswagen fugir em alta velocidade”.

A nota oficial divulgou uma pequena biografia, deixando claro que os órgãos de segurança sabiam quem era ela. Entretanto, a certidão de óbito emitida registra apenas morte de uma mulher branca, de identidade ignorada, tendo como causa mortis dilaceração cerebral. Somente mais tarde os familiares conseguiram um atestado de óbito com a identificação correta. O corpo de Aurora foi reconhecido por sua irmã, que constatou, além de hematomas e cortes profundos, o afundamento do crânio. As fotos da perícia local, encontradas nos arquivos do Instituto Carlos Éboli (ICE/RJ), mostram claramente as marcas de tortura no corpo de Aurora, onde ficam nítidos o afundamento do crânio; escoriações e cortes profundos nos braços e pernas; o rosto deformado por espancamentos e pela ‘coroa de cristo’; hematomas nos olhos, nariz e boca. Próximo ao corpo, uma foto mostra um Volkswagen crivado de balas, completando a encenação do teatro montado para justificar a versão oficial sobre a morte.

O laudo do IML, firmado por Leias Freitas e Salim Raphael Balassiano, omite o nome de Aurora, mas confirma a versão da morte em tiroteio. Descreve-se 29 perfurações por projétil de arma de fogo, não especificando, entretanto, as entradas e saídas dos tiros. Foram encontrados oito projéteis em seu corpo, deflagrados a curta distância. O tórax e abdômen são transfixados por projéteis, mas o laudo registra que “as cavidades plurais não contêm sangue; a cavidade abdominal não contém sangue; na região glútea direita há três orifícios sem reação vital” — prova de que esses tiros foram dados quando Aurora já estava morta, apenas para confirmar o tiroteio que não ocorreu e que é paradoxalmente assumido como verdadeiro pelos legistas. As lesões no crânio são descritas como feridas irregulares de 60 e 36 milímetros de extensão, localizadas nos parietais esquerdo. Essas medidas não são projéteis — confirmando o uso do instrumento ‘coroa de cristo’.

A morte de Aurora sob tortura foi confirmada pelo depoimento do general de brigada na reserva e ex-comandante do DOI-CODI Adyr Fiúza de Castro no livro Os anos de chumbo: a memória militar sobre a repressão, organizado por Maria Celina D’Araújo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro. O depoimento do general mostra que ele sabia das torturas praticadas no quartel; fala da violência dessas torturas e assume que, sendo impossível interrogar Aurora, nem pensou em enviá-la para um hospital, sendo melhor deixa-la morrer onde estava. Permitiu ainda o general sabedor dos fatos, que a versão dos órgãos de segurança para a morte de Aurora fosse um fantástico tiroteio no Méier, apesar do engano de referir-se ao “fusca” que, segundo ele e a versão oficial teria fugido, mas que aparece nas fotos da perícia. O general relata as circunstâncias da prisão de Aurora, “tal como lhe foi contado”. Ao ser interpelada por uma viatura dos agentes da Invernada de Olaria, Aurora reagira à prisão, matando um agente e ferindo outro. “Um agente conseguiu segurá-la pelas pernas e debaixo de muito pau a pegaram e meteram na viatura”. Diz ainda o general Fiuza: “Foi para a Invernada de Olaria. E eles não estavam satisfeitos com um dos seus companheiros morto, com o rosto completamente estraçalhado. Calculo o que fizeram com ela”.

Afirma que estava no CODI, no I Exército, quando recebeu telefonema sobre a captura de uma moça, que seria do interesse do CODI. Diz o livro às fls. 76/77: “Eu mandei um oficial meu ir lá para identificá-la. Ela estava em péssimo estado, não vai resistir nem uma ou duas horas mais. — O senhor quer que eu a traga? Não, não traga coisa nenhuma. Quem é ela? Ele disse o nome: Aurora Maria Nascimento Furtado. Isso não me foi dito nem pelo comandante do DOI, nem pelo oficial que foi à Invernada de Olaria. Mas se eles fizeram isso, fizeram crentes que estavam lidando com uma traficante fria, que matou um dos seus friamente. Acho que essa moça era muito valente, mas não deu entrada em DOI, não ‘abriu’ coisa alguma. Os documentos que estavam com ela fizeram com que o pessoal da Invernada acabasse desconfiando que ela não era traficante e que estava simplesmente cobrindo um ‘ponto’. Morreu no mesmo dia (…)”.

Em 11/11/1972, o corpo foi trasladado para São Paulo, sendo entregue à família em caixão lacrado, com ordens expressas para que não fosse aberto. A história de sua militância política e de seu suplício está narrada, de modo romanceado, no livro Em Câmara Lenta, escrito pelo cineasta e ex-preso político Renato Tapajós, que era então cunhado de Aurora.

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1972

 

Filiação: Adosina Santos Guedes e Julio Augusto Guedes

Data e local de nascimento: 21/06/1920, Mucugê (BA)

Organização política ou atividade: PCB

Data e local da morte: 15/08/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

Baiano de Mucugê, Célio Augusto foi criado e educado em Salvador, onde se formou em Odontologia. Militou no PCB e era irmão do jornalista e dirigente daquele partido Armênio Guedes. Ainda estudante, trabalhou como lapidário de pedras semipreciosas, ofício que aprendeu em casa, e com isso pagou seus estudos e ajudou no sustento da família, depois da morte de seu pai. Adolescente, quando fazia curso complementar para prestar exame vestibular, seguindo a tradição da família, ingressou na célula da Juventude Comunista do Ginásio da Bahia — isso na segunda metade dos anos 30, quando se instalou no País o Estado Novo. Numa panfletagem feita pela célula da Juventude Comunista no Ginásio da Bahia, denunciando violências da ditadura getulista, militantes foram presos e levados para o DOPS, onde ficaram detidos e submetidos a interrogatórios por mais de trinta dias. Entre eles, identificado como um dos líderes da “subversão” estava Célio. Desde então, jamais se afastou da atividade do partido, fosse ela de simples militante ou como membro da direção estadual; tanto nos curtos períodos de legalidade como nos longos e difíceis anos de clandestinidade. Em abril de 1964, a casa de Célio em Salvador foi invadida e saqueada por militares — o que o obrigou à vida clandestina e a mudar-se para o Sul.

Nessa época foi indicado para trabalhar no aparelho de segurança da direção nacional do partido. Nesse novo posto, durante vários anos coube a ele a responsabilidade da movimentação de Prestes dentro do País — isso até a saída para o exílio do secretário geral do partido. Em julho de 1972, recebeu a missão de ir num carro do partido a Montevidéu, para encontrar o médico Feud Saad, que voltava de uma viagem ao exterior e devia ingressar clandestinamente no Brasil, tarefa em que Célio estava treinado e havia realizado com êxito em vezes anteriores. Ao cruzar um posto na fronteira, entre Jaraguarão e Rio Branco, os dois foram identificados, detidos e transportados em avião diretamente para a sede do CENIMAR no Rio de Janeiro onde Célio Guedes, segundo seu irmão Armênio, morreu sob tortura, aos 53 anos, em 15/08/1972. A comunicação do falecimento só foi feita à família quinze dias depois.

A certidão de óbito registra: “morto às 18h, no pátio externo dos fundos do edifício do Comando do 1º DN”. Assinada pelo legista Gracho Guimarães Silveira, essa certidão confiram a versão oficial de que Célio caiu de uma janela. As fotos incluídas no laudo da perícia local, encontradas no Instituto Carlos Éboli/RJ, mostram várias escoriações pelo corpo, enquanto documentos informam que “a vítima teria se projetado do sétimo andar da janela de um banheiro ali existente”.

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1972

 

Filiação: Nathaly Machado da Fonseca e José Augusto Valente da Fonseca

Data e local de nascimento: 13/01/1946, Rio de Janeiro/RJ

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local da morte: 29/12/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

No dia 17/01/1973 os órgãos de segurança tornaram pública a morte de Fernando Augusto da Fonseca, militante do PCBR, ocorrida, segundo a nota oficial, em 29/12/1972, em função de tiroteios. Na verdade, ele foi morto depois de preso.

O carioca Fernando Augusto, apelidado Fernando Sandália, concluiu o 2º grau no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Estudava Economia na UFRJ e trabalhava na agência central do Banco do Brasil, de onde foi demitido em 1970. Militou na Corrente Revolucionária antes de integrar o PCBR, sendo membro de seu Comando Político Militar e um dos responsáveis pela publicação oficial do partido O Avante, no Rio de Janeiro. Em função das perseguições e da militância clandestina, estava residindo em Maceió, com a mulher, Sandra Maria Araújo da Fonseca e o filho André, então com 3 anos de idade. Sandra estava grávida de Fernanda, que não chegou a conhecer o pai. No “livro negro” do Exército, consta a informação de que, em dezembro de 1971, tinha sido composta uma direção nacional provisória do PCBR, integrada por ele, por Luís Alberto de Andrade Sá e Benevides e por Getúlio de Oliveira Cabral.

No dia 26 de dezembro, Fernando estava hospedado com a mulher e o filho em um hotel, com viagem marcada para Belo Horizonte, onde moravam os pais de Sandra. Fernando saiu do hotel para encontrar um companheiro de militância e, uma hora e meia depois, Sandra foi presa no próprio hotel, sendo encapuzada e levada para uma dependência das Forças Armadas que não sabe precisar, onde ficou um dia inteiro sob interrogatório. Ali soube que Fernando também estava apreso, mas não o viu. Foi levada, com o filho André, pelos agentes do DOPS para uma residência, junto com um casal de policiais, e só foi liberada no dia 16/01/73, véspera da publicação da morte do marido no Rio de Janeiro.

A versão sobre a morte de Fernando Augusto, divulgada pelo serviço de Relações Públicas do I Exército, em 17/01/1973, sob o título “Destruído o Grupo de Fogo terrorista do PCBR/GB”, informava que, em ações simultâneas em pontos diferentes do estado da Guanabara, teriam morrido seis militantes, um cara ficara ferido, outro escapara ao ser perseguido, e dois foram presos. Não informava os nomes dos presos e do ferido, mas assumia prisão em Recife, em 26/12/1972, de Fernando Augusto, que fora levado para o Rio de Janeiro. Enquanto um grupo de agentes teria se deslocado com Fernando para o bairro do Grajaú, onde havia um “ponto”, outro grupo cercava a casa na Rua Sargento Valder Xavier de Lima nº 12, fundos, em Bento Ribeiro. No Grajaú teriam morrido Fernando Augusto, José Silton, José Bartolomeu e Getúlio. Fernando teria sido morto pelos companheiros, ao aproximar-se do carro que, em função do tiroteio, pegara fogo. No interior do carro três corpos totalmente carbonizados, conforme laudo de perícia local, tornando impossível sua identificação.

Nunca se soube quais foram os presos, quais os feridos, quem se rendeu, nem os que conseguiram fugir. Para todos os conhecedores dos métodos utilizados pelos órgãos de repressão política, a versão oficial já levanta suspeitas em função do endereço da casa em Bento Ribeiro: Rua sargento Valder Xavier de Lima, nome de um militar morto em 1970 em Salvador (BA) por militantes do mesmo PCBR, conforme já descrito. O registro de ocorrência da 20ª Delegacia de Polícia informar: “Ás 0h40m, o 2º tenente Paixão comunicou que compareceu à Rua Grajaú para tomar conhecimento de ocorrência envolvendo automóvel incendiado. Todavia foi informado que se tratava, apenas, de diligência de interesse da Segurança Nacional. Chegando ao local, constatou a presença do delegado do DOPS Gomes Ribeiro, que afirmou tratar-se de serviço de rotina do interesse da Segurança Nacional”.

A verdade dos fatos não foi recuperada, mas ficou comprovado o teatro montado para a falsa versão oficial, constatada nos próprios documentos oficiais localizados no IML e no Instituto Carlos Éboli, que realizou perícias no local. As fotos mostram Fernando próximo ao Volkswagen incendiado. Escoriações no seu rosto e tórax demonstram as torturas.

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1972

 

Filiação: Lindrosina Cabral de Souza e Manoel D’Oliveira

Data e local de nascimento: 04/04/1942, Rio de Janeiro/RJ

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local da morte: 29/12/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

Getúlio D’Oliveira Cabral era mineiro de Espera Feliz. Com 7 anos mudou-se para a Baixada Fluminense e estudou o 1º grau na escola Darcy Vargas, em Duque de Caxias. Casou-se aos 20 anos e teve dois filhos. Entre os 12 e 13 anos tinha iniciado sua militância política na União da Juventude Comunista. Influenciado pela participação de sua mãe, Dona Lindrosina, em atividades contra a guerra na Coréia. Incorporou-se ao Centro Pró-melhoramentos de Caxias e filiou-se ao Sindicato dos Metalúrgicos. Trabalhava como escriturário da Fábrica Nacional de Motores (FNM). Foi dirigente regional do PCB e dirigente nacional do PCBR. Getúlio era outro dos militantes das organizações de guerrilha urbana que os órgãos de segurança acusavam de ter assassinado um marinheiro inglês, David Cuthberg, em escala no Brasil para os festejos do sesquicentenário da Independência, ação que pretendia expressar solidariedade à luta do Exército Republicano Irlandês contra a dominação inglesa.

A versão sobre a morte de Getúlio D’Oliveira Cabral, divulgada pelo serviço de Relações Públicas do I Exército, em 17/01/1973, sob o título “Destruído o Grupo de Fogo terrorista do PCBR/GB”, informava que, em ações simultâneas em pontos diferentes do estado da Guanabara, teriam morrido seis militantes, um cara ficara ferido, outro escapara ao ser perseguido, e dois foram presos. Não informava os nomes dos presos e do ferido, mas assumia prisão em Recife, em 26/12/1972, de Fernando Augusto, que fora levado para o Rio de Janeiro. Enquanto um grupo de agentes teria se deslocado com Fernando para o bairro do Grajaú, onde havia um “ponto”, outro grupo cercava a casa na Rua Sargento Valder Xavier de Lima nº 12, fundos, em Bento Ribeiro. No Grajaú teriam morrido Fernando Augusto, José Silton, José Bartolomeu e Getúlio. Fernando teria sido morto pelos companheiros, ao aproximar-se do carro que, em função do tiroteio, pegara fogo. No interior do carro três corpos totalmente carbonizados, conforme laudo de perícia local, tornando impossível sua identificação. No Grajaú, o carro que teria sido usado pelos militantes aparece no final de uma Rua sem saída. Getúlio aparece com o corpo carbonizado da cintura para baixo, com a metade inferior dentro do veículo.

Nunca se soube quais foram os presos, quais os feridos, quem se rendeu, nem os que conseguiram fugir. Para todos os conhecedores dos métodos utilizados pelos órgãos de repressão política, a versão oficial já levanta suspeitas em função do endereço da casa em Bento Ribeiro: Rua sargento Valder Xavier de Lima, nome de um militar morto em 1970 em Salvador (BA) por militantes do mesmo PCBR, conforme já descrito. O registro de ocorrência da 20ª Delegacia de Polícia informar: “Ás 0h40m, o 2º tenente Paixão comunicou que compareceu à Rua Grajaú para tomar conhecimento de ocorrência envolvendo automóvel incendiado. Todavia foi informado que se tratava, apenas, de diligência de interesse da Segurança Nacional. Chegando ao local, constatou a presença do delegado do DOPS Gomes Ribeiro, que afirmou tratar-se de serviço de rotina do interesse da Segurança Nacional”.

A verdade dos fatos não foi recuperada, mas ficou comprovado o teatro montado para a falsa versão oficial, constatada nos próprios documentos oficiais localizados no IML e no Instituto Carlos Éboli, que realizou perícias no local.

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1972

 

Filiação: Maria Cavalcanti de Souza e Virgílio Rodrigues de Souza

Data e local de nascimento: 05/05/1949, Canhotinho (PE)

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local da morte: 29/12/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

José Bartolomeu era estudante secundarista, pernambucano de Canhotinho, e não foi possível coletar outros dados a respeito de sua biografia e atividades políticas anteriores. Os órgãos e segurança o acusavam de participação na tentativa de roubo de um veículo do tenente da Aeronáutica, Matheus Levino dos Santos, em Recife, no dia 16/06/1970, que reagiu a tiros e foi baleado, vindo a morrer em consequência dos ferimentos em março do ano seguinte. José Bartolomeu, segundo informações dos órgãos de segurança, teria regressado ao Brasil pouco antes de ser morto, vindo de uma viagem ao Chile em que acompanhou o ex-sargento da Aeronáutica, Antonio Prestes de Paula em reuniões com banidos brasileiros.

A versão sobre a morte de José Bartolomeu, divulgada pelo serviço de Relações Públicas do I Exército, em 17/01/1973, sob o título “Destruído o Grupo de Fogo terrorista do PCBR/GB”, informava que, em ações simultâneas em pontos diferentes do estado da Guanabara, teriam morrido seis militantes, um cara ficara ferido, outro escapara ao ser perseguido, e dois foram presos. Não informava os nomes dos presos e do ferido, mas assumia prisão em Recife, em 26/12/1972, de Fernando Augusto, que fora levado para o Rio de Janeiro. Enquanto um grupo de agentes teria se deslocado com Fernando para o bairro do Grajaú, onde havia um “ponto”, outro grupo cercava a casa na Rua Sargento Valder Xavier de Lima nº 12, fundos, em Bento Ribeiro. No Grajaú teriam morrido Fernando Augusto, José Silton, José Bartolomeu e Getúlio. Fernando teria sido morto pelos companheiros, ao aproximar-se do carro que, em função do tiroteio, pegara fogo. No interior do carro três corpos totalmente carbonizados, conforme laudo de perícia local, tornando impossível sua identificação. No Grajaú, o carro que teria sido usado pelos militantes aparece no final de uma Rua sem saída. Getúlio aparece com o corpo carbonizado da cintura para baixo, com a metade inferior dentro do veículo. José Bartolomeu aparece totalmente carbonizado dentro do carro.

Nunca se soube quais foram os presos, quais os feridos, quem se rendeu, nem os que conseguiram fugir. Para todos os conhecedores dos métodos utilizados pelos órgãos de repressão política, a versão oficial já levanta suspeitas em função do endereço da casa em Bento Ribeiro: Rua sargento Valder Xavier de Lima, nome de um militar morto em 1970 em Salvador (BA) por militantes do mesmo PCBR, conforme já descrito. O registro de ocorrência da 20ª Delegacia de Polícia informar: “Ás 0h40m, o 2º tenente Paixão comunicou que compareceu à Rua Grajaú para tomar conhecimento de ocorrência envolvendo automóvel incendiado. Todavia foi informado que se tratava, apenas, de diligência de interesse da Segurança Nacional. Chegando ao local, constatou a presença do delegado do DOPS Gomes Ribeiro, que afirmou tratar-se de serviço de rotina do interesse da Segurança Nacional”.

A verdade dos fatos não foi recuperada, mas ficou comprovado o teatro montado para a falsa versão oficial, constatada nos próprios documentos oficiais localizados no IML e no Instituto Carlos Éboli, que realizou perícias no local.

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1972

 

Filiação: Severina Gomes de Lima e Milton Gomes Pinheiro

Data e local de nascimento: 31/05/1949, São José de Mipibu (RN)

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local da morte: 29/12/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

José Silton viveu até 6 anos no pequeno sítio denominado Pium, onde nasceu, em São José do Mipibu, Rio Grande do Norte. Sua mãe faleceu após seu nascimento, por complicações no parto e falta de assistência médica. O bebê foi então adotado pela tia Lira — Maria Gomes Pinheiro, irmã de seu pai. Depois foi para a cidade de Monte Alegre, onde viveu até completar 10 anos. A partir daí, radicou-se em Natal. Estudou no Colégio Salesiano, no Instituto Sagrada Família e fez o ginasial no Colégio Santo Antonio, dos irmãos Maristas. Iniciou o curso clássico no Colégio estadual Padre Miguelinho, concluindo-o no Atheneu Norte-Rio-Grandense. Em 1965, foi eleito presidente do Diretório Marista de Natal. Em 1966, entrou em contato com o pensamento da Igreja progressista e, pretendendo se tornar irmão Marista, passou a estudar no Convento de Apipucos, em Recife. Mas sua inquietação política foi além da vocação religiosa. De volta a Natal, ingressou na Faculdade de Pedagogia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Tempos depois, passou a militar no PCBR, atuando em Natal, Recife e, por fim, no Rio de Janeiro. Os órgãos de segurança o acusavam de participação em assalto a um banco na Penha, no Rio, em 27/07/1972, em que teria matado o contador Silvio Nunes Alves.

A versão sobre a morte de José Silton, divulgada pelo serviço de Relações Públicas do I Exército, em 17/01/1973, sob o título “Destruído o Grupo de Fogo terrorista do PCBR/GB”, informava que, em ações simultâneas em pontos diferentes do estado da Guanabara, teriam morrido seis militantes, um cara ficara ferido, outro escapara ao ser perseguido, e dois foram presos. Não informava os nomes dos presos e do ferido, mas assumia prisão em Recife, em 26/12/1972, de Fernando Augusto, que fora levado para o Rio de Janeiro. Enquanto um grupo de agentes teria se deslocado com Fernando para o bairro do Grajaú, onde havia um “ponto”, outro grupo cercava a casa na Rua Sargento Valder Xavier de Lima nº 12, fundos, em Bento Ribeiro. No Grajaú teriam morrido Fernando Augusto, José Silton, José Bartolomeu e Getúlio. Fernando teria sido morto pelos companheiros, ao aproximar-se do carro que, em função do tiroteio, pegara fogo. No interior do carro três corpos totalmente carbonizados, conforme laudo de perícia local, tornando impossível sua identificação. No Grajaú, o carro que teria sido usado pelos militantes aparece no final de uma Rua sem saída. Getúlio aparece com o corpo carbonizado da cintura para baixo, com a metade inferior dentro do veículo. José Silton aparece totalmente carbonizado dentro do carro.

Nunca se soube quais foram os presos, quais os feridos, quem se rendeu, nem os que conseguiram fugir. Para todos os conhecedores dos métodos utilizados pelos órgãos de repressão política, a versão oficial já levanta suspeitas em função do endereço da casa em Bento Ribeiro: Rua sargento Valder Xavier de Lima, nome de um militar morto em 1970 em Salvador (BA) por militantes do mesmo PCBR, conforme já descrito. O registro de ocorrência da 20ª Delegacia de Polícia informar: “Ás 0h40m, o 2º tenente Paixão comunicou que compareceu à Rua Grajaú para tomar conhecimento de ocorrência envolvendo automóvel incendiado. Todavia foi informado que se tratava, apenas, de diligência de interesse da Segurança Nacional. Chegando ao local, constatou a presença do delegado do DOPS Gomes Ribeiro, que afirmou tratar-se de serviço de rotina do interesse da Segurança Nacional”.

A verdade dos fatos não foi recuperada, mas ficou comprovado o teatro montado para a falsa versão oficial, constatada nos próprios documentos oficiais localizados no IML e no Instituto Carlos Éboli, que realizou perícias no local.

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1972

 

Filiação: Naly Ruth Salgado Nóbrega e Gorgônio Nóbrega

Data e local de nascimento: 30/07/1947, Natal (RN)

Organização política ou atividade: VAR-Palmares

Data e local da morte: 29/03/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

Lígia Maria nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, mas viveu desde criança em São Paulo, terceira numa família de seis irmãos. Tinha estudado no Colégio Estadual Fernão Dias Pais, no bairro de Pinheiros, onde fez o curso Normal. Em 1967, ingressou na Pedagogia da USP, onde se destacou por sua capacidade intelectual, pela liderança no Grêmio da Pedagogia e por buscar modernizar métodos de ensino. Trabalhava também como professora. Em 1970, engajou-se nas atividades clandestinas da VAR-Palmares. Os órgãos de segurança a indicavam como participante da execução de um marinheiro inglês, David Cuthberg, em 05/02/1972, numa ação que pretendia simbolizar a solidariedade dos Revolucionários brasileiros com a luta dos irlandeses e com o IRA. Foi morta aos 24 anos, quando estava grávida de dois meses.

Foi morta com mais três militantes da VAR-Palmares no Rio de Janeiro em 29/03/1972, em circunstâncias até hoje não esclarecidas, ficando o episódio registrado como “Chacina de Quintino”. A versão dos órgãos de segurança só foi divulgada uma semana depois, em 06/04/1972. A manchete dos jornais informava que nove militantes teriam se entrincheirado na casa 72, na avenida Suburbana, nº 8695, bairro de Quintino, naquela data, tendo três deles morrido no local (Antônio Marcos, Lígia Maria e Maria Regina), enquanto os demais teriam conseguido fugir. Segundo o “livro negro” do exército, essa residência seria o aparelho onde moravam James Allen da Luz, o principal dirigente da VAR naquele momento, e Lígia Maria. O número da casa também é informado em documentos oficiais como sendo 8988. As primeiras notícias trocavam as identidades dos mortos, somente o nome de Lígia aparecia corretamente, mas a entrada de seu corpo no IML, datada de 30 de março pela guia nº 1, é de uma desconhecida, assim como os outros.

A família de Lígia morava em São Paulo e recebeu a visita de um agente policial, que buscava informações sobre ela, pouco antes de ver anunciada sua morte por noticiário na televisão. Lígia foi reconhecida no IML pelo irmão Francisco, médico, no dia 07/04, comprovando a presença em seu corpo de escoriações e manchas escuras nas costas e nas regiões laterais do corpo, além das marcas de tiros na cabeça e no braço.

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1972

 

Filiação: Ezequiela Cordeiro Oest e Edmundo Oest

Data e local de nascimento: 17/06/1907, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: PCdoB

Data e local da morte: 21/12/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

Lincoln, dirigente do PCdoB, nasceu no Rio de Janeiro em 17 de junho de 1907, filho de Ezequiela Cordeiro Oest. Militante político desde os 15 anos, atuou junto ao movimento operário e participou, como militar, do levante de novembro de 1935 da Aliança Nacional Libertadora. Em 1946, foi eleito deputado estadual pelo partido Comunista, sendo cassado em 1948, quando a sigla foi colocada novamente na ilegalidade. Jornalista, em 1962 fez parte da Comissão de Solidariedade a Cuba e organizou a Comissão Cultural Brasil-Coréia do Norte.

Em 10/04/1964, dia seguinte à decretação do primeiro Ato Institucional, os seus direitos políticos foram cassados pelo regime militar, sendo ele o 18º de uma lista de 100 nomes, iniciada com Luis Carlos Prestes e concluída com o cabo Anselmo. A partir de então, Lincoln Oest passou a viver na clandestinidade e enfrentou uma primeira prisão em 1968, pelo DOPS de São Paulo, onde foi torturado e após 18 dias liberado por ausência de acusações. Em 20/12/1972, integrando a Executiva do Comitê Central do PCdoB, foi novamente preso, aos 65 anos de idade, agora pelos agentes do DOI-CODI do Rio de Janeiro, que o torturaram até a morte.

O comunicado oficial sobre sua morte é típico de um momento em que os órgãos de segurança apreciam já não querer esconder que as versões apresentadas eram deliberadamente falsas. Sem preocupação alguma com a verossimilhança das informações, anunciava que Lincoln Oest “foi morto ao tentar uma fuga na hora da prisão”. Entretanto, a guia do DOPS/RJ, encaminhada ao IML, onde entrou como desconhecido, registra que o corpo de Lincoln estava largado “num terreno baldio da Rua Garcia Redondo após tiroteio com agentes das forças de segurança”. O horário apontado, cinicamente, é 2h50m, quando todos sabiam que, nas rigorosas condições de clandestinidade vividas pelos dirigentes comunistas, os encontros com companheiros não eram marcados após o anoitecer, muito menos em altas horas da madrugada. Laudo e fotos de perícia de local concluem por morte violenta (homicídio) e mostram o corpo de Lincoln baleado. As fotos mostram também evidentes marcas de tortura.

A versão oficial de morte por tentativa de fuga foi desmentida pelos depoimentos dos presos políticos José Auri Pinheiro e José Francisco dos Santos Rufino, prestados à época em auditorias militares. Segundo eles, Lincoln foi torturado no DOI-CODI/RJ, onde estava preso. Tanto Auri, quanto Rufino ouviram de um policial torturador que Lincoln teria sido “eliminado em suas mãos”. O exame cadavérico demonstrou que o ex-deputado foi morto com grande número de tiros (pelo menos nove), em várias partes do corpo. A necropsia, realizada por Adib Elias e Eduardo Bruno, confirmou a versão oficial de morte em tiroteio. O corpo de Lincoln foi reconhecido por sua filha Vânia Moniz Oest, somente no dia 06/01/1973, sendo sepultado por sua família no Cemitério São João Batista (RJ) no dia 8.

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1972

 

Filiação: Tereza Wanderley Neves e Antônio Araújo Neves

Data e local de nascimento: 31/03/1943, Olinda (PE)

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local da morte: 29/12/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

No dia 17/01/1973 os órgãos de segurança tornaram pública a morte de seis militantes do PCBR, ocorridas, segundo a nota oficial, em 29/12/1972, em função de tiroteios. Na verdade, todos foram mortos depois de presos.

Lourdes Maria era pernambucana de Olinda e estudou o primário e o ginásio em Recife, não chegando a concluir seus estudos por seu envolvimento na militância política a partir de 1968. Em 1969, casou-se com Paulo Pontes da Silva, com quem se mudou para Natal (RN) devido à repressão política. Novamente perseguido, o casal transferiu-se, em fevereiro de 1970, para Salvador (BA), sendo que no mesmo ano, Paulo foi preso, sendo posteriormente condenado à prisão perpétua, por coautoria no assassinato de um sargento da Aeronáutica que o conduzia preso algemado ao companheiro de militância Theodomiro Romeiro dos Santos. Após a prisão de Paulo Pontes, Lourdes foi então deslocada para a militância clandestina no Rio de Janeiro.

A versão sobre a morte de Lourdes Maria, divulgada pelo serviço de Relações Públicas do I Exército, em 17/01/1973, sob o título “Destruído o Grupo de Fogo terrorista do PCBR/GB”, informava que, em ações simultâneas em pontos diferentes do estado da Guanabara, teriam morrido seis militantes, um cara ficara ferido, outro escapara ao ser perseguido, e dois foram presos. Não informava os nomes dos presos e do ferido, mas assumia prisão em Recife, em 26/12/1972, de Fernando Augusto, que fora levado para o Rio de Janeiro. Enquanto um grupo de agentes teria se deslocado com Fernando para o bairro do Grajaú, onde havia um “ponto”, outro grupo cercava a casa na Rua Sargento Valder Xavier de Lima nº 12, fundos, em Bento Ribeiro, onde teriam morrido Valdir Sales Sabóia e Luciana Ribeiro da Silva (Lourdes Maria Pontes).

Lourdes recebeu, dentre outros, três tiros sequenciais no tórax, característicos de execução, e ainda um no pulso direito, característico de ferimento de defesa. Em algumas fotos, aparece usando relógio de pulso e, em outras, no mesmo local, o relógio já não aparece. Com tantos tiros, não são vistas poças de sangue ao seu redor.

A necropsia foi feita pelos legistas Roberto Blanco dos Santos e Helder Machado Paupério, em laudos sucintos. Informam sobre Lourdes, que sua necropsia foi realizada quando seu corpo apresentava rigidez muscular generalizada, o que indica que estava morta havia pelo menos 12 horas. Se assim foi, o óbito teria ocorrido por volta das 14 ou 15 horas e estranha-se que a perícia técnica só tenha comparecido às 23 horas. A denúncia da morte da militante sob tortura já havia sido feita por presos políticos.

Nunca se soube quais foram os presos, quais os feridos, quem se rendeu, nem os que conseguiram fugir. Para todos os conhecedores dos métodos utilizados pelos órgãos de repressão política, a versão oficial já levanta suspeitas em função do endereço da casa em Bento Ribeiro: Rua sargento Valder Xavier de Lima, nome de um militar morto em 1970, em Salvador (BA) por militantes do mesmo PCBR, conforme já descrito.

A verdade dos fatos não foi recuperada, mas ficou comprovado o teatro montado para a falsa versão oficial, constatada nos próprios documentos oficiais localizados no IML e no Instituto Carlos Éboli, que realizou perícias no local.

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1972

 

Filiação: Cecília Lisboa Lobo e Álvaro Lobo Leite Pereira

Data e local de nascimento: 05/06/1938, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: VAR-Palmares

Data e local da morte: 29/03/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

Maria Regina nasceu no Rio de Janeiro, sendo a quinta dentre seis filhos de um médico pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz e de uma assistente social do INAMPS. Fez o primário e o ginásio no Colégio Sacre-Couer de Jesus e o científico nos colégios Resende e Aplicação da Faculdade Nacional de Filosofia. Formou-se em Pedagogia em 1960, pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (atual UFRJ). Foi integrante da JEC e da JUC e desenvolveu longo trabalho como educadora na cidade de Morros, interior do Maranhão, por meio do Movimento de Educação base-MEB, apoiado pela Igreja Católica. Ali permaneceu entre dois e três anos, sendo transferida para Recife, onde conheceu Raimundo Gonçalves Figueiredo, com quem se casou em 1966, sendo então militantes da AP. Juntos, trabalharam em um projeto de educação de índios no Paraná, por meio da FUNAI. Raimundo tinha sido morto em 28 de abril de 1971, em Recife. Após a morte do companheiro, Maria Regina voltou ao Rio de Janeiro. O casal deixou duas filhas: Isabel e Iara, que tinham três e quatro anos quando a mãe foi morta, aos 33 anos. Consta do “livro negro” do Exército, que Maria Regina era a responsável pelo setor de imprensa da organização, no Rio de Janeiro, que produzia o jornal União Operária.

Quatro militantes da VAR-Palmares foram mortos no Rio de Janeiro em 29/03/1972, em circunstâncias até hoje não esclarecidas, ficando o episódio registrado como “Chacina de Quintino”. A versão dos órgãos de segurança só foi divulgada uma semana depois, em 06/04/1972. A manchete dos jornais informava que nove militantes teriam se entrincheirado na casa 72, na Avenida Suburbana, nº 8695, bairro de Quintino, naquela data, tendo três deles morrido no local (Antônio Marcos, Lígia Maria e Maria Regina), enquanto os demais teriam conseguido fugir.

A verdade dos fatos nunca foi estabelecida. James Allen da Luz, que estava na casa de Quintino e conseguiu fugir, relatou a companheiros que chegou a ver quando Maria Regina foi ferida na perna, sendo presa pelos agentes policiais. Sua família, ao receber o corpo, constatou que tinha a perna inchada, o que indica não ter morrido naquele momento. Maria Regina estivera na véspera na casa de sua irmã Maria Alice, onde viviam suas duas filhas, tendo ali pernoitado, o que fazia com alguma frequência. No dia seguinte, despediu-se dos familiares no bairro de Bonsucesso. A família viajou e somente no dia 3 de abril, Maria Alice foi avisada por telefone da prisão de Maria Regina no dia 29 de março, com a informação de que fora ferida na perna.

O telefonema alertava a família para que a buscasse imediatamente, pois estava presa há muitos dias. Procuraram imediatamente o Departamento de Relações Públicas do Exército, que negou a prisão. Mas, por meio de um militar amigo, souberam que ela estava presa, em situação muito grave. No dia 5 de abril, no início da tarde, o mesmo amigo informou à família que ela acabara de morrer e que as notícias seriam divulgadas ainda naquela noite e nos jornais do dia seguinte, o que de fato ocorreu, mas com a falsa versão de morte em tiroteio e sem a sua identificação.

Maria Regina dera entrada no IML como desconhecida, com data da morte de 30 março. Portanto, morreu no dia seguinte à sua prisão. O laudo dizia que a morte foi causada por “feridas transfixantes de crânio e tórax com destruição parcial do encéfalo, lesão da artéria aorta, hemorragia interna e consequente anemia agua”.

No dia 6 de abril, ao comparecer ao IML para reconhecer o corpo, sua irmã e cunhado, ambos médicos, constataram escoriações generalizadas e marcas de vários tiros, que segundo eles certamente eram posteriores ao alojado na perna, onde havia reação inflamatória. O corpo ainda não fora necropsiado e tiveram que providenciar prova datiloscópica para que fosse liberado. Em 7 de abril, foi finalmente fornecido o óbito, assinado por Eduardo Bruno, tendo como base autopsia detalhada que teria sido feita em 30 de março, antes da data em que os familiares viram o corpo, que não possuía nenhuma sutura da incisão da autópsia. Maria Regina foi sepultada pela família no Cemitério São João Batista.

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1972

 

Filiação: Ephigenia Salles Sabóia e Gerson Augrey de Sabóia

Data e local de nascimento: 01/03/1950, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local da morte: 29/03/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

No dia 17/01/1973 os órgãos de segurança tornaram pública a morte de seis militantes do PCBR, ocorridas, segundo a nota oficial, em 29/12/1972, em função de tiroteios. Na verdade, todos foram mortos depois de presos.

Valdir Sales Sabóia foi soldado da PM Guanabara e não foi possível reunir outros registros de sua biografia e militância política, além da informação contida no “livro negro” do Exército, apontando-o como participante da conferência de fundação do PCBR, no Rio de Janeiro, em 11 e 12 de abril de 1968.

A versão sobre a morte de Valdir Sales Sabóia, divulgada pelo serviço de Relações Públicas do I Exército, em 17/01/1973, sob o título “Destruído o Grupo de Fogo terrorista do PCBR/GB”, informava que, em ações simultâneas em pontos diferentes do estado da Guanabara, teriam morrido seis militantes, um cara ficara ferido, outro escapara ao ser perseguido, e dois foram presos. Não informava os nomes dos presos e do ferido, mas assumia prisão em Recife, em 26/12/1972, de Fernando Augusto, que fora levado para o Rio de Janeiro. Enquanto um grupo de agentes teria se deslocado com Fernando para o bairro do Grajaú, onde havia um “ponto”, outro grupo cercava a casa na Rua Sargento Valder Xavier de Lima nº 12, fundos, em Bento Ribeiro, onde teriam morrido Valdir Sales Sabóia e Luciana Ribeiro da Silva (Lourdes Maria Pontes).

A necropsia foi feita pelos legistas Roberto Blanco dos Santos e Helder Machado Paupério, em laudos sucintos. Informam sobre Valdir, que sua necropsia foi realizada quando seu corpo apresentava rigidez muscular generalizada, o que indica que estava morto há pelo ao menos 12 horas. Se assim foi, o óbito teria ocorrido por volta das 14 ou 15 horas e estranha-se que a perícia técnica só tenha comparecido às 23 horas. A denúncia da morte do militante sob tortura já havia sido feita por presos políticos.

Nunca se soube quais foram os presos, quais os feridos, quem se rendeu, nem os que conseguiram fugir. Para todos os conhecedores dos métodos utilizados pelos órgãos de repressão política, a versão oficial já levanta suspeitas em função do endereço da casa em Bento Ribeiro: Rua sargento Valder Xavier de Lima, nome de um militar morto em 1970, em Salvador (BA), por militantes do mesmo PCBR, conforme já descrito.

A verdade dos fatos não foi recuperada, mas ficou comprovado o teatro montado para a falsa versão oficial, constatada nos próprios documentos oficiais localizados no IML e no Instituto Carlos Éboli, que realizou perícias no local.

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1972

 

Filiação: Maria Ferreira Dias

Data e local de nascimento: Não se sabe

Organização política ou atividade: VAR-Palmares

Data e local da morte: 30/03/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

Sobre Wilton, não se possui qualquer dado e nem sequer a certeza de ser este seu nome verdadeiro. Sua família nunca foi localizada. Seu nome constava em dossiês anteriores como Wilson Ferreira ou como Hilton Ferreira, nome que também consta nos documentos oficiais relativos à morte, junto ao de Onofre Rodrigues de Moraes, que seria sua identidade falsa.

Segundo informe do DOI/I Exército, difundido internamente para diversos órgãos de segurança, Wilton teria sido morto na oficina mecânica VAR-Palmares em Cavalcanti, local onde os carros eram pintados, seus motores recebiam números falsos e as placas eram trocadas. Além da morte de Wilton, teria havido a prisão de um militante, que não é identificado, e a fuga de outro, cujo nome tampouco foi revelado.

Estranhamente, o Instituto Félix Pacheco informou que Wilton não requereu a carteira de identidade, Forneceu, entretanto, seu número de RG, acrescentando que era natural do Rio de Janeiro, filho de Maria Ferreira Dias. Wilton foi enterrado como indigente no Cemitério de Ricardo de Albuquerque, no Rio, em 27/06/1972, o que é mais estranho ainda, por ocorrer quase três meses após sua morte. Em 06/02/1978, seus restos mortais foram para um ossuário geral e, no início da década de 80, transferidos para uma vala clandestina com cerca de 2000 ossadas de indigentes.

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1973

 

Filiação: Maria de Lourdes Guedes de Lima e João Custódio de Lima

Data e local de nascimento: 24/05/1950, Recife (PE)

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local da morte: 27/10/1973, Rio de Janeiro (RJ)

 

Quatro militantes do PCBR foram mortos pelos órgãos de segurança do regime militar em 27/10/1973, no Rio e Janeiro, e a cena para legalização das execuções foi montada na Praça Sentinela, em Jacarepaguá. Ramires, Almir e Vitorino aparecem totalmente carbonizados dentro de um Volkswagen, enquanto o corpo de Ranúsia jaz baleado, embora não queimado. Foram esses os últimos membros do PCBR a serem mortos no longo ciclo do regime militar, encerrando a série iniciada com o assassinato sob torturas de Mário Alves, principal dirigente e fundador do partido, em janeiro de 1970, no DOI-CODI/RJ. Em outubro de 1973, quando dessas últimas quatro mortes, o PCBR já estava reduzido a um pequeno círculo de militantes.

Os documentos oficiais dos arquivos dos Ministérios do Exército, Marinha e Aeronáutica mostram versões desencontradas sobre a morte dos quatro militantes. Alguns fatos só começaram a ser esclarecidos com a abertura dos arquivos secretos do DOPS, no Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco.

O pernambucano Almir Custodio de Lima tinha 23 anos quando foi morto. Fez o curso médio na Escola Técnica Federal de Recife e foi metalúrgico, tendo trabalhado na Aluferco, no Rio de Janeiro. Casou-se aos 21 anos com Nadja Maria de Oliveira, em 10/08/1971. Não foi possível reunir mais informações sobre sua biografia e sobre atividades políticas anteriores. O “Livro Negro do Terrorismo no Brasil”, de autoria atribuída ao Centro de Informações do Exército, registra que os quatro militantes do PCBR foram localizados a partir de uma operação em que Almir passou a ser seguido intensamente, após denúncia de um informante na primeira quinzena de outubro de 1973. Esse documento também o inclui entre os participantes da execução de Salatiel Teixeira Rolins, num bar no Leblon, dia 22/07/1973, onde teria pixado uma parede com a sigla PCBR e jogado sobre o cadáver panfletos assinados “Comando Mário Alves”.

Seu corpo deu entrada no IML como desconhecido e foi necropsiado por Hélder Machado Paupério e Roberto Blanco dos Santos, que confirmaram a versão oficial. A partir de 1991, com os documentos encontrados nos arquivos do DOPS foi comprovada a morte de dois desaparecidos. Documento de informação do Ministério da Aeronáutica de 22/11/1973, encontrado no arquivo do antigo DOPS/SP, afirma: “dia 27/10/1973, em tiroteio com elementos dos órgãos de segurança da Guanabara, foram mortos os seguintes militantes do PCBR: Ranúsia Alves Rodrigues, Ramires Maranhão do Valle, Almir Custódio de Lima e Vitorino Alves Moitinho”.

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1973

 

Filiação: Maria Rosa Leite Monteiro e Benedito Monteiro Guimarães

Data e local de nascimento: 28/03/1947, Itaberai (GO)

Organização política ou atividade: APML

Data e local da morte: 10/10/1973, Rio de Janeiro (RJ)

 

Presidente da UNE depois da interrupção de seu 30º Congresso em Ibiúna e da prisão de Jean Marc von der Weid, Honestino era goiano de Itaberaí e foi casado com Isaura Botelho Guimarães, com quem teve a filha Juliana. Em 1960, sua família se mudou para Brasília quando era inaugurada a nova capital da República, e Honestino se matriculou na quarta série ginasial do Colégio Elefante Branco, apelidado durante o regime militar de Elefante Vermelho, devido ao engajamento político de seus estudantes. Iniciou o colegial nessa escola, concluindo-o no CIEM – Centro Integrado de Ensino Médio. Ainda secundarista, começou a atuar no movimento estudantil. Com apenas 17 anos, passou no vestibular de 1965 para cursar Geologia na Universidade de Brasília, obtendo o primeiro lugar entre os vestibulandos de todos os cursos. Seu irmão relata que ele somou 257 pontos num total de 260, sendo que o segundo colocado estava 43 pontos atrás dele.

Foi presidente do Diretório Acadêmico da Geologia e durante uma de suas prisões, sem se candidatar, foi eleito presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (FEUB). Sua primeira prisão ocorreu em 1966 e voltou a ser preso no primeiro semestre de 1968. Em 29/08, a violenta e desastrosa invasão policial do campus da Universidade de Brasília teve como um de seus objetivos localizar Honestino, que foi preso sob intensa pancadaria, enquanto os estudantes queimavam viaturas policiais, ocorrendo detenções em massa.

Foi sua prisão mais longa e, depois de solto, passou a viver na clandestinidade, sendo dessa forma impedido de concluir os últimos três meses que faltavam para se formar geólogo. Três dias antes da edição do AI-5, deixou Brasília e se escondeu em Goiânia. A mãe de Honestino relatou que, naquele período, sua casa chegou a ser invadida mais de dez vezes por agentes policiais. Numa dessas invasão de domicílio, Norton, o irmão mais novo de Honestino, de 18 anos, foi levado ao DOPS e, depois, ao Pelotão de Investigações Criminais do Exército, para revelar seu paradeiro. Na luta para soltar Norton, o pai de Honestino ficou praticamente três noites sem dormir e, como consequência, dormiu ao volante no trânsito, morrendo em 17/12/1968.

Entre 1969 e 1972, Honestino viveu em São Paulo desempenhando as atividades de dirigente da UNE e militante da AP. No final de 1972, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi preso pelo CENIMAR em 10/10/1973. Sua mãe o procurou por todas as unidades de segurança e chegou a obter a promessa de que poderia visitá-lo, no PIC de Brasília, no Natal daquele ano, o que se comprovou ser mais um engodo. Seu nome consta da lista de desaparecidos políticos do Anexo da Lei nº 9.140/95. Conforme já relatado na apresentação de casos anteriores, Honestino discordou da incorporação da AP do PCdoB, discutida em 1971 e 1972 e, quando morto, fazia para da APML, ao lado de Paulo Wright, Umberto Câmara Neto e outros militantes.

Antes de ser preso e morto, Honestino escreveu uma mensagem pública intitulada “Mandato de Segurança Popular”, iniciativa imaginada por ele mesmo denunciando que os órgãos de segurança do regime militar já tinham mandado recados de que seria morto se localizado. Divulgado de forma clandestina, principalmente no meio universitário, o documento afirmava: “A minha situação atual é de uma vida na clandestinidade forçada há quase cinco anos. Neste tempo sofri vários processos, alguns já julgados. O resultado desses julgamentos marca com clareza o particular ódio e a tenaz perseguição de que sou objeto. Nada menos de 25 anos em cinco processos. Todos eles, menos um, referentes à minha participação nas lutas estudantis em 1968. Sem maiores provas, sem maiores critérios, estas condenações são algumas das centenas de exemplos a que se viu reduzida a justiça em nosso País. É certo que a justiça, sendo um instrumento de classe, nunca foi exemplo de isenção e imparcialidade. Mas é certo também que nunca chegou a tal grau de distorção. A começar da criação dos tribunais de exceção: os tribunais militares. Depois, a brutalidade das prisões e as maiores violências nas fases dos interrogatórios onde as confissões, forçadas, arrancadas, são obtidas à custa de cruéis torturas como regra geral e dezenas de mortes como resultado (…) Daí o porquê de não me entregar. Não reconheço nem posso reconhecer como ‘justiça’ o grau de distorção a que se chegou nesse terreno. A justiça a que recorro é a consciência democrática de nosso povo e dos povos de todo o mundo”.

Em Salvador, em 1979, os 10 mil estudantes universitários que se reuniram no congresso de reconstrução da UNE enfeitaram o ambiente com um gigantesco painel estampando o rosto de Honestino, e deixaram na mesa que presidiu o evento uma cadeira vazia em sua homenagem. O DCE da Universidade de Brasília foi batizado com o seu nome e em 26/08/1997, o reitor João Cláudio Todorov outorgou o título de Mérito Universitário a Honestino Guimarães.

O nome de Honestino já foi conferido, em homenagem, a vários equipamentos públicos em diferentes estados. Em São Paulo, a prefeita Luiza Erundina inaugurou o complexo viário João Dias, composto de três viadutos. Um deles recebeu o nome de Honestino Guimarães e os outros dois de Sônia Maria de Moraes Angel Jones e Frederico Eduardo Mayr. Mais recentemente, em 15 de dezembro de 2006, foi inaugurado, ao lado da Catedral de Brasília, o majestoso edifício do Museu Nacional Honestino Guimarães, construído pelo Governo do Distrito Federal e executado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, que o inaugurou no dia em que completava 99 anos. Como parte dos preparativos para comemoração do 70º aniversário de Fundação da UNE, seus dirigentes planejam lançar oficialmente o Centro de Estudos Honestino Guimarães da União Nacional de Estudantes.

 

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1973

 

Filiação: Leonina Mendes de Sá e Belarmino de Sá Roriz

Data e local de nascimento: 30/12/1927, Crato (CE)

Organização política ou atividade: RAN

Data e local da morte: 17/02/1973, Rio de Janeiro (RJ)

 

Cearense do Crato, Sá Roriz, aos 15 anos de idade, conseguiu falsificar sua própria idade para se engajar na 9ª Companhia de Fuzileiros Navais, lutando na II Guerra Mundial. Sob o comando do marechal Cordeiro de Farias lutou contra o nazifascismo no campo de batalha europeu. Foi ferido na guerra e perdeu a vista de um olho. Recebeu inúmeras condecorações e foi reformado como 2º Sargento em 1956. Tornou-se uma liderança dentre os ex-combatentes e sargentos.

No pós-guerra, foi filiado ao partido Comunista e participou de inúmeras mobilizações sindicais. Morando no Rio com a família, esteve preso várias vezes após abril de 1964, sendo recolhido à Vila Militar, Ilha das Flores, DOPS e Polícia do Exército. Teria ligações com Leonel e chegou a candidatar-se a deputado federal. Segundo informações dos órgãos de segurança, logo após a derrubada de João Goulart, Sá Roriz esteve vinculado a uma articulação subversiva de integrantes da Polop, desbaratada imediatamente, que foi divulgada pela imprensa como “Guerrilha de Copacabana”. Por esse episódio, seria condenado pela Justiça Militar, em 27/11/1969, a cinco anos de reclusão, mesma pena imposta a Rui Mauro Marini e Luiz Alberto Moniz Bandeira, intelectuais brasileiros de expressão nacional.

Consta em um documento do CENIMAR, datado de 06/02/1969, que informa sobre o furto de um fuzil do Exército por elementos “contrarrevolucionários”, uma referência ao nome de Sá Roriz, que teria um “aparelho” com João Lucas Alves, dirigente do COLINA que foi morto em março daquele ano, local onde foi apreendido material subversivo.

Em 1965, asilou-se na embaixada do México e seguiu para aquele país. Em 1968, sua filha Suely foi presa e levada à Polícia do Exército do Rio de Janeiro, pro ter feito declarações à imprensa em defesa do pai. Sá Roriz retornou em 1969 ao Brasil, para rever o filho Eduardo Licarião Roriz, gravemente acometido de meningite. Ficou vivendo no Brasil, clandestinamente, até sua prisão e morte em 17/02/1973, acusado de estar vinculado à organização clandestina RAN – Resistência Armada Nacional.

Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio informam no livro “Dos Filhos deste Solo”: “No início de janeiro de 1973, Sá Roriz escapou por pouco à prisão no Rio. Em represália, os militares do centro de tortura da Barão de Mesquita invadiram a casa de sua mulher e filhos e tomou como refém o jovem Eduardo, então com 18 anos. Levaram-no para o DOI-CODI, onde por três dias passou sede, fome, em cela onde a temperatura oscilava do frio intenso ao calor forte, tomou choques elétricos. Foi sequestrado no dia 27 de janeiro”. Sá Roriz, ao saber que o filho ficaria preso até que ele próprio se apresentasse e preocupado com as ameaças feitas à sua família, se entregou ao marechal Cordeiro de Farias, sob cujo comando lutara na Itália, acreditando que assim garantiria sua vida. No dia 30 de janeiro, Sá Roriz, acompanhado do marechal, foi ao gabinete do chefe do 1º Exército, Sizeno Sarmento, a quem se entregou em troca da liberdade do filho. Levado preso para o DOI-CODI, lá foi morto dezessete dias depois.

Após muita pressão, a família conseguiu a liberação do corpo no Hospital Central do Exército. O atestado de óbito só foi assinado cinco meses depois, no dia 11/06/1973, e não apresenta causas para a morte por “depender de exames laboratoriais solicitados”. Foi enterrado no dia 18/02/1973, no Cemitério Jardim da Saudade. Não ficaram estabelecidas as reais circunstâncias da morte de Sá Roriz.

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1973

 

Filiação: Maria Augusta Bicalho Roque e José Sarmento Roque

Data e local de nascimento: 25/05/1945, São José do Calçado (ES)

Organização política ou atividade: PCdoB

Data e local da morte: 13/03/1973, Rio de Janeiro (RJ)

 

Capixaba de São José do Calçado, Lincoln cursou o primário no Grupo Escolar Bodart Júnior de Rio Novo do Sul (ES) e o Ginásio no Colégio Estadual do Espírito Santo em Vitória, onde tirou primeiro lugar, conseguindo cursar o segundo grau no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Sempre foi um excelente aluno, aprovado em todos os vestibulares que prestou para Medicina do estado do Rio de Janeiro. Cursou um ano na Faculdade Nacional de Medicina (UFRJ), mas trancou a matrícula para estudar Sociologia na mesma universidade. Formou-se em 1967 e foi contratado como professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Em abril de 1968, em razão de suas atividades políticas, teve aposentadoria compulsória, Tornou-se militante do PCdoB logo após ter participado da conferência de fundação do PCBR, no Rio de Janeiro.

Trabalhou como sociólogo no SESC até passar a viver na clandestinidade em 1972. Participou do Programa Nacional de Alfabetização e integrou o Comitê Estadual e o Comitê Central do PCdoB. Antes da clandestinidade foi preso várias vezes. Após 1972 trabalhou para várias instituições usando outras identidades.

Pela versão oficial, Lincoln morreu ao reagir às forças de segurança. Tinha 28 anos de idade. O corpo foi encontrado ao lado do Pavilhão de São Cristóvão (RJ), em 13/03/1973, com mais de 15 tiros. O cadáver teria entrado no IML/Rj no mesmo dia, como desconhecido. A necropsia, realizada no dia seguinte por Gracho Guimarães Silveira e Jorge Antunes Amorim, confirmou a versão oficial de morte em tiroteio. Teria sido reconhecido pelas impressões digitais, segundo documentos do DOPS/RJ, em 16/03/1973 e, retirado por seu irmão para o enterro realizado pela família, no dia 23, no Cemitério jardim da Saudade (RJ). Sua morte foi divulgada pelos órgãos de repressão no dia 21/03/1973.

João Luis de Santiago Dantas Barbosa Quental, companheiro de militância de Lincoln, preso dia 06/03/1973, e recolhido à PE da Rua Barão de Mesquita, onde funcionava o DOI-CODI/RJ, confirmou ter sido levado para uma Praça em São João de Meriti, onde tinha encontro marcado com Lincoln. Eli, escoltado pelos agentes do DOI-CODI, viu quando Lincoln chegou ao local e foi preso, agarrado pelo cós da calça e pelos braços, sem esboçar qualquer reação. Acrescentou que, conforme orientação do partido a que pertencia – e Lincoln era do Comitê Central – os militantes não portavam armas nas cidades, pois o PCdoB defendia que a luta armada deveria ser travada no campo. Soube da morte de Lincoln dias depois, por outro preso, que lhe relatou ter a nota oficial informando que ele faleceu em tiroteio em um outro local.

Delzir Antônio Mathias declarou que foi preso no dia 01/06/1975. Como durante a tortura no DOI-CODI/RJ não falava nada, ameaçaram levá-lo para o delegado Fleury em São Paulo, dizendo-lhe que era corajoso como o Lincoln, que resistira muito às torturas, e que lhe passariam um filme para que visse em que estado Lincoln ficara. Amilcar Lobo Barroso Siqueira, que em 1973, era estagiário no escritório do advogado Modesto da Silveira, afirmou que a família de Lincoln procurou o escritório ao saber que ele estava preso. Todas as tentativas feitas para localizá-lo tiveram resposta negativa.

O levantamento pericial, realizado por Luiz Leite Santiago e Brent Barros, descreve o encontro do corpo, das vestes, os ferimentos, a chuva e a iluminação deficiente, concluindo que houve um homicídio, em circunstância a serem esclarecidas e atestam: “Com o cadáver nas proximidades não foram encontrados quaisquer documentos, pertences, ou outros elementos materiais (vestígios) de valor criminalístico que se pudesse relacionar ao evento da causa”. A própria perícia desmente a versão oficial ao constatar que ali não havia armas. A história da militância política de Lincoln já tinha sido tema de documentário do diretor Cacá Diegues, intitulado Oito Universitários

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1973

 

Filiação: Ercília Ghico e Gino Ghilardini

Data e local de nascimento: 01/06/1920, Santos (SP)

Organização política ou atividade: PCdoB

Data e local da morte: 04/01/1973, Rio de Janeiro (RJ)

 

Membro da Executiva do Comitê Central do PCdoB, foi morto no DOI-CODI/RJ, em 05/01/1973. Ingressou no Partido Comunista em 1945, na cidade de Santos (SP), onde mantinha atuação sindical aos portuários. Em 1953, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se tornou membro do Comitê dos Marítimos, importante organismo partidário naquele período. Foi operário naval, ferreiro e posteriormente jornalista. Seus direitos políticos foram cassados em 23/05/1966.

No dia 04/01/1973, sua casa foi invadida por 13 homens armados. Sua esposa Orandina e seu filho de oito anos, Gino, foram encapuzados e presos. As violências e espancamentos já tiveram início dentro de casa. Na última vez que ela viu o marido Ghilardini estava de costas, as mãos amarradas com uma borracha, tendo os braços roxos.

O filho de Gino relatou mais tarde: “nós fomos levados para uma prisão que não sei onde era; só sei que ficava no subsolo. Chegando lá me tiraram de perto de minha mãe e, encapuzado ainda, fui levado a uma sala, onde começaram a fazer perguntas. Perguntavam se o meu pai viajava e o que ele fazia. E eu, muito assustado, nada respondia; mas eu ouvia meu pai ali perto gemendo, eu escutava, mas não podia fazer nada. Só sei que sentia muito medo”. Orandina foi interrogada diariamente e cerca de nove dias após sua prisão soube que o marido estava morto. Foi libertada três meses depois e só então encontrou o filho.

Pela versão oficial dos órgãos de segurança, o corpo de Luiz, encontrado nas Ruas Girapimirim com Turvânia (RJ), entrou no IML em 05/01/1973, como desconhecido, descrito apenas como “morto quando reagiu às Forças de Segurança”. Sua necropsia, realizada no mesmo dia, foi assinada pelos legistas Salim Raphael Balassiano e Rubens Pedro macuco Janini, que confirmaram a morte em tiroteio, embora tenham registrado que “o membro superior direito exibe sinais de lesões violentas”.

Foi reconhecido no mesmo dia, pelo serviço de Identificação do Instituto Félix Pacheco/RJ e no dia seguinte o cadáver foi enterrado, com seu nome verdadeiro, como indigente no Cemitério Ricardo de Albuquerque (RJ). Em 20/03/1978, seus restos mortais foram transferidos para um ossuário geral e, entre 1980 e 1981, enterrados numa vala clandestina com cerca de duas mil outras ossadas.

A certidão de óbito é assinada pelo segundo legista, Rubens Macuco Janini, e não pelo primeiro como ocorre normalmente. Tem como declarante José Severino Teixeira. Foram emitidas duas certidões de óbito para Ghilardini, com diferentes datas para o dia da morte: a do dia 06/02/1973, declara que morreu no dia 01/01/1973, a outra, com data de 23/03/1973, informa que o dia da morte foi 04/01/1973.

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1973

 

Filiação: Mery Menezes e Domingos de Araújo

Data e local de nascimento: 04/01/1949, Alto Paraguai (MT)

Organização política ou atividade: ALN

Data e local da morte: 14/04/1973, Rio de Janeiro (RJ)

 

Mato-grossense do Alto Paraguai, o estudante Merival Araújo foi morto sob torturas pelos agentes do DOI-CODI/RJ, uma semana depois de ser preso em frente ao prédio nº 462 da Rua das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, em 07/04/1973. Nesse endereço morava Francisco Jacques Moreira de Alvarenga, conhecido como Professor Jacques, militante da RAN – Resistência Armada Nacional, e amigo de Merival. Jacques fora preso dois dias antes pelo DOI-CODI/RJ e, coagido, decidiu colaborar e participou da montagem da emboscada para prender Merival. O encontro foi acertado por telefone, quando Francisco Jacques já estava preso. Jacques foi solto um mês depois e morto a tiros por um comando da ALN.

Com as devidas reservas que merece um documento produzido pelos próprios agentes de segurança e tortura do período ditatorial, cabe transcrever um trecho do Livro Negro produzido pelo Exército entre 1986 e 1988: “Menos sorte teve o professor Francisco Jacques Moreira de Alvarenga. Antes de sua prisão, recebera de Júlio Rosas um pacote contendo algumas armas do lote roubado da Guarda Noturna do Rio de Janeiro, com a orientação de desfazer-se dele. Jacques passou as armas para Merival de Araújo – terrorista da ALN – de quem era um elemento de ‘apoio’. Durante seus depoimentos na polícia, Jacques ‘abriu’ um contato que teria com Merival, que, de forma previsível, se tratando de terrorista da ALN, foi morto ao reagir à prisão. No dia 28 de junho. Francisco Jacques de Alvarenga seria assassinado pela ALN em pleno Colégio Veiga de Almeida, no Rio de Janeiro, onde lecionava”. Esse mesmo documento inclui o nome de Merival como participante do Comando Getúlio de Oliveira Cabral, que matou o delegado Octávio Gonçalves Moreira Junior, agente do DOI-CODI/SP, em Copacabana, no dia 25/02/1973.

Apesar de perfeitamente identificado desde o momento em que os agentes do DOI-CODI obtiveram a informação de Jacques, o corpo de Merival deu entrada no IML como desconhecido, com a versão de que fora morto em tiroteio, no dia 14 de abril, na Praça Tabatinga, sendo enterrado como indigente no cemitério de Ricardo de Albuquerque em 24 de maio, 40 dias após a suposta data da morte. Foram localizadas algumas das 20 fotos da perícia feita no local pelo Instituto Carlos Éboli/RJ. Os peritos registram múltiplos ferimentos produzidos por armas de fogo, fazendo constar que, “sobre este capítulo, melhor dirão os senhores médicos legistas em laudo próprio”. Afirma ainda que “a pesquisa papiloscópica resultou negativa face à impropriedade do local”.

Mervial morou em Minas Novas, Vale do Jequitinhonha, onde era professor. No Rio de Janeiro, continuou a dar aulas até ser morto. Seu corpo nunca foi entregue aos familiares. Em 1978 seus restos mortais foram para o ossuário geral e, depois, para a vala clandestina no cemitério.

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1976

 

Filiação: Áurea Alves Siqueira e Moisés Rodrigues Vilela

Data e local de nascimento: 18/06/1945, Garanhuns (PE)

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local da morte: 27/03/1973, Rio de Janeiro (RJ)

 

Quatro militantes do PCBR foram mortos pelos órgãos de segurança do regime militar em 27/10/1973, no Rio e Janeiro, e a cena para legalização das execuções foi montada na Praça Sentinela, em Jacarepaguá. Ramires, Almir e Vitorino aparecem totalmente carbonizados dentro de um Volkswagen, enquanto o corpo de Ranúsia jaz baleado, embora não queimado. Foram esses os últimos membros do PCBR a serem mortos no longo ciclo do regime militar, encerrando a série iniciada com o assassinato sob torturas de Mário Alves, principal dirigente e fundador do partido, em janeiro de 1970, no DOI-CODI/RJ. Em outubro de 1973, quando dessas últimas quatro mortes, o PCBR já estava reduzido a um pequeno círculo de militantes.

Os documentos oficiais dos arquivos dos Ministérios do Exército, Marinha e Aeronáutica mostram versões desencontradas sobre a morte dos quatro militantes. Alguns fatos só começaram a ser esclarecidos com a abertura dos arquivos secretos do DOPS, no Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco.

No dia 29/10/1973, a imprensa carioca apenas noticiou a morte de dois casais em Jacarepaguá. O Jornal do Brasil estampou “Polícia especula, mas nada sabe ainda sobre os casais executados em Jacarepaguá”, enquanto O Globo noticiou: “Metralhados dois casais em Jacarepaguá”. Nenhum dos jornais citou nomes dos mortos. O mesmo ocorreu na matéria da revista Veja, de 07/01/1973, “Quem Matou Quem?”. Somente em 17/11/1973, tanto em O Globo, quanto no Jornal do Brasil, respectivamente, sob os títulos “Terroristas Morrem em Tiroteio com as Forças de Segurança” e “Terroristas São Mortos em Tiroteio”, se lê: “em encontro com forças de segurança, vieram a falecer, após travarem cerrado tiroteio, quatro terroristas, dois dos quais identificados como Ranúsia Alves Rodrigues, ‘Florinda’, e Almir Custódio de Lima, ‘Otávio’, pertencentes à organização clandestina subversiva intitulada PCBR”.

No livro Dos Filhos deste Solo, Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio assim registram o episódio: “Chovia na noite de 27 de outubro de 1973, um sábado. Alguns poucos casais escondiam-se da chuva junto do muro do Colégio de Jacarepaguá, no Rio. Por volta das 22h um homem desceu de um opala e avisou: ‘Afastem-se porque a barra vai pesar’. O repórter de Veja (7/11/73) localizou alguém que testemunhou o significado desse aviso: ‘Não ouvimos um gemido, só os tiros, o estrondo e a correria dos carros’. (…) Vindos de todas as Ruas que levam à Praça, oito ou nove carros foram chegando, cercando um fusca vermelho e despejando tiros. Depois jogaram uma bomba dentro do carro. No final, havia uma mulher morta com quatro tiros no rosto e peito e três homens carbonizados”.

Essa mulher era Ranúsia Alves Rodrigues, pernambucana de Garanhuns e estudante de Enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco. Já tinha sido presa uma vez, em Ibiúna (SP), em 1968, quando participava do 30º Congresso da UNE, sendo expulsa da universidade pelo Decreto 477 no ano seguinte. Vivendo na clandestinidade como militante do PCBR teve uma filha, Vanúsia. Atuava no Rio de Janeiro desde outubro de 1972. Documentos dos órgãos de segurança do regime militar sustentavam que ela teria participado, como cobertura médica, da execução do delegado Octávio Gonçalves Moreira Jr., do DOI-CODI/SP, em Copacabana, no dia 25/02/1973. Sua foto e seu nome tinham sido divulgados, erroneamente, como uma das pessoas mortas na chamada Chacina de Quintino, em 29/03/1972, no lugar de Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo.

Seu corpo deu entrada no IML como desconhecida e foi necropsiado por Hélder Machado Paupério e Roberto Blanco dos Santos, que confirmaram a versão oficial. A partir de 1991, com os documentos encontrados nos arquivos do DOPS foi comprovada a morte de dois desaparecidos. Documento de informação do Ministério da Aeronáutica de 22/11/1973, encontrado no arquivo do antigo DOPS/SP, afirma: “dia 27/10/1973, em tiroteio com elementos dos órgãos de segurança da Guanabara, foram mortos os seguintes militantes do PCBR: Ranúsia Alves Rodrigues, Ramires Maranhão do Valle, Almir Custódio de Lima e Vitorino Alves Moitinho”.

Apesar de os quatro militantes estarem perfeitamente identificados, os órgãos de segurança omitiram as mortes de Ramires e Vitorino e ainda enterraram todos sem identificação, como indigentes, no cemitério Ricardo de Albuquerque, Rio de Janeiro. Em 02/04/1979, seus restos mortais foram transferidos para o ossuário geral e, por volta de 1980 ou 1981, para uma vala clandestina com cerca de duas mil ossadas.

No arquivo do DOPS/RJ foi encontrado um documento do I Exército, de 29/10/1973, que narra o cerco aos quatro militantes desde o dia 08/10/1973, culminando com a prisão de Ranúsia na manhã do dia 27/10/1973. O documento inclui interrogatório e declarações de Ranúsia no DOI-CODI/RJ. O relatório fala da farta documentação encontrada com ela e menciona a morte dos quatro militantes, dando-lhes os nomes completos. A versão divulgada pelo DOPS é que os militantes do PCBR perceberam a presença de “elementos suspeitos” e tentaram fugir, acionando suas armas. Como o carro teria começado a pegar fogo, não foi possível retirar as pessoas que estavam dentro. Laudo e fotos da perícia no local mostram Ranúsia morta perto do carro, tendo ao fundo um volkswagen incendiado, onde estavam carbonizados Vitorino e Almir.

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1974

 

Filiação: Aracy Pereira Rita e Graciliano Miguel Rita

Data e local de nascimento: 24/06/1948, Braço do Norte (SC)

Organização política ou atividade: M3G

Data e local da morte: 12 ou 13/12/1974, Rio de Janeiro (RJ)

 

João Batista Rita e Joaquim Pires Cerveira foram vítimas da “Operação Mercúrio”, que de certa forma antecipou a Operação Condor de 1975 e tinha por objetivo eliminar todos os banidos e ex-militares que tentassem voltar ao Brasil. Ambos tinham sido alvo de banimento, valendo o seu desaparecimento como mais uma confirmação de que os órgãos de segurança do regime militar teriam decretado a pena de morte para todos, dentre eles, que ousassem retornar cladestinamente ao Brasil. Foram sequestrados na Argentina em dezembro de 1973 e trazidos para o DOI-CODI do Rio de Janeiro, desaparecendo a partir de 12 ou 13/01/1974. Durante todo o ano de 1974 será mantida essa tônica: os órgãos de segurança não anunciam a morte de nenhum opositor; todos se tornam desaparecidos.

João Batista foi banido quando do sequestro do embaixador suíço, em janeiro de 1971. Seu nome faz parte da lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95. Em alguns documentos, o nome de João Batista aparece acrescido de um último sobrenome, Pereda, não confirmado por documentos de identidade.

Ele foi preso em Buenos Aires, a depender da fonte em 05 ou 11/12/1973, por policiais brasileiros, entre os quais estaria o delegado Sérgio Paranhos Fleury. Foi visto por alguns presos políticos no DOI-CODI/RJ, quando chegou trazido por uma ambulância. Segundo a descrição das testemunhas, João Batista e Joaquim Pires Cerveira estavam amarrados juntos, em posição fetal, tendo os rostos inchados e com a cabeça repleta de sangue.

Catarinense de Braço do Norte, João Batista mudou ainda criança para Criciúma (SC), onde estudou no Ginásio Madre Tereza Michel, até completar o curso ginasial. Foi então viver em Porto Alegre, onde começou sua militância política. Trabalhava em um escritório de advogados e participava das mobilizações estudantis de 1968. Por sua estatura miúda, seu sobrenome lhe rendeu entre os amigos o apelido de “Ritinha”. Morava em Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre com a irmã Aidê. Integrado ao M3G, foi preso em 10 de abril de 1970, poucos dias depois da tentativa frustrada de sequestro do cônsul americano no Rio Grande do Sul pela VPR, sendo muito torturado. Era considerado o número 2 de um pequeno grupo liderado por Edmur Péricles Camargo, que se afastou de Marighella e fundou a organização denominada M3G (Marighella, Marx, Mao e Guevara). De acordo com documentos dos órgãos de segurança, João Batista participou de pelo menos três ações armadas realizadas por esse grupo em Porto Alegre, Viamão e Cachoeirinha, no Rio Grande do Sul. Depois de viver algum tempo no Chile, transferiu-se para a Argentina, onde se casou com uma exilada chilena, Amalia Barrera, que chegou a escrever uma carta para Aidê, irmão de João Batista, em março de 2004.

A nota emitida em 06/02/1975 pelo ministro da Justiça Armando Falcão, a respeito dos desaparecidos políticos, mencionou apenas que João Batista havia sido banido do país. Constam do processo na CENDP recortes de jornais relatando que esse exilado “preparava os documentos para sua ida à Itália, quando os órgãos de repressão do Brasil, articulados pelo capitão do Exército, Diniz Reis, o sequestraram. A ação foi desenvolvida por um grupo de indivíduos falando português que o colocaram à força dentro de um automóvel, na presença de numerosas pessoas”. Foi levado para o Rio de Janeiro e desapareceu no Quartel da Polícia do exército. Foi visto pela última vez, por outros presos políticos, na noite de 13/01/1974.

Leopoldo Paulino, ex-exilado político, músico e atualmente vereador pelo PSB em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, escreveu a respeito desses dois desaparecidos, João Batista Rita e Joaquim Pires Cerveira, em um texto de 2004: “No dia 11 de dezembro de 73, foi sequestrado em Buenos Aires o companheiro João Batista Rita, chamado de ‘Catarina’ por todos nós, exilado que morava conosco no Aparelhão. Com João Batista, foi sequestrado também o major Cerveira exilado político brasileiro, cuja operação foi realizada em Buenos Aires pela polícia brasileira, com o aval dos órgãos de segurança do governo argentino. Os dois companheiros foram vistos, pela última vez, por alguns presos políticos no DOI-CODI do Rio de Janeiro, já arrebentados pela tortura, nunca mais se conhecendo seu paradeiro”.

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1975

 

Filiação: Francisca Gomes Netto e Pedro Netto

Data e local de nascimento: 05/06/1923, Curvelo (MG)

Organização política ou atividade: denúncia da morte do filho como resultado de torturas

Data e local da morte: 14/04/1976, Rio de Janeiro (RJ)

 

Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”. O trecho da carta escrita em 23/04/1975 pela estilista Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, entregue ao compositor Chico Buarque e outros amigos, representou uma verdadeira premonição a respeito de sua morte um ano depois.

Zuzu Angel morreu em 14/04/1976, em um acidente automobilístico à saída do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro. A suspeita de que esse acidente tivesse sido provocado envolveu imediatamente todas as pessoas bem informadas sobre o que era o aparelho de repressão política do regime militar.

Profissional de sucesso — vestia atrizes como Liza Minnelli e Joan Crawford —, Zuzu conseguiu transformar o desaparecimento de seu filho Stuart em um acontecimento que provocou forte desgaste internacional para o regime militar brasileiro. Com isso, despertou a ira dos porões da ditadura, que passaram a vê-la como ameaça. Buscando incansavelmente o paradeiro do filho, esteve nos Estados Unidos com o senador Edward Kennedy; furou o cerco da segurança norte-americana e conversou com Henry Kissinger, em visita ao Brasil; prestou detalhado depoimento ao historiador Hélio Silva; escreveu ao presidente Ernesto Geisel, ao ministro do Exército Sylvio Frota, ao cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e à Anistia Internacional. Em um de seus desfiles, estampou os figurinos com tanques de guerra e anjos tristes. Quando começou a receber ameaças de morte, alertou os amigos.

Zuzu estava absolutamente sóbria na noite do acidente e uma semana antes tinha feito revisão completa em seu carro que, sem aparente motivo, desviou-se da estrada, capotando diversas vezes em um barranco. A análise das fotos e dos laudos periciais, as inúmeras contradições e omissões encontradas no inquérito e depoimentos de testemunhas oculares compuseram uma base robusta para reconhecimento da responsabilidade do regime militar por mais essa morte de opositor político.

A família de Zuzu decidiu exumar o corpo o que foi realizado por Luis Fonderbrider, da Equipe Argentina de Antropologia Forense. Foram também apresentadas novas testemunhas, entre elas o advogado Carlos Machado Medeiros — filho de um ex-ministro da Justiça de Castello Branco — que trafegava pela estrada Lagoa-Barra da Tijuca e forneceu uma declaração escrita afirmando que: “(…) dois veículos abalroaram o Karmann Ghia azul de uma pessoa que, logo depois, na manhã seguinte, constatei ser Zuzu Angel”. Essa declaração foi confirmada por três amigos, a quem ele contou à época.

Zuzu contou para o psiquiatra Germana Lamare, que estava sendo ameaçada de morte.

Marcos Pires, estudante residente na Barra da Tijuca disse que escutou o ruído do acidente e, ao chegar ao local, já encontrou uma dúzia de carros oficiais, a maioria da polícia, ao redor do automóvel destruído de Zuzu. As informações foram relatadas em uma carta enviada para Hildegard, filha de Zuzu e colunista do jornal O Globo. A versão de Marcos Pires contrariava frontalmente o laudo oficial do acidente e praticamente todas as dúvidas.

Nilmário Miranda, em 12/02/1996, admitiu ter presenciado o acidente: “Eu só vi um carro saindo (do túnel) e logo em seguida um outro carro que emparelha com esse carro (…) Eu vi quando o carro que ultrapassa o carro da direita (…) abalroa este carro (…) e faz com que ele caia a uma distância que estimei na hora em cinco metros (…)”.

Valdir Florenzo e Ventura Raphael Martello Filho, especialistas em perícias de trânsito em São Paulo, analisaram os documentos policiais. Em relatório minucioso eles argumentaram: “Ao reexaminar o laudo original, duas circunstâncias chamaram minha atenção. Em primeiro lugar, o documento é instituído com 16 fotografias mas, aparentemente, nenhuma delas se destinava a mostrar, especificamente, as marcas da derrapagem (28 metros) na pista e as marcas da atritagem nos pneus dianteiros. Em algum lugar, na perspectiva de um observador leigo, surgiram as seguintes indagações: “o meio-fio seria um obstáculo capaz de provocar uma mudança de trajetória tão drástica como a que foi descrita? Levando-se em consideração que, segundo os próprios peritos, o meio-fio é de altura normal e que, segundo as fotos que instruem o laudo da época estava visivelmente coberto por vegetação rasteira, o veículo, naquela trajetória, não iria simplesmente transpor o obstáculo? (…)”.

Os peritos também descartaram a possibilidade de Zuzu ter dormido ao volante: “a dinâmica pretendida pelo laudo correspondente ao exame do local é absolutamente inverossímil. Primeiro porque um veículo jamais mudaria de direção abruptamente única e tão somente por conta do impacto de qualquer de suas rodagens contra o meio-fio, qual seria galgado facilmente, projetando-se o veículo pelo talude antes de chegar ao guarda-corpo do viaduto. Segundo porque, sendo o meio-fio direito da autoestrada perfeita e justamente alinhado com o guarda-corpo do viaduto, mesmo que o veículo se desviasse à esquerda, tal como o sugerido pelo laudo, desviar-se-ia do guarda-corpo, podendo, se muito, chocar o extremo direito da dianteira. Terceiro porque, mesmo que se admitisse a trajetória retilínea final, nos nove metros consignados pelo laudo, tendo-se em conta que o veículo chocou a dianteira esquerda e que não havia mais nada à direita, a não ser a rampa inclinada da superfície do talude, teríamos que aceitar que as rodas do lado direito ficariam no ar e o veículo perfeitamente em nível até que batesse no guarda-corpo, o que, evidentemente, seria impossível”.

Em 1987, Viginia Valli, publicou o livro Eu, Zuzu Angel, procuro meu filho – a verdadeira história de um assassinato político. Em 2006, o diretor Sérgio Rezende levou às telas a cinebiografia da estilista Zuzu Angel.

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1976

 

Filiação: Francisca Gomes Netto e Pedro Netto

Data e local de nascimento: 05/06/1923, Curvelo (MG)

Organização política ou atividade: denúncia da morte do filho como resultado de torturas

Data e local da morte: 14/04/1976, Rio de Janeiro (RJ)

 

Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”. O trecho da carta escrita em 23/04/1975 pela estilista Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, entregue ao compositor Chico Buarque e outros amigos, representou uma verdadeira premonição a respeito de sua morte um ano depois.

Zuzu Angel morreu em 14/04/1976, em um acidente automobilístico à saída do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro. A suspeita de que esse acidente tivesse sido provocado envolveu imediatamente todas as pessoas bem informadas sobre o que era o aparelho de repressão política do regime militar.

Profissional de sucesso — vestia atrizes como Liza Minnelli e Joan Crawford —, Zuzu conseguiu transformar o desaparecimento de seu filho Stuart em um acontecimento que provocou forte desgaste internacional para o regime militar brasileiro. Com isso, despertou a ira dos porões da ditadura, que passaram a vê-la como ameaça. Buscando incansavelmente o paradeiro do filho, esteve nos Estados Unidos com o senador Edward Kennedy; furou o cerco da segurança norte-americana e conversou com Henry Kissinger, em visita ao Brasil; prestou detalhado depoimento ao historiador Hélio Silva; escreveu ao presidente Ernesto Geisel, ao ministro do Exército Sylvio Frota, ao cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e à Anistia Internacional. Em um de seus desfiles, estampou os figurinos com tanques de guerra e anjos tristes. Quando começou a receber ameaças de morte, alertou os amigos.

Zuzu estava absolutamente sóbria na noite do acidente e uma semana antes tinha feito revisão completa em seu carro que, sem aparente motivo, desviou-se da estrada, capotando diversas vezes em um barranco. A análise das fotos e dos laudos periciais, as inúmeras contradições e omissões encontradas no inquérito e depoimentos de testemunhas oculares compuseram uma base robusta para reconhecimento da responsabilidade do regime militar por mais essa morte de opositor político.

A família de Zuzu decidiu exumar o corpo o que foi realizado por Luis Fonderbrider, da Equipe Argentina de Antropologia Forense. Foram também apresentadas novas testemunhas, entre elas o advogado Carlos Machado Medeiros — filho de um ex-ministro da Justiça de Castello Branco — que trafegava pela estrada Lagoa-Barra da Tijuca e forneceu uma declaração escrita afirmando que: “(…) dois veículos abalroaram o Karmann Ghia azul de uma pessoa que, logo depois, na manhã seguinte, constatei ser Zuzu Angel”. Essa declaração foi confirmada por três amigos, a quem ele contou à época.

Zuzu contou para o psiquiatra Germana Lamare, que estava sendo ameaçada de morte.

Marcos Pires, estudante residente na Barra da Tijuca disse que escutou o ruído do acidente e, ao chegar ao local, já encontrou uma dúzia de carros oficiais, a maioria da polícia, ao redor do automóvel destruído de Zuzu. As informações foram relatadas em uma carta enviada para Hildegard, filha de Zuzu e colunista do jornal O Globo. A versão de Marcos Pires contrariava frontalmente o laudo oficial do acidente e praticamente todas as dúvidas.

Nilmário Miranda, em 12/02/1996, admitiu ter presenciado o acidente: “Eu só vi um carro saindo (do túnel) e logo em seguida um outro carro que emparelha com esse carro (…) Eu vi quando o carro que ultrapassa o carro da direita (…) abalroa este carro (…) e faz com que ele caia a uma distância que estimei na hora em cinco metros (…)”.

Valdir Florenzo e Ventura Raphael Martello Filho, especialistas em perícias de trânsito em São Paulo, analisaram os documentos policiais. Em relatório minucioso eles argumentaram: “Ao reexaminar o laudo original, duas circunstâncias chamaram minha atenção. Em primeiro lugar, o documento é instituído com 16 fotografias mas, aparentemente, nenhuma delas se destinava a mostrar, especificamente, as marcas da derrapagem (28 metros) na pista e as marcas da atritagem nos pneus dianteiros. Em algum lugar, na perspectiva de um observador leigo, surgiram as seguintes indagações: “o meio-fio seria um obstáculo capaz de provocar uma mudança de trajetória tão drástica como a que foi descrita? Levando-se em consideração que, segundo os próprios peritos, o meio-fio é de altura normal e que, segundo as fotos que instruem o laudo da época estava visivelmente coberto por vegetação rasteira, o veículo, naquela trajetória, não iria simplesmente transpor o obstáculo? (…)”.

Os peritos também descartaram a possibilidade de Zuzu ter dormido ao volante: “a dinâmica pretendida pelo laudo correspondente ao exame do local é absolutamente inverossímil. Primeiro porque um veículo jamais mudaria de direção abruptamente única e tão somente por conta do impacto de qualquer de suas rodagens contra o meio-fio, qual seria galgado facilmente, projetando-se o veículo pelo talude antes de chegar ao guarda-corpo do viaduto. Segundo porque, sendo o meio-fio direito da autoestrada perfeita e justamente alinhado com o guarda-corpo do viaduto, mesmo que o veículo se desviasse à esquerda, tal como o sugerido pelo laudo, desviar-se-ia do guarda-corpo, podendo, se muito, chocar o extremo direito da dianteira. Terceiro porque, mesmo que se admitisse a trajetória retilínea final, nos nove metros consignados pelo laudo, tendo-se em conta que o veículo chocou a dianteira esquerda e que não havia mais nada à direita, a não ser a rampa inclinada da superfície do talude, teríamos que aceitar que as rodas do lado direito ficariam no ar e o veículo perfeitamente em nível até que batesse no guarda-corpo, o que, evidentemente, seria impossível”.

Em 1987, Viginia Valli, publicou o livro Eu, Zuzu Angel, procuro meu filho – a verdadeira história de um assassinato político. Em 2006, o diretor Sérgio Rezende levou às telas a cinebiografia da estilista Zuzu Angel.

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1977

 

Filiação: Maria Aguida de Mesquita e Lourenço Camelo de Mesquita

Data e local de nascimento: 18/08/1926, Ceará

Organização política ou atividade: PCB

Data e local da morte: 30/07/1977, Rio de Janeiro (RJ)

 

Este caso refere-se a mais um episódio de suicídio por enforcamento, o último de uma longa série de versões farsantes que os órgãos de segurança do regime militar divulgaram tentando encobrir as reais condições da morte de presos políticos. O jornalista Elio Gaspari cuidou de contar e informa que o pretenso suicídio de Lourenço foi o 41º suicídio alegado, o 20º enforcamento, o 11º sem vão livre.

Lourenço viveu 15 anos com Dalva Soares Pereira, com quem teve dois filhos. Na versão militar, ele foi encontrado morto às 8h20m do dia 30/07/1977, na cela nº 1 do pavilhão do presídio da 1ª Companhia de Polícia do Exército, no Rio de Janeiro.

Já na certidão de óbito está escrito que Lourenço morreu às 12h, tendo como causa mortis asfixia mecânica por enforcamento. O exame necroscópico foi firmado por Roberto Blanco dos Santos e Amadeu da Silva Lopes. A versão oficial é de que teria se enforcado, “sendo encontrado com um laço no pescoço, formado por uma cueca preta de nylon — tipo zorba, com a outra extremidade presa ao registro da descarga do vaso sanitário, no qual o extingo se achava sentado.”

Seu nome nunca tinha surgido antes de qualquer lista de mortos e desaparecidos políticos. Não constava também do Dossiê dos mortos e Desaparecidos.

Alguns companheiros de Lourenço deram depoimentos. Berenício Ferreira Pessoa declara: “que era militante do PCB desde 1958; que morou em Caxias por mais de 30 anos; que esteve preso após o golpe militar por cerca de 90 dias, de onde saiu quase morto, acometido por uma crupe (…); que foi dirigente do PCB e militava no Comitê do Partido na estação Ferroviária Leopoldina. Conheceu Lourenço Camelo de Mesquita por volta de 1960, já como militante do PCB. Lourenço militava no Comitê Municipal de Duque de Caxias e ele, Berenício, no Comitê da Leopoldina. Que em 1962 houve um quebra-quebra em Caxias e que os dois Comitês se reuniram conjuntamente para analisar e tomar posição sobre os incidentes. Que a partir de então, 1962, tornou-se amigo do ‘China’; que ‘China’ era taxista, que militava entre motoristas de coletivos e entre taxistas. Que ‘China’ era muito conhecido pela sua militância; que em 1977 já estava morando em Duque de Caxias e trabalhava como representante de persianas. Neste ano houve greves de condutores rodoviários em Duque de Caxias e que o ‘China’ assinou e lançou manifestos na cidade. Certo dia chegou em casa e sua mulher lhe disse: ‘Cuidado! O China foi sequestrado hoje pela polícia. O próximo é você!’ Depois quando veio a notícia de sua morte, ninguém acreditou em suicídio. Todos diziam” ‘mataram o China’, exatamente porque era um veterano comunista, um ativista conhecido.”

A descrição das circunstâncias do ‘suicídio’ é grosseira e absolutamente inverossímil. Foram falsificadas as circunstâncias de sua morte e que esta se deu sob inteira responsabilidade do Estado.

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1979

 

Filiação: Olívia Freire da Cruz e Manoel Freire da Rocha

Data e local de nascimento: 15/02/1924, Bananeiras (PB)

Organização política ou atividade: Ligas Camponesas

Data e local da morte: 13/05/1979, Rio de Janeiro (RJ)

 

Adauto tinha uma companheira, Delzuita da Costa Silva, com quem tinha dois filhos.

