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Dossiês de Mortos e Desaparecidos Políticos

Triste memória a de um povo que tem que lembrar dos que morreram ou desapareceram sob o jugo de torturadores não confessos, não publicizados, não responsabilizados!

 

Cecília Coimbra e Flora Abreu consultando dossiês no Arquivo Público do Rio de Janeiro

 

> Rio de Janeiro Desaparecidos

Filiação: Maria de Oliveira Campos e Joaquim Maria de Souza Machado

Data e local de nascimento: 13/09/1939, Papagaios (MG)

Organização política ou atividade: VAR-Palmares

Local e data do desaparecimento: 15/02/1971, Rio de Janeiro

 

Está desaparecido desde 1971. Advogado, foi preso no dia 15 de fevereiro de 1971, na pensão em que morava, à Rua Farme de Amoedo, em Ipanema, Rio de Janeiro, juntamente com Carlos Alberto Soares de Freitas.

Antônio Joaquim, mineiro de Papagaios, proximidades de Pompéu, nasceu na Fazenda São José da Vereda, sendo filho de um fazendeiro que foi vereador pela UDN. Quincas, como era conhecido, tinha 13 irmãos vivos e estudou em regime de internato no Ginásio São Francisco, em Pará de Minas, e depois no Colégio Dom Silvério, em Sete Lagoas. Em 1960, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, onde se graduou em 1965. Atuou na Juventude Estudantil Católica (JEC) e na Juventude Universitária Católica (JUC), participando da constituição da Ação Popular. Conseguiu escapar da prisão quando a Faculdade de Direito foi invadida logo após a derrubada de João Goulart, escondendo-se em um armário. Viajou para o Rio de Janeiro, retornando em 1965 para terminar seus estudos. Em 1966, já desvinculada da AP, atuou na campanha eleitoral de Edgar da Mata Machado, do MDB, e combateu a tese de voto nulo, que sensibilizava muitas áreas da esquerda. Advogou em Belo Horizonte e Teófilo Otoni até se mudar para o Rio de Janeiro, em 1969, integrando-se à VAR-Palmares.

Sua família tentou exaustivamente alguma pista sobre seu paradeiro. Até o final de 1972, o pai fez 22 viagens ao Rio de Janeiro. Nos anos seguintes, conseguiu três audiências com o ministro da justiça Armando Falcão, buscou ajuda de Tancredo Neves e comunicou-se com vários oficiais das três Armas. Através do general reformado Ercindo Lopes Bragança, seu conhecido, chegou a receber, em setembro de 1972, a informação de que o filho fora preso pela Marinha e entregue ao Exército, mas tais informações nunca foram oficialmente confirmadas.

Em depoimento à 2ª Auditoria do Exército, no Rio de Janeiro, em 14/11/1972, a presa política Maria Clara Abrantes Rego, amiga de infância e condenada sob acusação de integrar, com Antônio Joaquim, a célula de documentação regional da VAR-Palmares na Guanabara, fez impressionante relato das torturas a que foi submetida e denunciou o desaparecimento e possível morte de Antônio Joaquim na Polícia do Exército, sede do DOI-CODI/RJ. O historiador e ex-preso político Jacob Gorender, em seu livro Combate nas Trevas, menciona que Antônio Joaquim seria a única pessoa em contato com o banido Aderval Alves Coqueiro, morto, também no Rio de Janeiro, e de vários presos políticos, Antônio Joaquim foi torturado na “Casa da Morte”. Inês Etiene Romeu, sobrevivente da “Casa da Morte”, confirma em seu relatório a passagem de Antônio Joaquim por aquele centro clandestino de tortura.

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Filiação: Maria da Glória Fructuoso e Anibal Teixeira Fructuoso

Data e local de nascimento: 20/05/1923, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: PCdoB

Data e local de desaparecimento: setembro de 1975, Rio de Janeiro (RJ)

 

Nascido no Rio de Janeiro, o operário Armando Teixeira Fructuoso estudou até completar o segundo grau e tornou-se sindicalista logo após a derrubada do Estado Novo, liderando as mobilizações de seus colegas de trabalho na Light, empresa concessionária do serviço de bondes na então capital da República. Tornou-se delegado sindical, depois dirigente e por fim presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Light. Casou-se com Virgínia Ricardi Viana e com ela teve a filha Cláudia.

No final dos anos 1940, já era um dirigente sindical destacado, ligado ao Partido Comunista. No início da década de 1950, representou o Brasil no Congresso Sindical Mundial pela Paz e contra a Guerra da Coréia. Também participou na Tchecoslováquia de um curso de capacitação política. Entre 1945 e 1964, foi preso 14 vezes por sua militância sindical, sendo que, em uma greve da categoria, sua libertação foi exigida pelos trabalhadores e Fructuoso saiu do cárcere diretamente para a mesa de negociações.

Com o Golpe de Estado de 1964, perdeu o mandato sindical, teve seus direitos políticos cassados, sofreu perseguições e foi obrigado a mergulhar na atuação clandestina. Entre 1967 e meados de 1968, ao lado de Manoel Jover Telles, Lincoln Bicalho Roque e outros militantes comunistas, alinhou-se no grupo dissidente do PCB no Rio de Janeiro que fundou o PCBR. No entanto, esse grupo permaneceu poucos meses no PCBR e, já no início de 1969, ingressou em bloco no PCdoB, onde Armando passaria a integrar o Comitê Central a partir de 1971.

Foi capturado por agentes do DOI-CODI do I Exército no bairro de Madureira, no Rio, quando se dirigia para um encontro com outro membro do PCdoB, por volta de 19 horas do dia 30/08/1975. Foi submetido a violentas torturas durante vários dias, segundo depoimentos de pessoas que estavam presas naquela unidade militar, entre elas os presos políticos Gildázio Westin Cosenza e Delzir Antônio Mathias, que chegaram a ser acareados com Armando, entre 4 e 7 de setembro.

Ambos testemunharam que o dirigente do PCdoB foi muito torturado e que sua saúde estava bastante debilitada. “No dia 4, ele mal podia levantar-se, tamanhas as sequelas produzidas pelas torturas. Seu rosto apresentava manchas de sangue e equimoses. A partir de determinado dia, os torturadores passaram a negar-lhe alimentação e água”, afirmou Gildázio em seu depoimento. Segundo ele, “ante os gritos de Fructuoso pedindo água, a resposta dos torturadores foi de que não iam gastar comida e água com quem ia morrer”.

Delzir Antônio Matias escreveu uma carta à Justiça Militar, em 21/03/1978, testemunhando: “A minha denúncia de sua morte decorre do fato de haver ouvido de minha cela no DOI-CODI os seus gritos lancinantes, emitidos noites e dias seguidos e que repentinamente cessaram. Estou convencido de que tratava-se do Sr. Armando Teixeira Fructuoso por ter ouvido naquela ocasião o comentário de um para outro torturador afirmando que ‘esse lixo humano é o Juca ou Armando Fructuoso’”.

O nome de Armando Fructuoso faz parte da lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95. Em uma atitude cínica da Justiça Militar do período ditatorial, depois de desaparecido, ele foi absolvido em 28/03/1978 pela 2ª Auditoria do Exército do Rio de Janeiro da acusação de ser dirigente regional do PCdoB. Pouco menos de um ano antes, em junho de 1977, a 1ª Auditoria do Exército, em São Paulo, já o havia condenado à revelia, a cinco anos de reclusão, no processo referente aos membros do PCdoB que foram presos em uma reunião no bairro da Lapa, em São Paulo, em 16/12/1976, sob a acusação de integrar o Comitê Central daquele partido. No segundo julgamento, o próprio advogado de ofício — já que Fructuoso era revel — Lourival Nogueira Lima, pediu o desmembramento do processo, para declarar a punibilidade extinta por morte, o que foi recusado pelo Conselho Permanente de Justiça.

Em março de 1978, o Comando do I Exército abriu sindicância para apurar as denúncias de que ele foi assassinado sob torturas em dependência militar. A conclusão desse inquérito, destinado a encobrir o destino dado ao seu corpo, foi de que, “as torturas não aconteceram, pois Armando nunca esteve preso naquela unidade militar”.

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Filiação: Leopoldina Ribeiro de Castro e Mariano Alves de Castro

Data e local de nascimento: 16/08/1928, Rio de Janeiro (RJ)

Organização política ou atividade: não definida

Data e local de desaparecimento: 21/11/1973, Rio de Janeiro (RJ)

 

Caiupy era bancário aposentado, casado com Marly Paes Leme, sócio da empreiteira São Tomé. Vivia no Rio de Janeiro em situação perfeitamente legal e desapareceu no dia 21/11/1973, às 19 horas, após descer de um ônibus em Copacabana. Já havia sido preso uma vez, em maio de 1968, na véspera das comemorações do 1º de maio, quando participava de uma manifestação perto do Campo de São Cristóvão. Ficou por 11 dias, incomunicável, nas dependências do DOPS/RJ. O sindicato dos Bancários interferiu, mas as autoridades não reconheceram a prisão. Vinte dias depois, por meio de um habeas-corpus, Caiupy foi solto. Não houve processo, nada foi apurado. Era acusado de ser membro do PCB por ter tirado seu título de eleitor através deste partido, por volta de 1945. Nesse período pós-Estado Novo, o PCB era um partido perfeitamente legal, que montava bancas nas Ruas para obter novos afiliados. O nome de Caiupy consta na lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95.

