Nascido em Nova Iorque, Maranhão, Raimundo Alves de Sousa, o Raimundão, completaria 81 anos no último 16 de maio. Do nome de sua cidade natal, herdou o pensamento cosmopolita. “Internacionalista”, corrige o maranhense.
Raimundo esteve internado no ambulatório do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Passou por mais uma cirurgia na coluna. “Muita porrada, o pau-de-arara na prisão”, explicava à época.
O octagenário foi parar lá por suas idéias. Ele é comunista. De carteirinha. Fez de tudo na imprensa do Partido Comunista Brasileiro, e continua como o timoneiro desta. Começou a trabalhar como gráfico, “linotipista”, e o sorriso aberto ao falar isto demonstra certo orgulho. “Você sabia que os gráficos foram os primeiros a organizar um sindicato no Brasil? Sabe por que? Eles sabiam ler”.
Pela sua máquina, uma Frankhental alemã, que funcionava de forma improvisada com um motor Ford Buick de oito cilindros em linha, “pesava umas 70 toneladas”, passaram os olhares de Pedro Mota Lima, Aydano do Couto Ferrz, Samuel Wainer, Moacyr Werneck de Castro, Raul Azedo Neto e Álvaro Moreira, entre outros.
Todos para conferir o trabalho de Raimundo, e – de certa forma o deles também. “Aprendi muito com essa gente”, diz Raimundão. Suas companhias não param por aí. De suas mãos muitos jornais foram entregues a Mario Lago, Nora Nei, Portinari e Jorge Amado. “Organizava esse pessoal para as brigadas, para distribuir a Tribuna Popular. Deixar na mão de intelectual não ia sair nada…”
Na época, afirmava Raimundo, o PCB estava recém legalizado, em campanha pela Constituinte. Elegeu 14 deputados federais, e a recém lançada Tribuna tirava 90 mil exemplares por dia. “Aos domingos, chegava a 150 mil”. O gráfico coça a cabeça e ressalta: “põe aí que na época a população carioca era duns 2 milhões, o jornal era lido por mais de 10% da população!”
A preocupação com os números se justifica. A todo momento, o linotipista quer exaltar a história da imprensa comunista. A queda do império vermelho tem sua importância reduzida, “caiu o muro, não o marxismo”, enquanto outras ditaduras do proletariado são exaltadas, “Cuba tá aí”.
Esteve em Cuba e na ex-União Soviética. Sua filha mais velha formou-se em Belas Artes na União Soviética. Já a cria mais nova da prole de cinco herdeiros, Mayra Terçarioli, foi feita em São Paulo, onde Raimundo cultivou amizades durante o período de exceção.
Aliás, é preciso dizer: este homem adora um rabo de saia! E os 81 anos? “Fui criado com leite de cabra, carne de paca, de tatu!” Então tá…
Mas o sorriso maroto, de quem se sabe juvenil, se desfaz. Em 13 de abril de 2005 faleceu sua última companheira, Maria Luiza de Rezende Mathias. Era 34 anos mais nova que ele.
“Em 1975, ela rodava a Voz Operária (jornal do PCB na época) na Gonzaga Bastos, ali na Tijuca, há três quadras do DOI-Codi da Barão de Mesquita”. Ainda não se conheciam. Ele estava preso. Os jornais do partido, como a Tribuna e a Voz, mudavam de nome junto com as mudanças políticas da organização. Sobre as publicações, digamos, permanentes, Raimundo lembrva daquelas veiculadas por categorias, como Orla Marítima, O Ferroviário, O Rolo, O Vidreiro, O Securitário, Movimento Feminino e Movimento da UJC (União da Juventude Comunista).
“Também tínhamos clientes particulares, como a Gazeta do Brasil e a Luta Democrática”. É, Tenório Cavalcanti já foi cliente de gráfica comunista. “Aliás – afirma -, uma vez eu e o Marighela compramos uma rotativa do jornal O Dia, negociamos um preço e o Chagas Freitas querendo aumentar. Quando fechamos a compra, ele fez questão de dizer que tinha dado uma contribuição para o PCB”.
Naqueles idos dos anos 1950, para trabalhar no linotipo Intertype C4, Raimundo contratou Helio Quintanilha, até aquele momento paginador do Ultima Hora. “Era o jornal mais bonito do Rio, foi uma boa contratação”.
É, ele se orgulhava de sua história na imprensa. Na imprensa comunista.