Sônia conheceu todos os lados da vida: a doçura de Cléa, sua mãe, que a protegeu, desde que veio ao mundo, nas suas mãos de fada e no suave carinho do seu olhar, o caráter destemido de João, seu pai, que logo lhe apontou o áspero caminho da honradez e justiça.
Teve a alegria de contar com Ângela, sua irmã, com quem repartiu a magia sem fim dos dias de infância. Sônia cresceu sem medo, podendo percorrer, sem travas, todos os campos do saber e ver de frente todas as caras do mundo. Cléa e João não tolhiam seu espírito indagador e aguçado. Meteu-se a escrever, a aprender outras línguas, a saber do mundo, a buscar respostas para as mil perguntas que brotavam como sementes bravas no seu coração.
A educação formal não lhe bastava, era preciso peneirar as ladainhas da escola e seguir adiante, perscrutar as névoas, para entender o mundo e as gentes. Conheceu o amor ao topar com o moço bonito, de olhos claros, que irradiava rara força interior Stuart Edgar Angel Jones. Com ele casou e com ele lançou as bases de sua ação política; encontraram no marxismo explicações para a dinâmica das classes e para a exploração econômica. Na história do socialismo observaram os processos e as possibilidades da revolução social. E como recusassem o saber de gabinete e o brilho das lantejoulas dos intelectuais, passaram a combater o regime militar.
Presa aos 23 anos, por ocasião das manifestações de rua na Praça Tiradentes, foi levada para o DOPS e, posteriormente, para o Presídio Feminino São Judas Tadeu. Ao ser libertada, passou a viver na clandestinidade, pois estava condenada à morte se recapturada.
Um ano depois, exilou-se na França, onde se sustentou lecionando Português. Com a prisão e desaparecimento de Stuart, Sônia volta ao Brasil para retomar a luta de resistência. Ingressou na Ação Libertadora Nacional e refugiou-se no Chile, onde trabalhou como fotógrafa.
Em maio de 1973 retorna secretamente ao Brasil indo morar em São Paulo com Antônio Carlos Bicalho Lana. O casal foi preso 6 meses depois, tendo o II Exército divulgado notícia de que morrera em combate.
Sônia foi assassinada aos 27 anos, sob bárbaras torturas, juntamente com Antônio Carlos Bicalho Lana.
Durante quase 20 anos, a família investigou os fatos relacionados à prisão, tortura e morte de Sônia e Antônio Carlos. Apesar de haverem identificado Sônia, os seus assassinos a enterraram como indigente, pois queriam ocultar sua covardia. João e Cléa Moraes tiveram de fazer seis exumações, pois eram enganados ao receber, de São Paulo, restos mortais que não eram da filha. Finalmente, em 1971, identificados pela UNICAMP, os restos mortais de Sônia foram trasladados para o Rio.
Menina de alegre infância, moça de inquieta ternura, combatente apaixonada, Sônia Maria, nós te amamos.