MARIA REGINA LOBO LEITE DE FIGUEIREDO – In memoriam
Militante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (Var- Palmares)
Aos quinze anos, em 1954, Maria Regina ingressou no Colégio de Aplicação da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro), quando começou sua carreira política no movimento secundarista da época. Filiada ao Movimento da Ação Católica. Foi ali o despertar de uma paixão que a acompanhou com a intensidade de sua breve vida.
Mais tarde, quando ingressou no curso de Pedagogia na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da antiga Universidade do Brasil, Regina, como integrante da JUC (Juventude Universitária Católica), reiniciou seu trabalho político nas disputas das eleições do Diretório Acadêmico.
Em 1960, as facções políticas do movimento estudantil faziam a Faculdade Nacional de Filosofia ferver, assim também todas as unidades da Universidade do Brasil (atual UFRJ) espalhadas pelo centro da cidade, manifestações que em 1964 seriam reprimidas com violência pelo golpe militar que instituiu a ditadura. Estava surgindo outro movimento político descolado da hierarquia da Igreja, portanto leigo, a Ação Popular (AP), embora ainda pautado em documento-base escrito por um jesuíta chamado padre Vaz.
Logo Regina já havia ingressado na Ação Popular que, anos mais tarde, após o golpe de 64, iria se desgarrar em definitivo de sua herança religiosa, tornando-se APML, Ação Popular Marxista Leninista.
Em meados de 61, Regina foi para o Maranhão, como professora de uma escola normal na cidade de Morros, onde permaneceu pouco tempo transferindo-se para o nascente MEB, Movimento de Educação de Base da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tendo a CNBB como uma das coordenadoras da regional com sede em São Luiz.
Todo o trabalho do MEB, pautado na Pedagogia da Libertação de Paulo Freire, foi desmantelado, principalmente na região do nordeste após o golpe militar (hoje já se sabe da efetiva participação civil de grandes empresários no golpe e na manutenção do regime militar da ditadura). Todo o grupo MEB do Maranhão fugiu sob a ameaça de prisão e Regina veio de volta ao Rio de Janeiro.
Até 1968, Regina militou nas ações da APML. No final do ano outro golpe: o Ato Institucional nº 5, o fatídico AI 5. Regina, então, participa de outra organização de esquerda: a VAR Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares), quando entra para a clandestinidade. Acalentava o sonho de muitos militantes que acreditavam com paixão em uma vanguarda revolucionária que seria capaz de derrubar a ditadura e instituir um regime socialista de igualdade social no Brasil.
Maria Regina foi morta aos 33 anos e deixou duas filhas pequenas de 5 e 4 anos, tendo sido casada com Raimundo Gonçalves Figueiredo, também assassinado pela ditadura em 28 de abril de 1971. Foi ferida quando a casa onde se encontrava no bairro de Quintino, no Rio de Janeiro, foi invadida por agentes do DOI/CODI-RJ no dia 29 de março de 1972. No local foram assassinados outros dois militantes (Ligia Maria Salgado Nóbrega e Antônio Marcos Pinto de Oliveira), tendo conseguido escapar com vida um quarto militante James Allen Luz.
Na versão oficial consta que o corpo de Regina teria chegado ao IML, pela guia nº 2 do DOPS, como desconhecido, vindo da casa invadida do bairro de Quintino, como tendo sido morta em tiroteio. No entanto, há testemunhas que dizem que Regina foi levada ainda com vida para o DOI/CODI e encaminhada para o Hospital Central do Exército.
Sua necropsia foi realizada no dia 30 de março de 1972 pelos legistas Eduardo Bruno e Valdecir Tagliari, cujo laudo confirma a versão oficial como morta em tiroteio e identificada como Maria Regina. Segundo testemunha de uma das 3 irmãs de Maria Regina que reconheceram o corpo no dia 7 de abril, Maria Eulália, veterinária por profissão, havia muitas marcas no corpo que, como veterinária, ela pode distinguir que foram feitas ainda com vida. Isto torna factível ela ter sido torturada antes de morrer.
A notícia da morte de Maria Regina foi publicada pelo Correio da Manhã, em 6 de abril de 1972 sob o título Terroristas morrem em tiroteio: Quintino e dá capciosamente, ao lado de sua foto, o nome de Ranúzia Alves Rodrigues, quando já havia sido identificada pelo IML como Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo.