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Medalha Chico Mendes: Graciliano Ramos
 
Graciliano Ramos
 


O Velho Graça



Texto de Leandro Konder, publicado no Jornal do Brasil, em 15 de março de 2003



Na quinta-feira, estaremos completando 50 anos sem Graciliano Ramos. Lembro-me bem do enterro do escritor. Meu pai, Valério Konder, representante do Partido Comunista, carregou o caixão no cemitério.

Daquele 20 de março para cá, o mundo mudou muito, o Brasil se transformou enormemente. Novos hábitos e novas referências foram adquiridos, veio a televisão, vieram os computadores, a União Soviética acabou, o Muro de Berlim foi demolido.

Os livros do Velho Graça, porém, sobrevivem a todas as modificações ocorridas no universo dos seus leitores e continuam sensibilizando e comovendo um número considerável de apreciadores exigentes da boa literatura.

O cineasta Nelson Pereira dos Santos filmou Vidas secas e Memórias do Cárcere. Meu saudoso amigo Leon Hirszman filmou São Bernardo. Caetés e Angústia não foram transpostos para o cinema, mas têm uma legião de admiradores.

Nos vários ensaios dedicados a sua obra, costuma ser sublinhado o vigor do “caroço” humanista, sob a secura da linguagem. Graciliano sabia que a literatura, ao contrário do que supunham alguns parnasianos, não e´ “o sorriso da sociedade”.

O compromisso maior do escritor é com a verdade: não como uma verdade já constituída, anterior a ele, mas com a verdade que ele vai descobrindo e inventando, com sua vida e com sua criação. O dever número 1 de quem se diz escritor é ser fiel a si mesmo em sua dicção. É o que se chama de “autenticidade”. E é o que não falta na obra do Velho Graça.

Desde o começo, a vida foi muito dura com Graciliano. Em seu livro Infância, ele descreve sua mãe em termos que indicam claramente uma das maiores dificuldades que teve de enfrentar quando era criança: “uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza”, que tinha “boca má” e olhos que, “em momentos de cólera, se inflamavam com um brilho de loucura”.

Os adultos com quem convivia insistiam em convencê-lo de que era, afinal de contas, um ser bastante “mesquinho”. Contudo, o menino resistia. E achava o mundo daquela gente muito estranho, cheio de arbítrio e violência.

O pai lhe ensina o alfabeto com uma vara de marmelo, para castigá-lo quando a memória o traía. Usava a cartilha do Barão de Macaúba, onde se lia o provérbio; "fala pouco e bem; e ter-te-ão por alguém" . O garoto tinha uma única curiosidade: gostaria de saber quem era o estranho personagem Terteão.

“Todas as frases artificiais me deixavam perplexo”, recordaria mais tarde o escritor. Desde criança, portanto, ele tomou a decisão de procurar a expressão simples, franca e direta, numa opção estética que se baseava numa opção ética.

Já em Caetés (1933), seu primeiro romance, está presente uma visão agudamente crítica do discurso burocrático dos que têm pouco a dizer, mas falam muito. É no romance seguinte, entretanto, em São Bernardo (1934), que o Velho Graça mostra toda a sua genialidade.

O narrador, Paulo Honório, é um tipo humano rancoroso, truculento, que realiza sua ambição: enriquece e compra a fazenda São Bernardo, onde havia sido humilhado quando era um mero trabalhador. A implacável lógica pragmática do proprietário, contudo, leva-o a oprimir de tal modo a mulher que ele poderia ter amado, que ela se suicida.

O relato dos acontecimentos feito por Paulo Honório mostra-o capaz de entender o que se passou – capaz até mesmo de contá-lo – porém incapaz de encaminhar um procedimento alternativo.

Quando o terceiro romance, Angústia (1936), foi publicado, Graciliano estava na cadeia, preso como comunista, na onda de repressão que se seguiu à chamada Intentona, sublevação militar ocorrida em novembro de 1935.

O narrador, Luis da Silva, se apaixona por sua vizinha Marina, que, no entanto, prefere se entregar ao rico e cínico sedutor Julião Tavares, subliterato e homem de “palavras gordas”.

Segue-se o quarto e último romance do nosso autor, Vidas secas (1938). Nele, o Velho Graça é obrigado a narrar ele mesmo as desventuras e sofrimentos de seus personagens, pois o camponês Fabiano e sua família não dispõem de meios de expressão que lhes permitam narrar o que se passa com eles, retirantes que tentam fugir da seca do Nordeste.

Graciliano era, no sentido mais rigoroso do conceito, um homem de esquerda, que se recusava a aceitar a opressão, a exploração, a desigualdade. E era, também, um escritor “engajado”, comprometido com os princípios éticos e estéticos que repeliam o uso empobrecedor, estreitamente propagandístico ou oportunista da linguagem.

Em sua criação literária, era ponto de honra evitar o abuso dos adjetivos, cultivar a contenção, permanecer atento ás exigências do discurso denso e enxuto, sem conciliar com o emprego de chavões, sem indulgir em banalidades. Sem fazer concessões à demagogia.

Aqueles que amam a língua portuguesa e cuidam dela como um elemento essencial da nossa identidade sabem o quanto nós devemos ao Velho Graça. Uma boa ocasião para mostrarmos nossa gratidão é essa de relembrá-lo agora, transcorrido meio século do seu falecimento.



* Na foto, o representante da ABI, Prof. Henrique Miranda, entrega a Medalha à neta de à bisneta de Graciliano Ramos, Vânia Ramos e Maria Eduarda Ramos Chagas

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