O ano de 1979 foi marcado pela retomada dos movimentos populares que se organizavam em busca da Anistia e de participação democrática. No dia 13 de maio, Adauto e sua companheira encontravam-se num ônibus seguindo do Rio para Teresópolis. Eles levavam material de propaganda em defesa da Anistia. Um grupo de policiais parou o ônibus para uma blitz e Adauto tentou esconder um pacote de panfletos. Mas os policiais apreenderam o material e pediram seus documentos de identidade. Ele dizia que os havia esquecido em casa. Começou então a ser espancado dentro do ônibus. Sua companheira gritava para que os policiais não batessem nele, pois seus documentos estavam em sua bolsa. Um dos policiais começou a ler o panfleto da Anistia e acusou Adauto de “comunista”. Quando os policiais interromperam as agressões, Adauto havia sofrido um infarto e quebrado a perna. Foi levado para o hospital, mas lá chegando foi constatado o óbito.

Adauto era militante político desde os anos de 1950. Integrou as Ligas Camponesas, tendo viajado para Cuba em 1961, sendo que documentos da chamada comunidade de informações o arrolavam como integrante do primeiro grupo de brasileiros a receberem treinamento militar naquele país. Segundo informações da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco, Adauto era um lugar-tenente de Francisco Julião. Há anotações de que, na noite de 31/03/1964, ele teria comparecido ao Palácio do Governo daquele Estado para distribuir armas aos camponeses das Ligas. Foi formalmente inquirido em 29/05/1964 e, em 1973, um documento confidencial do Ministério do Exército solicitava informações a seu respeito.

Não há dúvida de que era um militante político, perseguido pelos órgãos da repressão. Vivia na clandestinidade e usava o nome falso de Celestino Alves da Silva, que figurou na certidão de nascimento de seus filhos e no seu atestado de óbito.

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1980

 

Filiação: Ludovina Monteiro da Silva e Luiz Monteiro da Silva

Data e local de nascimento: 05/12/1920, Niterói (RJ)

Organização política ou atividade: Ordem dos Advogados do Brasil

Data e local da morte: 27/08/1980, Rio de Janeiro (RJ)

 

Às 13h40m do dia 27/08/1980, no Rio de Janeiro, Lyda Monteiro da Silva morreu ao abrir uma carta-bomba. Ela era diretora da Secretaria do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil e ocupava a função de secretária da Comissão de Direitos Humanos da entidade. A carta era endereçada ao presidente do Conselho federal da OAB, Eduardo Seabra Fagundes. Lyda faleceu no mesmo dia, não resistindo aos ferimentos causados pelo atentado. Foi enterrada no cemitério São João Batista, comparecendo ao local uma multidão de 4.000 pessoas, consternadas com a brutalidade do atentado.

 

Na época, ficou absolutamente nítido o desinteresse do governo militar na apuração dos fatos, o que fez crescer a certeza da motivação política do atentado criminoso. A interpretação mais plausível do caso foi que teria sido praticado por um grupo de militares insatisfeitos com a abertura política e com a Lei de Anistia aprovada no ano anterior, bem como pretendendo ameaçar o posicionamento combativo da OAB contra o regime militar.

Num manobra típica de despiste, a Polícia Federal fez vazar informações à imprensa de que o principal suspeito era um cidadão de nome Ronald James Watters que já estivera envolvido na tentativa de atentado a bomba contra uma exposição soviética realizada no Brasil em 1962, quase vinte anos antes. Nessas notícias, se informava que um telefonema anônimo havia denunciado Watters como autor, o que não restou provado, sendo ele absolvido num processo judicial formado sem bases consistentes.

No mesmo dia do atentado à OAB, mais duas cartas-bombas foram entregues no Rio de Janeiro: uma no gabinete do vereador Antônio Carlos de Carvalho, do PMDB e outra na sede da Tribuna da Imprensa. Os inquéritos, à época, nada apuraram, além de que as cartas tinham sido enviadas pelo Correio.

O filho de Lyda, Luiz Fellipe Monteiro Dias, afirmou que a morte da mãe ocorreu por motivações eminentemente políticas. Aconteceu no exato momento em que a seccional da OAB em São Paulo e o presidente nacional da entidade, Eduardo Seabra Fagundes, insistiam na identificação de agentes e ex-agentes dos serviços de segurança suspeitos do atentado sofrido pelo jurista Dalmo Dallari — sequestrado e agredido em 02/07/1980, em São Paulo, durante a visita do papa João Paulo II.

Em maio de 1994, o programa Fantástico, da Rede Globo, divulgou entrevista com o mencionado Ronald Watters, que se declarou inocente quanto ao episódio, levando a OAB a pedir a reabertura do inquérito sobre autoria do atentado. Em entrevista ao Jornal do Brasil, em 23/05/1999, esse mesmo Watters declarou que houve, na época, uma estratégia para que não recaísse nenhuma suspeita sobre a participação de militares naquele ato terrorista. O governo teria acionado a Polícia Federal na montagem de uma operação usando Watters como bode expiatório, em troca de dinheiro e de uma fuga tranquila para o exterior.

A carta que vitimou Lyda não veio pelo correio, sendo entregue em mãos. Em setembro de 1980, o perito Antônio Carlos Vilanova, contratado para saber de que tipo era a bomba que explodiu na OAB, entregou um laudo que atestava que foram encontrados dois explosivos: um de dinamite gelatinoso e outro de nitropenta. Concluiu que a bomba não foi produzida industrialmente, mas por alguém com bom conhecimento de eletricidade.

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1982

 

Filiação: Helena Martins de Camargo Lourenço Gomes e Alcides Lourenço Gomes

Data e local de Nascimento: Campinas (SP), em 13/05/1947

Organização política ou atividade: MR-8

Data e local da morte: 01/08/1982

 

Militante do MR-8, esteve presa entre 1971 e 1973 e cometeu suicídio, no  Rio de Janeiro, em 01/08/1982. Embora a data de sua morte seja muito posterior ao episódio da prisão e dos maus tratos sofridos nos órgãos de segurança do regime militar, foi nitidamente comprovado que o suicídio decorreu dos traumas irreversíveis sofridos em 1971. Atirou-se da janela de seu apartamento, no terceiro andar da Rua Barão da Torre, no Rio, vindo a falecer no Hospital Miguel Couto.

Paulista de Campinas, Solange Lourenço Gomes vivia no Rio de Janeiro e fez curso clássico no Colégio Andrews e começou a estudar Psicologia na UFRJ em 1966. Participou de grupos de estudos sobre marxismo naquela faculdade e manteve por algum tempo ligações com o PCBR. Em 1968, vinculou-se à Dissidência da Guanabara, que posteriormente adotaria o nome MR-8, tendo de passar à clandestinidade por volta de setembro ou outubro de 1969. Morava com Daniel Aarão Reis Filho, dirigente daquela organização, e após o sequestro do embaixador norte-americano, foi identificada pelos órgãos de segurança como a fiadora do imóvel em que o casal residia. Documentos policiais informam que Solange participou de várias ações armadas entre 1969 e 1970. No final de 1970 foi deslocada para a Bahia.

Nos primeiros dias de março de 1971, depois de participar de uma panfletagem no jogo de reinauguração do estádio da Fonte Nova, em Salvador, quando ocorreu uma perigosa correria entre a multidão, Solange parece ter sofrido um grave surto psicótico e teria se apresentado a uma dependência policial afirmando ser subversiva e fornecendo informações sobre o MR-8. Há documentos policiais comprovando que ela foi interrogada pelo DOI-CODI do Rio e também Salvador. Em julho, a grane imprensa divulgou amplas matérias preparadas pelo aparelho de repressão do regime, apresentando-a como arrependida. Adotando a postura de cumplicidade com o regime militar que pautou boa parte da imprensa naquele período, um grande diário carioca de circulação nacional, em 28/07/1971, estampou com estardalhaço a manchete: Sexo é arma para atrair jovens à subversão. Um ano depois, em 06/07/1972 foi julgada pela Justiça Militar, na 2ª Auditoria do Exército, no Rio, que determinou sua internação no manicômio judiciário pelo prazo mínimo de dois anos. Depois de solta, em 1973, cursou Medicina e se casou, em 1980, com Celso Pohmann Livi.

A declaração do psiquiatra, Dr. Alberto Quielli Ambrósio, CRM 52 1830-3, dizia: “Durante estes anos pude testemunhar seu enorme esforço para recuperar-se do grave quadro psiquiátrico, psicótico, consequência de sua prisão em 1971. As torturas físicas e mentais a que foi submetida enquanto presa fizeram-na revelar nomes de companheiros de movimentos políticos, bem como esse ‘depoimento’ no qual se dizia arrependida e renegava sua militância, foi amplamente divulgado em jornais, denegrindo sua moral enquanto mulher. Estes fatos fizeram-na sentir-se sempre culpada pela desgraça e morte das pessoas. Ajudada por nossos esforços, de sua família e marido, Solange obteve muitas e significativas melhoras, mas não conseguiu conviver com tantas marcas – insuperáveis – e continuar viva”.

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1985

 

Filiação: Yedda de Paula Buarque e Sylvio Brandon Schiller

Data e local de nascimento: 19/11/1950, no Rio de Janeiro

Organização política ou atividade: VAR-Palmares

Data e local da morte: 22/09/1985, no Rio de Janeiro

 

Gustavo Buarque Schiller nasceu no Rio de Janeiro e iniciou sua participação como estudante secundarista. Integrou um pequeno agrupamento chamado Núcleo Marxista Leninista e depois se incorporou ao Colina, que em 1969 se transformaria em VAR-Palmares. De uma família rica, era sobrinho de Ana Capriglione, conhecida amante do corrupto governador paulista Adhemar de Barros, que a chamava em código de “Doutor Rui”.

Gustavo forneceu a Juarez Guimarães de Brito, dirigente da VAR, a informação de que na residência de um irmão de Ana Capriglione existia um cofre guardando dinheiro originário da corrupção comandada por Adhemar, morto poucos meses antes. Em 18/07/1969, a organização ocupou a referida residência, levando embora o referido cofre, em cujo interior estavam depositados 2,6 milhões de dólares.

Depois dessa operação, Gustavo foi deslocado para Porto Alegre, onde integrou o comando regional da organização. Documentos policiais o apontam como participante do assalto a uma agência do Banco do Brasil em Viamão, em conjunto com as organizações M3G e VPR, e também dos preparativos do sequestro do cônsul norte-americano em Porto Alegre. Foi preso em 30/03/1970, sendo torturado, tanto no DOPS gaúcho quanto no Rio de Janeiro, numa intensidade que resultou em danos psicológicos irreversíveis.

No livro Verás que um filho teu não foge à luta, o ex-preso político gaúcho João Carlos Bona Garcia, que hoje é juiz auditor na Justiça Militar estadual do Rio Grande do Sul, faz referência a Gustavo na prisão: “Passei assim o primeiro dia. No segundo, tiraram o capuz e vi na minha frente o Bicho, um meninão de 19 anos chamado Gustavo Buarque Schiller, que era da VAR. Estava todo inchado, de nariz quebrado, os lábios rachados. Tinha levado socos, pauladas, o que eles imaginavam”.

Outro ex-preso político, Luiz Andrea Favero, escreveu depoimento relatando ter visto Gustavo no DOPS de Porto Alegre: “Na sala estavam três policiais que depois eu soube serem do DOPS de Porto Alegre e do CENIMAR do Rio de Janeiro e estava também Gustavo Buarque Schiller, que apresentava hematomas e marcas de queimaduras por todo o corpo e se mantinha em pé com certa dificuldade. Neste momento foi ele que passou a receber choques elétricos para confirmar que me conhecia e que havíamos praticado ações subversivas. Esta sessão de torturas e interrogatórios durou mais ou menos 30 minutos”. E resume também um diálogo mantido com ele alguns dias depois: “Gustavo nos relatou que havia sido muito torturado, assim como outros companheiros nossos e nos mostrou marcas de queimaduras pelo corpo que haviam sido feitas com pontas de cigarros acessos. Mostrou-nos também que seu nariz havia sido fraturado e ainda estava muito inchado. Além das marcas de queimaduras pudemos ver hematomas e outros sinais de pancadas nos braços e nas costas”.

Dez meses depois, Schiller foi um dos 70 militantes banidos e enviados ao Chile em troca da liberdade do embaixador suíço, sequestrado no Rio de Janeiro, em 07/12/1970. Passou a sofrer de crises depressivas, causadas pela intensidade das torturas sofridas.

Quando morreu, Gustavo era casado com Lúcia Souza da Rocha, que conheceu em Paris, três anos antes. Tinham uma filha, Joana, que na época de sua morte tinha 1 ano e oito meses. Lúcia relata que Gustavo continuava se ‘auto-exilando’ durante a permanência em Paris, embora tivesse conseguido a nacionalidade francesa. Na Sorbonne, cursou Filosofia, Sociologia e Economia. Com a Anistia de 1979, tinha voltado ao Brasil, indo morar na Ilha de Marajó, em Salvaterra, em uma praia. Ali nasceu Joana, mas suas crises depressivas se intensificaram, tendo tentado o suicídio inúmeras vezes.

Em 1985, foi para o Rio de Janeiro e começou a trabalhar no estaleiro Mauá, como pesquisador, onde ficou até 21 de setembro. Na madrugada do dia 22 de setembro, cometeu suicídio, jogando-se da janela do apartamento em que morava na avenida Nossa Senhora de Copacabana.

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