Nas várias listas formadas desde 1970 sobre mortos e desaparecidos políticos, seu nome costumava ser gravado como Caiuby, e não Caiupy, e sua vinculação política era dada como sendo o PCB, graças a essa prisão anterior. No entanto, sabe-se que Caiupy era pessoalmente ligado ao major do Exército Joaquim Pires Cerveira, banido do Brasil em 1970, a quem Caiupy visitou no Chile em 1971. Levando em conta que os dossiês e sites ligados aos familiares de mortos e desaparecidos políticos nunca trouxeram maiores informações sobre o vinculo de Caiupy com o PCB, considerando que nesse período Cerveira nada tinha a ver com esse partido, e atentando, finalmente, para a proximidade das datas entre o desaparecimento de Caiupy e Cerveira, parece mais seguro registrar como não definida a filiação política de Caiupy.

Marly, em depoimento no livro Desaparecidos Políticos, organizado por Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, em 1979, conta o que aconteceu no dia do desaparecimento de Caiupy: “Tomamos um ônibus da linha circular Glória-Leblon, no início da Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, e quando chegamos na altura da Galeria Menescal, Caiupy puxou a cigarra e desceu. Antes, me confidenciara um encontro rápido com um amigo, mas garantiu que voltaria logo. Pediu-me, inclusive, que não mudasse a roupa ao chegar em casa, pois iríamos juntos ao cinema. Esperei e nada de Caiupy. O dia já estava quase amanhecendo e o meu marido não tinha voltado. Pensei comigo: vai ver que o encontro se prolongou demais e ele não pode avisar. Dia seguinte, não dava mais para esperar e comecei a tomar providências, meu marido tinha desaparecido.

Comecei a busca. Recorri a amigos que me acompanharam nos distritos policiais. Desconfiava da gravidade do que tinha acontecido. Ninguém desaparece assim de uma hora para outra. Fui pelas vias normais. Percorri todos os hospitais da cidade, minha irmã foi ao necrotério, fomos também ao DOPS e nada encontramos (…).

Procurei um advogado. Fui falar com Dom Ivo Lorscheiter na CNBB, comecei a movimentar pessoas amigas, fiz pedidos a generais e nada consegui. Nenhum órgão assumia a prisão de Caiupy. Devido a minha falta de tempo, Lourdes Cerveira, esposa do também desaparecido major Cerveira, me ajudava.

Nessa época foi preso um companheiro do Caiupy de nome Otevaldo Silva. A prisão foi de conhecimento público. Pouco depois, Otevaldo foi solto e disse que ouviu a voz de meu marido quando estava sendo interrogado num quartel militar em Brasília…”.

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Filiação: Alice Soares Freitas e Jayme Martins de Freitas

Data e local de nascimento: 12/08/1939, Belo Horizonte (MG)

Organização política ou atividade: VAR-Palmares

Data e local de desaparecimento: 15/02/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Militante da VAR-Palmares, seu nome integra a lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95. Carlos Alberto foi preso em 15/02/1971 por agentes do DOI-CODI/RJ, na pensão em que se hospedava juntamente com Antônio Joaquim de Souza Machado, à Rua Farme de Amoedo, 135, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Na mesma data e local foi preso, mais tarde, Sérgio Emanuel Dias Campos, que sobreviveu.

Carlos Alberto Soares de Freitas, Beto para a família e “Breno” na militância clandestina, caçula de oito irmãos, cursou o primário no Colégio São Francisco e no Grupo Escolar Manoel Esteves, em Teófilo Otoni, e o secundário nos colégios Anchieta e Tristão de Ataíde, em Belo Horizonte. Ingressou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais, em 1961, para cursar Sociologia e Política. Nesse mesmo ano filiou-se ao PSB e também à organização POLOP. No período de 1961 a 1965, militou no Movimento Estudantil e contribuiu na implantação das Ligas Camponesas em Minas Gerais. Viajou à Cuba em 1962 para assistir às comemorações do terceiro aniversário da revolução liderada por Fidel Castro. Com o Golpe de Estado de abril de 1964, a POLOP determinou que ele se deslocasse para o Rio de Janeiro, o que cumpriu por poucos meses. Em 26 de julho daquele ano foi preso em flagrante, novamente em Belo Horizonte, pichando muros com slogans de solidariedade à Revolução Cubana. Levado ao DOPS, recusou-se a desempenhar trabalhos burocráticos naquela dependência policial e foi transferido para a Penitenciária Agrícola de Neves. Em novembro do mesmo ano, foi libertado por força de habeas-corpus.

Participou, em 1965, da reorganização da seção regional do Partido Socialista Brasileiro, tornando-se um dos membros do Comitê Executivo do partido, além de dirigente nacional da POLOP. No período de 1965 a 1968, além de outras tarefas, escreveu semanalmente artigos para o jornal operário Piquete. Em 1967, foi condenado à revelia pela Auditoria da 4ª Circunscrição Judiciária Militar, em Juiz de Fora, o que o obrigou a atuar na clandestinidade.

Em 1968, passou a integrar a direção nacional do COLINA e elaborou documentos de análise política para discussões internas na organização, usando o pseudônimo de Fernando Ferreira. Neste período, foi um dos diretores da revista América Latina. Logo após o AI-5, mudou-se para o Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano, passou a integrar o Comando Nacional da VAR-Palmares, fusão entre COLINA e VPR, no qual permaneceu até desaparecer.

Foi através de uma carta de Carlos Alberto que a família soube de sua prisão. “Esta carta só lhes será enviada se eu estiver preso. A forma de como lhes chegou, não importa”. Carlos Alberto orientava os pais a respeito de como proceder para “conseguir minorar as torturas, já que era impossível detê-las de todo, a não ser num segundo momento. Tem-se que incomodá-los. Encher-lhes a paciência com visitas, com insistência para ver-me. Recusam continuadamente. No princípio eles negam a prisão. Dizem mesmo que a pessoa não foi presa. Insistam, voltem à carga. Tentem de novo, mais uma vez, outra, gritem, chorem, levem cartas, enfim, não lhes deem sossego. Sempre se consegue romper a barreira”.

Quando de sua prisão e desaparecimento, seus familiares fizeram tudo isso que Carlos Alberto propôs na carta premonitória, e muito mais. Foram mobilizados importantes advogados como Sobral Pinto, Oswaldo Mendonça e Modesto da Silveira. Apelos dos familiares foram encaminhados às mais importantes autoridades do regime, como o presidente Garrastazu Médici e o chefe do Gabinete Militar João Baptista Figueiredo, além do ministro do STM general Rodrigo Octavio Jordão Ramos. Nenhuma informação foi apresentada pelo Estado brasileiro aos familiares até os dias de hoje.

Ao relatar o que viveu na prisão, a militante da VPR Inês Etienne Romeu, amiga e companheira de Carlos Alberto desde a faculdade, sobrevivente do cárcere clandestino em Petrópolis (RJ) que ficou conhecido como “Casa da Morte”, declara que um dos carcereiros que a mantinha sequestrada no local, conhecido por ela como “Dr. Pepe”, confirmou-lhe que seu grupo executara Carlos Alberto, por cuja prisão, em fevereiro, havia sido responsável. Disse-lhe, ainda, que seu grupo não se interessava em ter líderes presos e que todos os cabeças seriam executados, depois de interrogados.

Vários outros depoimentos de presos políticos nas auditorias militares denunciaram a prisão e desaparecimento de Carlos Alberto. Amilcar Lobo, que na época era tenente-médico do Exército, admitiu ter atendido presos políticos na “Casa da Morte” e também no DOI-CODI/RJ, tendo reconhecido Carlos Alberto dentre as fotos de pessoas que atendera no Quartel da Polícia do Exército entre 1970 e 1974.

Documento da Anistia Internacional registra a respeito de Carlos Alberto Soares de Freitas: “torturado no CODI do Rio de Janeiro até abril de 1971 e depois desaparecido”.

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Filiação: Julieta Pedroso de Oliveira e João Adelino de Oliveira

Data e local de nascimento: 26/06/1945, Porto Alegre (RS)

Organização política ou atividade: VPR

Data e local de desaparecimento: após 29 e 30/12/1970, Rio de Janeiro (RJ)

 

Desaparecido constante da lista anexa à Lei 9.140/95. Praticamente inexistem informações biográficas sobre sua trajetória política anterior à militância na VPR. Gaúcho de Porto Alegre, corretor de imóveis, Celso Gilberto de Oliveira foi preso no Rio de Janeiro, em 9 ou 10/12/1970, num momento em que as forças de repressão política estavam especialmente ativas. No dia 7, tinham sequestrado o embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, e os órgãos de segurança buscavam com voracidade alguma pista que levasse ao cativeiro do diplomata.

De acordo com o Dossiê dos Mortos e Desaparecidos, Celso foi preso por agentes do CISA, o setor de inteligência da Aeronáutica, comandados pelo capitão Barroso, sendo transferido ao DOI-CODI/RJ. Segundo denúncias feitas mais tarde por outros presos políticos, Celso Gilberto foi torturado nessa unidade pelos tenentes Hulk, Teles e James, todos do Exército. O ex-preso político Sinfrônio Mesa Neto afirma em seu depoimento que foi acareado com Celso nos dias 24 e 25 de dezembro, para que lhe fosse incriminado como militante da VPR e sequestrador do embaixador suíço.

Segundo o Relatório do Ministério do Exército, apresentando ao ministro da Justiça Maurício Correa em 1993, Gilberto foi preso pelo CISA em 09/12/1970 e entregue ao DOI-CODI do I Exército no dia 11/12/1970. Foi interrogado em 29/12/1970, quando admitiu o seu envolvimento no sequestro do embaixador da Suíça no Brasil. Na madrugada de 29/30 de dezembro de 1970, conduziu ardilosamente as equipes dos órgãos de segurança ao local que seria o cativeiro, mas, comprovada a farsa, empreendeu fuga conseguindo evadir-se, fato confirmado pelo relatório da Operação Petrópolis de responsabilidade do DOI-CODI/I Exército.

Já o Relatório do Ministério da Marinha registra: “teria sido preso em 10/12/70, por Oficial da Aeronáutica e levado para o Quartel da PE, na Guanabara, no dia 18/12/70; a partir daquela data não se soube mais do seu paradeiro. Pertencia à VPR e participou do sequestro do embaixador suíço”.

O Relatório do Ministério da Aeronáutica tem uma terceira versão: “Militante da VPR. Participou do sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, em 07/12/70, do qual resultou o assassinato do agente da Polícia Federal, Hélio Carvalho de Araújo. Enquanto o referido diplomata permanecia em cativeiro, foi detido por uma equipe do então CISA e encaminhado ao DOI/I Exército, em 11/dez/70”.

Apesar das informações nos documentos oficiais, a morte de Celso nunca foi assumida pelos órgãos de segurança.

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Filiação: Risoleta Meira Collier e Eduardo Collier

Data e local de nascimento: 05/12/1948, Recife (PE)

Organização política ou atividade: APML

Data e local de desaparecimento: 23/02/1974, Rio de Janeiro (RJ)

 

Nascido em Recife, amigos desde a infância de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, eram militantes de APML e foram presos juntos em Copacabana, no Rio de Janeiro, por agentes do DOI-CODI/RJ, em 23/02/1974, quando faltavam poucas semanas para ter fim o governo Garrastazu Médici. Seus nomes integram a lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95.

Eduardo Collier Filho cursou Direito na Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Havia sido indicado em inquérito policial pelo DOPS/SP, em 12/10/1968, por ter participado do 30º Congresso da UNE, em Ibiúna (SP). Em 1969, foi expulso da universidade pelo decreto 477.  Militante da AP, a partir de 1972 na ala dessa organização clandestina que não concordou com a incorporação da organização ao PCdoB e se manteve estruturada como APML.

Como parte da perseverante cruzada que manteve durante anos em busca do filho, a mãe, Risoleta Meira Collier, endereçou uma carta ao novo chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, onde relata todos os passos de sua peregrinação desde fevereiro e fornecem informações bem concretas: “fui a São Paulo, no dia 14 de março, ao DOI do II Exército, situado na Rua Tomás Carvalhal, onde ocorreu o seguinte incidente: “recebida pelo carcereiro de plantão, que atendia pelo nome ou alcunha de ‘Marechal’, o mesmo anotou o nome de meu filho e, após uma ausência de meia hora, retornou o referido funcionário, na ocasião comunicando que ‘hoje não é dia de visita para Eduardo’; em virtude de minha insistência, foi declarado que meu filho ali se encontrava preso, mas que só poderia receber visitas no domingo próximo, após as 10 horas. Apesar disso se dispuseram a receber e entregar sacolas contendo roupas e objetos de uso pessoal.

No domingo, ao comparece ao DOI, certa de que eu avistaria meu estimado filho, como prometido, fui comunicada por um funcionário, que atendia pelo nome de Dr. Homero, de que Eduardo ali não se encontrava, tratando-se tudo de um ‘lamentável equívoco’, ocasião em que foram devolvidas as sacolas”.

O desaparecimento de Eduardo também foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, com sede em Washington, ao Tribunal Bertrand Russel, à Câmara dos Deputados, onde os então deputados Fernando Lira e Jarbas Vasconcelos denunciaram o episódio na tribuna e ainda a dezenas de personalidades históricas do Brasil, entre apoiadores e opositores do regime militar, como Tristão de Athayde, Dom Helder Câmara, os generais Reynaldo Melo de Almeida e Sylvio Frota e os marechais Cordeiro de Farias e Juarez Távora.

Em 07/08/1974, Risoleta participou, junto com outros familiares de desaparecidos, de uma audiência com o general Golbery, articulada por Dom Paulo Evaristo Arns. Era a primeira vez que o governo militar recebia os familiares de desaparecidos. Nenhuma resposta foi dada. Apenas seis meses depois, em fevereiro de 1975, o ministro da Justiça Armando Falcão fez um pronunciamento respondendo aos familiares com a cínica informação de que os desaparecidos estavam todos foragidos.

Eduardo Collier, seu nome aparece no Arquivo do DOPS/PR na gaveta identificada com a palavra “falecidos”. O Relatório do Ministério do Exército registra que, “conforme reportagem veiculada no Jornal de Brasília, em sua edição do dia 31/10/1975, o nominado teria sido preso em 23/01/1974, no estado do Rio Grande do Sul, após permanecer por um longo período foragido da Justiça Militar”. O Relatório do Ministério da Marinha menciona que “desapareceu quando visitava parente na Guanabara”. Para o militante Eduardo, o Ministério da Aeronáutica informa que é citado na imprensa como morto e desaparecido, mas que não há dados que comprovem a versão.

Na edição de 24/03/2004 da revista IstoÉ, o sargento Marival Chaves do Canto, que trabalhando como analista do DOI-CODI acompanhou as principais ações do CIE comandadas pelo Doutor César, o coronel reformado José Brant Teixeira, e pelo Doutor Pablo, o coronel Paulo Malhães, informa que esses dois oficiais “foram responsáveis pelo planejamento e execução de uma megaoperação em inúmeros pontos do País para liquidar, a partir de 1973, os militantes das várias tendências da Ação Popular (AP), movimento de esquerda ligado à Igreja Católica. Segundo o ex-agente, entre os mortos estão Fernando Santa Cruz Oliveira, Paulo Stuart Wright, Eduardo Collier Filho e Honestino Monteiro Guimarães, militantes da Ação Popular Marxista-Leninista (APML), movimento dissidente da AP”.

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Filiação: Emília Gomes Escobar e José Escobar

Data e local de nascimento: 22/03/1923, Miracema (MG)

Organização política ou atividade: MR-8

Data e local de desaparecimento: setembro/outubro de 1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Militante do MR-8, o nome de Félix integra a lista anexa à Lei nº 9.140/95, estando desaparecido desde a prisão, em setembro ou outubro de 1971, provavelmente na Baixada Fluminense. Félix Escobar foi camponês, comerciário, pedreiro, servente de obras, instalador de persianas e também tesoureiro do Sindicato dos Empregados no Comércio em Duque de Caxias e São João de Meriti. Nascido em Miracema (RJ), instalou-se em Pilar, em 1942, na Baixada Fluminense. Casou-se com Raymunda Cardoso Escobar, com quem teve seis filhos. Depois de ficar viúvo em 1965, casou-se com Irani e tiveram dois filhos. Participou da campanha em defesa do petróleo brasileiro nos anos 1950 e atuou na diretoria do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro.

Iniciando a militância política no Partido Comunista na década de 50, ele trabalhou muito para criar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Duque de Caxias (RJ), em 1962. Filho de um proprietário camponês, Felix viveu sempre humildemente. Dizem seus amigos que morava em um casebre em péssimas condições. Mas atuava com vigor, em especial na organização dos camponeses nos distritos de Capivari, Xerém e São Lourenço, naquele município, chegando a mobilizar mais de mil camponeses para obter uma difícil vitória na disputa pela terra, conseguindo sustar uma ação de despejo determinada por um juiz local. Com o Golpe de Estado de 1964, permaneceu preso durante 12 dias. Libertado, passou a atuar na clandestinidade.

Posteriormente, ligou-se ao MR-8. Não foi possível reunir mais informações acerca de sua militância nesse período. Sabe-se que sua casa foi cercada e invadida, no final de 1970, por dezenas de agentes dos órgãos de segurança, que espancaram um dos filhos de Felix para descobrir a possível localização de armas. Consta que, nesses dias, ele já residia em Feira de Santana e que, em 1971, teria morado na mesma residência de Iara Iavelberg, em Salvador, em um arranjo em que se apresentavam como pai e filha em suas identidades clandestinas, conforme relato do jornalista Hugo Studart, em matéria publicada na revista IstoÉ, em fevereiro de 2007.

Não há plena certeza a respeito do local e data de sua prisão, que teria ocorrido em setembro ou outubro de 1971. Uma das versões indica que ele teria sido preso em outubro, na casa de um companheiro, João Joaquim Santana, em Nova Iguaçu (RJ). Em outra versão, foi preso em Belford Roxo. Felix foi visto pelo preso político César Queiroz Benjamim sendo conduzido por agentes do DOI-CODI na Polícia do Exército da Vila Militar, no Rio de Janeiro. No livro Desaparecidos Políticos, de Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, o preso político Nilson Venâncio relata: “Quando eu estava preso na Bahia, soube, por intermédio de José Carlos Moreira, preso na mesma circunstância, que teria saído no jornal o atropelamento de uma pessoa, de nome Felix Escobar Sobrinho. Um caso típico de tantas outras mortes que ocorriam no interior do DOI-CODI e que depois eram ditas como sendo atropelamento”.

Em matéria publicada pelo jornal Folha de S. Paulo em 28/01/1979, um general com responsabilidade dentro dos órgãos de repressão política assumiu a morte de Felix e de mais 11 presos desaparecidos. No Relatório apresentado pelo Ministério do Exército ao ministro da Justiça Maurício Corrêa, em 1993, consta que Felix foi preso por atividades terroristas e que frequentava a pedreira de Xerém, em Duque de Caxias.

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Filiação: Elzita Santos de Santa Cruz Oliveira e Lincoln de Santa Cruz Oliveira

Data e local de nascimento: 20/02/1948, Recife (PE)

Organização política ou atividade: APML

Data e local de desaparecimento: 23/02/1974, Rio de Janeiro (RJ)

 

Nascido em Recife, amigo de infância de Eduardo Collier Filho, ambos militantes da APML e foram presos juntos em Copacabana, no Rio de Janeiro, por agentes do DOI-CODI/RJ, em 23/02/1974, quando faltavam poucas semanas para ter fim o governo Garrastazu Médici. Seu nome integra a lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95.

Fernando Santa Cruz era casado com Ana Lúcia Valença Santa Cruz Oliveira, com quem teve um filho de nome Felipe. Tinha vida absolutamente legal e era funcionário do Departamento de Águas e Energia Elétrica, em São Paulo, onde morava com a mulher e Felipe, então com dois anos. Era um sábado de carnaval e a família estava no Rio de Janeiro. Por volta das 15h30min. Fernando saiu da casa do irmão Marcelo, que atualmente é vereador em Olinda, para se encontrar com Eduardo Collier às 16 horas. Deixou no ar a advertência: se não voltasse até às 18 horas, teria sido preso.

Já tinha sido preso uma vez. Em uma passeata do Movimento Estudantil contra os acordos MEC-Usaid, em Recife, no ano de 1966, conforme foi mencionado na apresentação do caso Ramires Maranhão do Valle neste livro-relatório. Como ainda não tinha 18 anos, ficou detido por uma semana no Juizado de Menores. Participou ativamente das mobilizações estudantis de Recife até 1968, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Ali, passou a trabalhar como pesquisador na Coordenação de Habitação de Interesse Social da área metropolitana do Grande Rio, do Ministério do Interior. Em 1972, matriculou-se no curso de Direito da Universidade Federal Fluminense, mas em setembro de 1973, mudou-se para São Paulo. Militante da AP, alinhou-se, a partir de 1972, na ala dessa organização clandestina que não concordou com a incorporação da organização ao PCdoB e se manteve estruturada como APML. Sua irmã, Rosalina Santa Cruz, hoje professora na PUC de São Paulo, também foi presa política no Rio de Janeiro, devido a sua militância na VAR-Palmares, sendo alvo de cruéis torturas.

Como parte da perseverante cruzada que manteve durante anos em busca de seu filho, Elzita Santos Santa Cruz Oliveira, endereçou uma carta ao novo chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, onde relatava todos os passos de sua peregrinação desde fevereiro e fornecem informações bem concretas: “fui a São Paulo, no dia 14 de março, ao DOI do II Exército, situado na Rua Tomás Carvalhal, onde ocorreu o seguinte incidente: recebida pelo carcereiro de plantão, que atendia pelo nome ou alcunha de ‘Marechal’, o mesmo anotou o nome de meu filho e, após uma ausência de meia hora, retornou o referido funcionário, na ocasião comunicando que ‘hoje não é dia de visitas para Fernando’; em virtude da minha insistência, foi declarado que o meu filho ali se encontrava preso, mas que só poderia receber visita no domingo próximo, após as 10 horas. Apesar disso se dispuseram a receber e entregar sacolas contendo roupas e objetos de uso pessoal. A convicção de que realmente ele estava preso no local tornou-se absoluta quando o carcereiro, ao receber o nome de Fernando Augusto Santa Cruz, completou-o, acrescentando o último sobrenome, Oliveira, sem que lhe fosse fornecido.

No domingo, ao comparecer ao DOI, certa de que avistaria meu estimado filho, como prometido, fui informada por um funcionário, que atendia pelo nome de Dr. Homero, de que Fernando ali não se encontrava, tratando-se tudo de um ‘lamentável equívoco’, ocasião em que foram devolvidas as sacolas”.

O desaparecimento foi levado também à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, com sede em Washington, ao Tribunal Bertand Russel, à Câmara dos Deputados, onde os então deputados Fernando Lira e Jarbas Vasconcelos denunciaram o episódio na tribuna e ainda a dezenas de personalidades históricas do Brasil, entre apoiadores e opositores do regime militar, como Tristão de Athayde, Dom Helder Câmara, os generais Reynaldo Melo de Almeida e Sylvio Frota e os marechais Cordeiro de Farias e Juarez Távora.

Em 07/08/1974, Elzita participou, junto com outros familiares de desaparecidos, de uma audiência com o general Golbery, articulada por Dom Paulo Evaristo Arns. Era a primeira vez que o governo militar recebia os familiares de desaparecidos. Nenhuma resposta foi dada. Apenas sies meses depois, em fevereiro de 1975, o ministro da Justiça Armando Falcão fez um pronunciamento respondendo aos familiares com a cínica informação de que os desaparecidos estavam todos foragidos.

No Arquivo do DOPS/SP, na ficha de Fernando Santa Cruz consta: “Nascido em 1948, casado, funcionário público, estudante de Direito, preso no RJ em 23/02/74”. O Relatório do Exército de 1993 contém apenas a qualificação de Fernando e sua militância na APML e o Ministério da Marinha informa que “foi preso no RJ em 23/02/74, sendo dado como desaparecido a partir de então”.

Na edição de 24/03/2004 da revista IstoÉ, o sargento Marival  Chaves do Canto, que trabalhando como analista do DOI-CODI acompanhou as principais ações do CIE comandadas pelo Doutor César, o coronel reformado José Brant Teixeira, e pelo Doutor Pablo, o coronel Paulo Malhães, informa que esses dois oficiais “foram responsáveis pelo planejamento e execução de uma megaoperação em inúmeros pontos do País para liquidar, a partir de 1973, os militantes das várias tendências da Ação Popular (AP), movimento de esquerda ligado à Igreja Católica. Segundo o ex-agente, entre os mortos estão Fernando Santa Cruz Oliveira, Paulo Stuart Wright, Eduardo Collier Filho e Honestino Monteiro Guimarães, militantes da Ação Popular Marxista-Leninista (APML), movimento dissidente da AP”.

O livro Desaparecidos Políticos, do Comitê Brasileiro pela Anistia/RJ, organizado por Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, registra com palavras emocionantes o drama de muitas crianças brasileiras que naquele período sombrio da história não puderam saber se eram ou não órfãs: “Com o tempo, Felipe de Fernando, acabou entendendo que seu pai tinha sido preso. E como ele não voltou mais, certa vez Felipe disse a um de seus amiguinhos: O soldado matou meu pai, só que eu não sei por quê. Mamãe me disse que quando eu ficar grande eu vou entender. Mas quando eu crescer, vou ao quartel saber onde esconderam meu pai”.

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Filiação: Judite Joventina Pereira e Leôncio Samuel Pereira

Data e local de nascimento: 02/04/1944, Sumé (PB)

Organização política ou atividade: PCB

Data e local de desaparecimento: 05/08/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Este é um caso de desaparecido que não constava anteriormente em nenhuma lista ou dossiê organizado por familiares e entidades ligadas à defesa dos Direitos Humanos.

Natural da Paraíba, estudante de Direito e militante do PCB, Francisco das Chagas Pereira, foi sargento da PM em seu estado de origem, trabalhou no Banco do Nordeste e, depois, na Embratel do Rio de Janeiro, onde foi admitido por concurso público. Em agosto de 1971, ocorreu um incêndio nas instalações daquela empresa estatal, dirigida na época por um militar, e Francisco passou a ser o principal suspeito.

Conforme informações da Polícia Federal, “Francisco das Chagas Pereira, ex-funcionário da Embratel, no antigo Estado da Guanabara, suspeito de distribuir, naquela empresa, material impresso de cunho subversivo e contrário à administração da mesma, tornou-se o maior suspeito de ter ateado fogo, em 06/08/1971, em material de expediente da Embratel (…). Fugiu do pessoal da segurança interna da empresa, que fez busca em sua residência e nada mais encontrou. Depois disso jamais voltou a trabalhar, deixando de frequentar as aulas na Faculdade Brasileira de Ciências Jurídicas”.

Há informações de que seu último contato com a família foi através de carta, pedindo para que fosse queimada toda a sua correspondência, por temer a ação da repressão militar contra ele e seus familiares. Seu irmão informou sobre o vínculo de Francisco com o PCB.  A documentação constante dos Autos efetivamente demonstra a sua participação e acusação de ter participado em atividades políticas, tendo desaparecido, sem que dele a família tenha obtido qualquer notícia, nem atestado de óbito.

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Filiação: Maria Filomena Pereira Damasceno e Lucas Damasceno

Data e local de nascimento: 15/03/1948, Miracema (MG)

Organização política ou atividade: ALN

Data e local de desaparecimento: fevereiro de 1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

O nome do técnico em laticínios Hamilton Pereira Damasceno, desaparecido desde fevereiro de 1972, nunca constou nas listas oficiais de mortos e desaparecidos políticos. Em 1979, ao organizar sua lista, o Comitê Brasileiro pela Anistia do Rio de Janeiro tinha a foto de Hamilton Pereira Damasceno, com a anotação de que trabalhava na Cooperativa Central de Produtores de leite – CCPL, e que desaparecera em 1971. Junto à foto, infelizmente, não estava anotada qualquer forma de contato com a família, critério considerado essencial para inclusão do nome na lista. O contato com a família foi feito apenas a partir da divulgação da Lei nº 9.140/95, e o processo somente foi protocolado com a nova redação introduzida em 2002, que reabriu o prazo para apresentação de requerimentos.

João Pereira Damasceno conta que tomou conhecimento da militância do irmão no final de 1971, quando Hamilton esteve pela última vez em Miracema, sua terra natal em Minas Gerais. Os dois ainda se encontrariam em janeiro de 1972, na pensão onde Hamilton morava no Rio de Janeiro. De acordo com João, o irmão estava apreensivo e disse que “sumiria” por uns tempos, pois sentia o cerco se fechando, pedindo que se a mãe perguntasse por ele, dissesse que estava bem. Ainda conforme o relato do irmão, a mãe, angustiada com a falta de notícias, dirigiu-se à referida pensão e soube que, logo após a visita do irmão, policiais à paisana estiveram à procura de Hamilton e como não o encontraram levaram toda a sua bagagem. Nunca Mais tiveram notícias dele.

Em declarações de Pedro Batalha da Silva e Jorge Joaquim da Silva, funcionários da CCPL presos no Rio de Janeiro em 1972, pode-se conhecer um pouco mais a história de Hamilton. Jorge conheceu Hamilton em 1970, quando passou a integrar a ALN. Foi preso em 02/02/1972 ao sair da casa, em Nova Iguaçu (RJ).

Ao retornar para casa, uma vizinha que presenciara sua prisão contou que, logo após ter sido levado, fora retirado de outro carro um rapaz moreno, baixo, de cabelos pretos e lisos, que estava envolto em uma lona verde. Ele estava algemado e foi espancado e chutado em plena Rua. Jorge teve certeza que se tratava de Hamilton preso, pois era a única pessoa que conhecia seu endereço. Pedro Batalha também testemunhou que conheceu Hamilton na CCPL em 1970, passando a militar na ALN a seu convite. Não há qualquer referência ao nome de Hamilton em todos os processo judiciais sobre o assalto àquela empresa.

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Filiação: Dora Pedamonti e Domingo Argentino Campiglia

Data e local de nascimento: 06/06/1949, em Buenos Aires

Organização política ou atividade: Montoneros

Data e local de desaparecimento: 12/03/1980, no Rio de Janeiro (RJ)

 

Horácio Domingo integrava o movimento Peronista Montoneros, que mantinha resistência armada à ditadura militar argentina. No dia 13/03/1980, voltava do exílio para a Argentina, tendo saído da cidade do México na véspera, num voo da empresa aérea venezuelana Viasa, que fazia conexão em Caracas com um voo da Varig rumo ao Rio de Janeiro. Usava passaporte falso e foi sequestrado no aeroporto do Galeão.

Seu nome faz parte da lista de desaparecidos políticos organizada pela Comissão de Familiares por falta de informações precisas no Brasil, apesar de denúncias quanto ao desaparecimento de Campiglia ter sido feita em 1980 ao Comitê Brasileiro pela Anistia de São Paulo e ao CBS – Comitê Brasileiro de Solidariedade aos Povos da América Latina, que atuou em São Paulo.

Esse desaparecimento ocorreu em data não abrangida inicialmente pela Lei nº 9.140/95, que fixava 15/08/1979 como marco final do período. Mas a Comissão Especial fez gestões junto ao governo brasileiro até conseguir que o prazo da lei fosse ampliado em 2002, aprovando-se uma nova relação definida pela Lei 10.536, onde o marco final foi estendido até 05/10/1988, data em que passou a vigorar a nova Constituição do Brasil.

Horácio Campiglia nasceu em Buenos Aires em 06/06/1949. Era estudante de Medicina. Casado com Pilar Calveiro, com quem teve duas filhas.

As denúncias do sequestro registradas em documentos foram amplamente divulgadas pela imprensa nacional e pela Argentina a partir de então, foram comprovadas em 2002, quando o Ministério da Justiça e Direitos Humanos recebeu farta documentação do Departamento de Estado dos EUA relacionada com violações dos direitos humanos pelo Estado argentino durante o período de 1975 a 1984.

A referida documentação foi tornada pública sob os auspícios do Freedom of Information Act, tornando-se disponível no endereço eletrônico www.foia.state.gov e contém provas sobre o envolvimento de autoridades brasileiras no sequestro. Entre os documentos tornados públicos, destaca-se um memorando datado de 07/04/1980, dirigido ao embaixador dos Estados Unidos em Buenos Aires por James J. Blystone, Regional Security Official daquela Embaixada, a respeito de um diálogo mantido com um agente da inteligência argentina. Tal documento não cita órgãos ou pessoas, mas implica diretamente os serviços de inteligência brasileiros na operação que resultou no sequestro de Horácio Campiglia e Monica Susana Pinus de Binstock.

James Blystone manteve reunião com um membro do serviço de inteligência da Argentina para discutir diversos temas. No início, perguntou ‘brincando’ o que tinha acontecido com os dois Montoneros que tinham desaparecido entre o México e o Rio de Janeiro. A fonte respondeu que diria confidencialmente, já que era informação ultrassecreta. Informou então que o Batalhão 601 tinha prendido um Montonero e durante o interrogatório souberam da reunião que ele teria no Rio de Janeiro com membros da organização vindos do México, citando Susana de Binstock e Horácio Campiglia, o quarto ou o quinto na estrutura montonera, e que tinha sob sua responsabilidade a totalidade das operações chamadas TEI – Tropas Especiais de Infantaria – unidade especial do Montoneros organizada a partir da base no México.

Integrantes do batalhão 601 fizeram contato com seu colega da Inteligência militar brasileira, solicitando permissão para realizar uma operação no Rio de Janeiro. O Brasil deu permissão e uma equipe especial de agentes argentinos, sob o comando do tenente-coronel Román, viajou ao Rio de Janeiro em um C-130 da Força Aérea Argentina, tendo capturado com vida os dois militantes, levando-os sequestrados para a Argentina. Tentando não alertar os Montoneros da operação realizada no Brasil, os argentinos responsáveis pela prisão clandestina ainda cuidaram de hospedar um casal de argentinos num hotel, registrando-os com os documentos falsos de Monica e Horácio, o que terminou deixando rastros do desembarque no Brasil. O documento conclui afirmando que Monica e Horácio estavam presos no Campo de Mayo – centro clandestino de repressão da Argentina.

Esse documento representou a prova substancial utilizada pelo juiz argentino Cláudio Bonadio, para proferir sentença que versa sobre o desaparecimento de 20 Montoneros e ordena a prisão preventiva do ex-presidente Leopoldo Galtieri e de outros 26 integrantes dos órgãos de segurança do país vizinho. Os documentos apontam como responsável pelas operações secretas o Batalhão de Inteligência 601, que era comandado pessoalmente por Leopoldo Galtieri.

 

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Filiação: Felicia Mardini de Oliveira e Edmundo Dias de Oliveira

Data e local de nascimento: 29/08/1941, São Paulo (SP)

Organização política ou atividade: ALN

Data e local de desaparecimento: 30/01/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

Militante da ALN, residia na mesma casa no Rio de Janeiro com Paulo César. Os dois foram presos no dia 30/01/1972, pelo DOI-CODI/RJ. Seus nomes integram a lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95.

Ísis nasceu e cresceu em São Paulo, iniciando os estudos no Grupo Estadual Pereira Barreto. Fez o ginasial no Colégio Estadual Presidente Rooselvelt e o curso clássico no Colégio Santa Marcelina. Estudou piano e fez curso de pintura e escultura da Fundação Álvares Penteado. Falava inglês, que estudou na União Cultural Brasil-Estados Unidos, dominando também o francês e o espanhol. Trabalhou como secretária bilíngue na Swift. Em 1965, iniciou o curso de Ciências Sociais na USP e passou a morar no CRUSP – o conjunto residencial da Universidade. Trabalhou no Cursinho do Grêmio da Faculdade de Filosofia e se casou, em 1967, com José Luiz Del Royo, também integrante da ALN na fase de sua fundação, e que foi eleito em 2006 senador da Itália. Ísis frequentou o curso de Ciências Sociais até o 3º ano e, segundo informações dos órgãos de segurança, esteve em Cuba participando de treinamento de guerrilha em 1969. Já separada de Del Royo, retornou clandestinamente ao Brasil e se estabeleceu no Rio de Janeiro a partir de meados de 1970.

No dia 4 de fevereiro, Aurora Maria Nascimento Furtado, colega da USP e militante da ALN, que também seria morta sob torturas dez meses depois telefonou a Edmundo, pai de Ísis, avisando da prisão da amiga. “Ela corre perigo, tratem de localizá-la”, disse-lhes. E foi o que tentaram com persistência: impetraram cinco habeas-corpus através da advogada Eny Raimundo Moreira, todos negados. Foram a todas as unidades do Exército, Marinha e Aeronáutica do Rio de Janeiro e São Paulo onde imaginassem poder ter notícias de Ísis. Vasculharam os arquivos dos cemitérios do Rio de Janeiro, Caxias, Nilópolis, São João de Meriti, Nova Iguaçu e São Gonçalo. Sem falar das muitas cartas escritas com a letra miúda da mão ao presidente da República, às autoridades civis e religiosas. Dezenas de pastas guardam documentos da família em busca por Ísis. Trechos do depoimento de Felícia, que com mais de 90 anos ainda espera alguma notícia sobre o que aconteceu com a filha, retrata a luta dos familiares:

“(,,,) Ísis mostrava-se segura e coerente com suas definições de vida. Este pareceu-nos ser o traço marcante de sua personalidade. Verificamos uma total coerência na sua maneira de pensar e agir. Em 16 de junho de 1970 Ísis foi morar no Rio de Janeiro. A princípio vinha, sempre, visitar-nos em São Paulo. Outras vezes, nós a encontrávamos no Rio, em lugares pré-combinados. Um dia, ao despedir-se ela disse: – Mãe, se alguma coisa me acontecer, uma companheira dará notícias para vocês. Eu fiquei muito nervosa com essa informação. No dia seguinte, conforme havíamos combinado, eu fui ao seu encontro. Esperei por várias horas, Ísis não apareceu. Nunca mais a vi. Em 22 de novembro de 1971, Ísis fez um telefonema para a casa de um vizinho, chamando-me. Disse não ter sido possível ir ao meu encontro, conforme havíamos combinado, mas que tudo estava bem com ela. Foi a última vez que ouvi sua voz (…). Eu estive por três vezes na Ilha das Flores, sem nada conseguir. Mas foi lá que conheci Lêda Medeiros, esposa de Jorge Medeiros. Lêda me falou ter conhecimento de uma família denominada ‘Massa’. Foi assim que eu cheguei até a família do Paulo César Botelho Massa, companheiro de Ísis, que teria sido preso antes da minha filha (…)”.

“(…) Nós chegamos à triste conclusão que todas essas séries de desinformações serviam a um objetivo específico, que era de confundir-nos e fazer-nos reaver, a cada sinal, uma esperança. Cartas: foram escritas muitas. Eu as escrevia, com sacrifício, para poupar meu marido que havia sofrido um grave enfarte do miocárdio. Com o passar do tempo, fui vendo os destinatários eram os mesmos, a quem as outras famílias de desaparecidos escreviam: Presidente da República, Ministros das três armas, Comandante do I e II Exércitos, OAB, OEA, ONU, Anistia Internacional, Arcebispos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Foram tantas cartas e inúteis que não gosto de lembrar. Só não esquecerei uma em especial, pelo trabalho e pela satisfação que me deu.

Nós, familiares dos presos políticos desaparecidos, pedíamos informações ao Governo sobre o destino dos nossos parentes. Quando o Ministro da Justiça, através do líder José Bonifácio, vem de público enumerar uma série de delitos praticados por eles. Eu não me conformei com aquelas informações. Achei que era o fim de tudo. Nós queríamos saber o paradeiro deles e não o que eles haviam praticado. Escrevi uma carta de contestação. Mas, como publicar minha carta? A censura não respeitava nem o malote dos deputados. Não tive dúvidas. Fui pelo caminho mais longo, mas o que me pareceu seguro. Viajei 20 horas até Brasília para entregar minha carta ao deputado Lysâneas Maciel. O deputado Lysâneas não se encontrava em Brasília, entreguei então a minha carta em mãos do deputado Fernando Lira. Mais 20 horas de volta. No meio do caminho, em uma parada de ônibus, comprei um jornal ‘O Estado de São Paulo’. Lá estava a minha carta publicada. Valeu-me uma grande satisfação no momento. Mas foi só. Porque até hoje estou esperando saber o que eles fizeram com minha filha Ísis (…)”.

Oficiosamente, Felícia e Edmundo souberam que Ísis esteve nos DOI-CODI do Rio de Janeiro e São Paulo, que em março esteve hospitalizada com uma crise renal, que passou pela base aérea de Cumbica, pelo CENIMAR e pelo Campo dos Afonsos. No dia 13/04/1972, a assistente social Maria do Carmo de Oliveira, lotada no Hospital da Marinha, no Rio, informou-lhe que Ísis estava presa na Ilha das Flores. Felícia estava acompanhada de Sônia, sua sobrinha. No dia seguinte, Maria do Carmo, Felícia e Sônia foram intimadas a comparecer ao I Exército, onde um coronel as recebeu com a notícia de que tudo não passava de um lamentável engano.

Em matéria do jornal Folha de São Paulo, em 28/01/1979, um general de destacada posição dentro dos órgãos de repressão confirmou a morte de Ísis e Paulo César, dentre outros 10 desaparecidos. No Arquivo do DOPS/PR, em uma gaveta com a identificação “falecidos” foi encontrada a ficha de Ísis. A única prova concreta obtida em todos esses anos de busca foi dada pelo ex-médico Amilcar Lobo, que servia ao DOI-CODI/RJ e que reconheceu a foto de Ísis dentre os presos que lá atendeu, sem precisar a data, em uma entrevista publicada pela IstoÉ de 08/04/1987. Os órgãos de segurança do regime militar acusavam a ambos de participação em ações armadas, inclusive do assalto à Casa de Saúde Dr. Eiras que resultou na morte de três vigilantes de segurança.

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Filiação: Zulmira Maria Teodora e Sebastião Veloso

Data e local de nascimento: 10/06/1930, Faria Lemos (MG)

Organização política ou atividade: PCB

Data e local de desaparecimento: 22/05/1975, Rio de Janeiro (RJ)

 

Desaparecido no Rio de Janeiro em 22/05/1975, o operário Itair José Veloso, nasceu na pequena cidade mineira de Faria Lemos bem na divisa tríplice com o Rio de Janeiro e Espírito Santo. Afrodescendente, trabalhou como montador de calçados e apontador de obras, profissão esta que o tornaria importante sindicalista.

Seu engajamento político remonta a 1953, período em que passou a integrar a Juventude do Partido Comunista. Em 1961, foi eleito para a direção do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Niterói e Nova Iguaçu, alcançando em seguida o posto de secretário-geral da Federação dos Trabalhadores da Construção Civil., Procurou manter a atividade profissional de apontador de obras, para não perder contato com sua base operária. Durante o governo João Goulart, Itair chegou a liderar uma delegação sindical brasileira que viajou para um encontro internacional de sindicalistas em Moscou.

Era casado com Ivanilda da Silva Veloso, com quem teve quatro filhas. Após abril de 1964, Itair sofreu perseguições e teve sua residência invadida pelo DOPS de Niterói, sendo saqueada pelos agentes policiais. Passou a ser processado pela Justiça Militar, o que o obrigou à militância política clandestina. O pouco que se sabe a respeito do desaparecimento de Itair é que, no dia 25/05/1975, às 7h30min, ele saiu de casa para encontrar companheiros do PCB e disse à sua mulher que voltaria ao meio-dia, para ir ao médico com ela. Desde então está desaparecido e seu nome faz parte da lista anexa à Lei nº 9.140/95. O Relatório do Ministério da Marinha, apresentado em 1993 ao ministro da Justiça Maurício Corrêa, registra a respeito de seu caso: “set/75 – está preso e sendo processado por atividades subversivas do PCB”.

Em entrevista à revista Veja, em 18/11/1992, o sargento Marival Chaves, testemunhou que pelo menos oito integrantes do PCB tiveram seus corpos atirados nas águas do Rio Novo, em Avaré, São Paulo. Marival disse também que Itair foi preso por agentes do DOI-CODI/SP, no Rio de Janeiro, durante a Operação Radar, acusado de integrar o Comitê Central do PCB. Na entrevista à Veja, o sargento Marival também afirma que Itair morreu de choque térmico, sob tortura, imerso em água gelada, numa casa de Itapevi, na Grande São Paulo. Seu corpo sem vida teria sido jogado da ponte, nas imediações de Avaré, a 260 quilômetros de São Paulo. Na revista, as palavras textuais do ex-agente do DOI-CODI/SP foram: “O corpo de Itair José Veloso também foi jogado da ponte. Ele foi preso no Rio pelo DOI de São Paulo. Era inverno de 1975 e o que o levou à morte foi banho de água gelada. Morreu de choque térmico”.

Como no caso dos demais desaparecidos políticos, a esposa de Itair, Ivanilda Veloso sustentou uma longa peregrinação buscando denunciar a prisão de seu marido, recorrendo à CNBB, a Dom Eugênio Sales, aos advogados Modesto da Silveira e Heleno Fragoso, a todas as portas possíveis. O documentário “Memória para Uso Diário”, realizado por Beth Formaggini para registrar os 21 anos de atividade do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, Inclui imagens sobre a saga de Ivanilda pesquisando documentos dos arquivos policiais em busca de informações, há 32 anos, sobre o marido desaparecido.

Em Belo Horizonte, existe hoje uma avenida, no Bairro das Indústrias, com o nome de Itair José Veloso, sendo que em 2004 ele foi um dos homenageados com a entrega da Medalha Tributo à Utopia, criada pela Câmara Municipal da capital mineira no ano anterior.

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Filiação: Nair Mota Dias e Lucas de Souza Dias

Data e local de nascimento: 29/10/1942, Passa Quatro (MG)

Organização política ou atividade: VPR

Data e local de desaparecimento: 15/05/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Seu nome integra a lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95. Era militante do VPR e documentos dos órgãos de segurança o acusam de participação em várias ações armadas no Rio de Janeiro, pelas quais foi processado e julgado à revelia em diferentes auditorias militares, inclusive do sequestro do embaixador suíço no Brasil, concluído em janeiro de 1971, quatro meses antes de sua prisão e desaparecimento.

Natural de Passa Quatro (MG), de uma família presbiteriana, cursou História na Universidade Federal Fluminense e militava no Movimento Estudantil. Deu aulas no curso pré-vestibular da Universidade. Terminaria sua graduação universitária em dezembro de 1968, mas dois meses antes foi preso no 30º Congresso da UNE, em Ibiúna (SP) e, depois de solto, teve a prisão preventiva decretada, passando a viver na clandestinidade. Durante esse período, fazia traduções e morava em um quarto alugado em uma pensão próxima à Central do Brasil, no Rio de Janeiro.

Sua prisão ocorreu no dia 15 de maio de 1971, no bairro carioca de Laranjeiras, por agentes do CISA. Alex Polari de Alverga, que estava preso na Base Aérea do Galeão, declarou ter ouvido o serviço de alto-falante da base anunciar a prisão de Ivan, conhecido como “Comandante Cabanos”.

Inês Etiene Romeu, em seu relatório sobre o período em que ficou sequestrada no sítio clandestino conhecido como “Casa da Morte”, em Petrópolis (RJ), declara que o carcereiro a quem conhecia como “Dr. Guilherme” lhe afirmou que Ivan iria ser preso e, posteriormente, o mesmo agente lhe disse que Ivan tinha sido morto.

Informados, no mesmo dia, por telefonema anônimo, a respeito da prisão do filho, seus pais foram ao Rio de Janeiro para buscar localizá-lo em alguma dependência dos órgãos de segurança. Foram ao DOI-CODI, ao I Exército, à Aeronáutica, ao DOPS, ao Exército em São Paulo e Belo Horizonte. Um habeas-corpus requerido em 22 de junho foi negado. Recorreram à Igreja Presbiteriana, à Igreja Católica, ao Conselho Mundial das Igrejas. Tiveram ajuda do deputado Lysâneas Maciel e também do advogado Marcelo Cerqueira, que seria mais tarde deputado federal pelo Rio de Janeiro.

Sua mãe, Nair Mota Dias, assim descreveu, em 1978, suas buscas e angústias, em depoimento publicado no livro de Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa: “Aí é que eu digo, o problema é o medo. Todo mundo tem medo. O medo traz muita desordem. As pessoas não querem se comprometer, e por isto não dão informações. Ninguém quer se meter, se complicar. Como é que some uma pessoa assim e ninguém viu? Ninguém sabe de nada? (…) Foi depois da morte de Lucas (seu marido, pai de Ivan, em agosto de 1974), quando o general Geisel assumiu, que eu escrevi uma carta para o Lysâneas. Foi em fevereiro, creio, os jornais diziam que o Geisel ia fazer e acontecer, houve uma esperança muito grande naquele momento. O MDB de São Paulo estava recebendo cartas de familiares de pessoas presas  ou sequestradas, e eu enviei para o Lysâneas, dizendo que não queria que soltassem meu filho, não; se ele tinha errado, eu queria que ele aparecesse e fosse julgado pelas leis do país. Mesmo pelas leis de exceção. Só queria isso: que ele aparecesse. Aí iria a julgamento. A gente poria um advogado e íamos ver. Mesmo morto, tinha que aparecer o corpo. Alguém tinha que assumir a responsabilidade. O que não podia era uma pessoa sumir de repente e ninguém saber de nada, ninguém se responsabilizar”.

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Filiação: Hermé Amorim de Miranda e Manoel Simplício de Miranda

Data e local de nascimento: 18/07/1926, Maceió (AL)

Organização política ou atividade: PCB

Data e local de desaparecimento: 04/02/1975, Rio de Janeiro (RJ)

 

Foi preso no Rio de Janeiro, em 04/02/1975, ao sair de sua casa no bairro do Catumbi. Nascido em Maceió (AL), jornalista e advogado, Jayme Amorim era membro do Comitê Central do PCB e seu nome consta na lista dos mortos e desaparecidos políticos do Anexo à Lei nº 9.140/95. Ocupou no PCB o importante posto de Secretário de Organização. Era casado e pai de quatro filhos.

Membro do PCB desde a juventude suspendeu seu curso de Direito, em Maceió, quando já estava no 3º ano, por orientação partidária, para ingressar na Escola de Sargento das Armas. Depois de três anos como sargento, retomou a Faculdade de Direito e colou grau em uma cerimônia em que seus colegas o protegeram para que não fosse preso pela polícia do autoritário governador Arnon de Mello, pai do ex-presidente Fernando Collor.

Como dirigente do PCB, Jayme esteve na União Soviética várias vezes e chegou a ter uma conversa direta com Mao Tse-tung, em Pequim, a respeito do conflito sino-soviético. Como era poliglota, vivendo como se fosse exilado em seu próprio país, Jayme traduzia clandestinamente textos para jornais importantes do Rio de Janeiro e de São Paulo, ganhando assim uma parte do sustento da família.

Em meados de 1973, Jayme foi enviado à União Soviética para tratamento de saúde, de onde retornou pouco antes de ser preso e desaparecer. Nessa época, devido às várias prisões ocorridas no alto comando do PCB, o partido já decidira pela sua saída definitiva do país. No entanto, em 04/02/1975, Miranda deixou sua casa no Catumbi, beijou o pai e irmã, que tinham vindo de Maceió para visitá-lo, e nunca mais foi visto.

O irmão de Jayme, o jornalista Haroldo Amorim de Miranda, em entrevista para o livro Desaparecidos Políticos, organizado por Reinaldo Lapa e Ronaldo Cabral, apresentou uma primeira hipótese sobre o desfecho e desaparecimento do corpo: “de acordo com informações filtradas nos subterrâneos da resistência comunista, junto com outros presos igualmente torturadas em São Paulo, Jayme teria sido jogado de um avião militar a 200 milhas da costa, no Oceano Atlântico”.

Jayme foi julgado à revelia na 2ª Auditoria da Marinha em setembro de 1978, juntamente com outras pessoas tidas como desaparecidas, acusadas de reorganizar o PCB: Orlando Bomfim, Luiz Inácio Maranhão, Hiran de Lima Pereira e Élson Costa. O Relatório do Ministério do Exército, apresentado em 1993 ao ministro da Justiça Maurício Corrêa, informa apenas que Jayme “esteve em Moscou e seu nome aparece em uma lista de brasileiros que passaram pelo aeroporto de Orly, em Paris, com destino aos países do leste europeu, em 1974. Usava o nome falso de Juarez Amorim da Rocha”. Já o Relatório do Ministério da Marinha, do mesmo ano, registra que, com data de agosto de 1979, “figurou em uma relação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro cassados pelo AI 1, 3 e 5 e desaparecido depois de ter sido preso”.

Em entrevista à revista Veja de 18/11/1992, do ex-agente do DOI-CODI/SP, Marival Chaves, o jornalista Expedito Filho faz a pergunta: “Voltando ao rio Avaré. O senhor falou em oito nomes, mas contou só seis”. E obtém como resposta: “Um é Jayme Amorim de Miranda, também preso na Operação Radar, em uma das incursões do DOI de São Paulo ao Rio. Foi Transferido para Itapevi. Seu irmão Nilson Miranda, que era secretário-geral do PCB de Porto Alegre, estava preso no Ipiranga. Um não sabia onde estava o outro. O Nilson sobreviveu”.

O jornalista Elio Gaspari também registra, em A Ditadura Encurralada, que Jayme teria sido visto no DOPS de São Paulo e que foi assassinado no aparelho do CIE em Itapevi.

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Filiação: Auricela Goulart Cerveira e Marcelo Pires Cerveira

Data e local de nascimento: 14/12/1923, Pelotas (RS)

Organização política ou atividade: FLN

Data e local de desaparecimento: 12 ou 13/01/1974, Rio de Janeiro (RJ)

 

Major da Cavalaria do Exército Brasileiro, Joaquim Pires Cerveira era gaúcho de Pelotas, casado com Maria de Lourdes Romanzini Pires Cerveira com quem tinha três filhos. Filho de militar e órfão de pai aos 07 anos, foi enviado com os quatro irmãos para o Colégio Militar de Porto Alegre, onde estudou em regime de internato. Formado em Odontologia pela Universidade de Coimbra, também se dedicou ao ensino de Matemática após cursar a Academia Militar de Agulhas Negras. Filiou-se ao Partido Comunista logo após a derrubada do Estado Novo, quando tinha apenas 13 anos. Engajou-se nas mobilizações nacionalistas dos anos 50 e participou da campanha presidencial do Marechal Lott, em 1955. Radicou-se com a família em Curitiba e, já licenciado do Exército, foi eleito vereador. Passou à reserva pelo primeiro Ato Institucional, de 09/04/1964, por força de seus vínculos políticos com Leonel Brizola e de seu alinhamento com o chamado nacionalismo Revolucionário.

Conforme documentos encontrados nos arquivos secretos do DOPS/SP, Cerveira já tinha sido preso uma vez no dia 21/10/1965, sendo encaminhado à 5ª Região Militar e entregue ao Coronel Fragomini. Em 29/05/1967 foi absolvido pelo Conselho Especial de Justiça da 5ª Circunscrição Judiciária Militar, da denúncia por crime de subversão. Os órgãos de segurança o acusavam de ter facilitado a fuga da prisão do coronel Jefferson Cardim Osório, que liderou uma tentativa de insurreição popular contra o regime militar no final de março de 1965, nas cidades gaúchas de Três Passos e Tenente Portela.

Cerveira foi preso novamente em abril de 1970, junto com sua mulher e um filho, pelo DOI-CODI/RJ, onde foi submetido a violentas torturas. Nessa época, liderava uma pequena organização clandestina denominada FLN – Frente de Libertação Nacional, que atuava muito ligada à VPR, tendo participado do levantamento conjunto e preparativos do sequestro do embaixador alemão, que realmente se concretizou em junho, dois meses depois de Cerveira estar preso e nada informar aos torturadores sobre a operação.

Joaquim Pires Cerveira foi vítima da “Operação Mercúrio”, que de certa forma antecipou a Operação Condor de 1975 e tinha por objetivo eliminar todos os banidos e ex-militares que tentassem voltar ao Brasil. Joaquim Cerveira tinha sido alvo de banimento, valendo o seu desaparecimento como mais uma confirmação de que os órgãos de segurança do regime militar teriam decretado a pena de morte para todos, dentre eles, que ousassem retornar clandestinamente ao Brasil. Foram sequestrados na Argentina em dezembro de 1973 e trazidos para o DOI-CODI do Rio de Janeiro, desaparecendo a partir de 12 ou 13/01/1974. Durante todo o ano de 1974 será mantida essa tônica: os órgãos de segurança não anunciam a morte de nenhum opositor; todos se tornam desaparecidos.

Cerveira tinha sido banido em junho de 1970, quando do sequestro do embaixador alemão. Seu nome faz parte da lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95.

Segundo informações constantes em processo, Joaquim Pires Cerveira e João Batista Rita, foram presos juntos, em Buenos Aires, a depender da fonte em 05 ou 11/12/1973, por policiais brasileiros, entre os quais estaria o delegado Sérgio Paranhos Fleury. Foram vistos por alguns presos políticos no DOI-CODI/RJ, quando chegaram trazidos por uma ambulância. Segundo a descrição das testemunhas, estavam amarrados juntos, em posição fatal, tendo os rostos inchados e com a cabeça repleta de sangue.

Leopoldo Paulino, ex-exilado político, músico e atualmente vereador pelo PSB em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, escreveu a respeito desses dois desaparecidos, em um texto de 2004: “No dia 11 de dezembro de 73, foi sequestrado em Buenos Aires o companheiro João Batista e juntamente com ele, o major Cerveira, exilado político brasileiro, cuja operação foi realizada em Buenos Aires pela polícia brasileira, com o aval dos órgãos de segurança do governo argentino. Os dois companheiros foram vistos pela última vez, por alguns presos políticos no DOI-CODI do Rio de Janeiro, já arrebentados pela tortura, nunca mais se conhecendo seu paradeiro”.

A nota oficial do ministro da Justiça Armando Falcão, de 1975, informou a respeito de Cerveira apenas que estava banido do país, nada esclarecendo sobre seu paradeiro. Nos arquivos secretos do DOPS/PR, o nome do major foi encontrado em uma gaveta com a identificação de “falecidos”.

A morte do Major Cerveira e de outros 11 desaparecidos foi confirmada em uma reportagem publicada no jornal Folha de S. Paulo, com base em entrevista com um general que participou diretamente do aparelho de repressão política. A esposa do Major Cerveira informou que no “dia 03/01/1974, recebemos um telefonema anônimo avisando que meu marido fora sequestrado em Buenos Aires, junto com outro brasileiro, João Batista Rita, também banido e vindo do Chile pelo mesmo motivo”.

Neusah Cerveira, pesquisadora universitária e filha do oficial desaparecido, descreve com detalhes a prisão do pai em Buenos Aires, apontando, no entanto, uma outra data para o sequestro: “… 05 de dezembro de 1973, o major Joaquim Pires Cerveira, 49 anos (usando por questões de segurança o nome de Walter de Souza ou Walter Moura Duarte) encontra João Batista de Rita Pereda, 25 anos, e sua esposa Amália (com quem estava casado há 15 dias, tendo como Padrinho o amigo Cerveira) se encontraram ao meio-dia para tratar de assuntos referentes à documentação, já que ambos estavam radicando-se na Argentina, vindos do Chile quando da deposição de Salvador Allende. Conversam um pouco e marcam na presença de Amália um novo encontro para às 18h do mesmo dia. Foram vistos no horário combinado por várias pessoas. 18:30h, esquina da Rua Corrientes, um carro com vários homens simula um atropelamento dos dois e na presença de testemunhas os leva sob protestos. Amália é alertada em Combate de los Pozos, onde viviam os exilados do Chile. 23h – Agentes da Repressão Argentina, acompanhados de brasileiros, chegam à casa onde Cerveira residia com uma família de amigos na Calle Horácio Quiroga. A família já estava preocupada com a demora de Cerveira, que tinha o hábito de sempre deixar um bilhete avisando onde ia e a que horas chegaria. Os agentes invadem a residência, vasculham tudo, levam pertences pessoais de Cerveira, que dizem estar sendo requerido pelas autoridades de seu país, o Brasil. Vão embora depois de muitas ameaças. 4 horas da manhã – os agentes voltam, desta vez comandados por um brasileiro com uma cicatriz no rosto (mais tarde identificado por fotografia pelas testemunhas como o delegado Sérgio Paranhos Fleury), agridem a família e procedem a nova busca de armas e documentos. Fleury mostra uma foto de Cerveira e diz à família que o mesmo já está detido e será levado para o Brasil. Antes de se retirar, o delegado Fleury deixa de ‘regalo’ para a menina mais jovem da família uma bala de revolver. Os moradores são novamente espancados e ameaçados. A última notícia que se tem é que ambos chegaram quase mortos em uma ambulância vinda da OBAN em SP para o DOI-CODI do RJ, na Rua Barão de Mesquita, na madrugada do dia 12/13 de janeiro de 1974, segundo testemunhos prestados à ONU. No dia 11 de dezembro de 1973, a Associação Gremial dos Advogados da Argentina denunciou o sequestro e protestou contra a violação da soberania nacional Argentina. Um advogado da Gremial, o Dr. Rossi, impetrou habeas-corpus para o major Cerveira, que resultou inútil”. 

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Filiação: Elza Joana dos Santos e João Vicente Vasconcelos Santos

Data e local de nascimento: 09/08/1949, Nazaré (BA)

Organização política ou atividade: PCdoB

Data e local de desaparecimento: 15/03/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

O nome de Joel também integra a lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95. Baiano de Nazaré das Farinhas, no Recôncavo, afrodescendente, trabalhou inicialmente como sapateiro e começou, muito jovem, a desenvolver interesse por questões políticas. Sua mãe, Elza Joana dos Santos, tornou-se, após o desaparecimento do filho, uma incansável ativista do movimento dos familiares de mortos e desaparecidos. Em 1966, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde Joel estudou contabilidade na Escola Técnica de Comércio, foi presidente da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas – AMES/RJ, em 1970, e diretor da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas – UBES, em 1970 e 1971. Quando de sua prisão e desaparecimento, estava vinculado à União da Juventude Patriótica, organizada pelo PCdoB.

Joel Vasconcelos e Antônio Carlos da Silva foram presos nas imediações do Morro do Borel, na esquina das Ruas São Miguel e Marx Fleuiss, no Rio de Janeiro, em 15/03/1971, por uma ronda policial que desconfiou serem ambos traficantes de drogas. Por mais de três meses Joel e “Makandal”, como era conhecido Antônio Carlos, ficaram detidos e incomunicáveis.

Aos apelos de Elza Joana, os agentes da PE e os oficiais do Ministério do Exército com os quais conseguiu falar, responderam com evasivas. Primeiro confirmaram a prisão, mais tarde negaram e, pouco depois, informaram que ele já havia sido liberado. Mas os dois continuavam detidos. Elza Joana apelou a Dom Eugênio Salles, Dom Ivo Lorscheiter, aos jornalistas Sebastião Nery e Evaldo Diniz, ao presidente da OAB, ao senador Danton Jobim, ao deputado Chico Pinto e ao professor Cândido Mendes. Após enviar carta ao presidente da República, Garrastazu Médici, recebeu em sua casa uma visita de agentes do DOPS, que a levaram até o gabinete do general Sizeno Sarmento. O comandante do I Exército prometeu esclarecer completamente o episódio, mas nada foi informado.

Makandal conta que ele e Joel conversavam em uma esquina, quando passou o carro da polícia. Joel assustou-se e comentou que havia documentos políticos nos pacotes que carregava. Os policiais armados cercaram os dois e revistaram os pacotes. Foram algemados e levados ao 6º Batalhão da PM e, em seguida, ao quartel da PM na Rua Evaristo da Veiga. De lá, foram encaminhados à Polícia do Exército, onde Joel permaneceu até o seu desaparecimento, sob constantes interrogatórios durante os quatro meses em que Makandal esteve preso. O preso político Luiz Artur Toríbio, em seu depoimento na auditoria Militar, denunciou que um dos policiais do DOI-CODI/RJ afirmou ”que se não confessasse teria o mesmo fim que ‘Joel Moreno’, que foi morto por policiais do DOI do RJ”.

Em depoimento transcrito no livro Desaparecidos Políticos, de Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, depois de descrever os espancamentos sofridos por ambos desde o momento da prisão e nas duas unidades da PM por que passaram antes de serem conduzidos ao Exército, Makandal relata: “Lá, na PE, começou tudo muito tranquilo ao ponto de a gente imaginar que não iríamos ser torturados. Caiu a noite e começamos tudo novamente. (…) Era pau-de-arara, choque e tudo o mais. Um mês nesse sofrimento e nós já estávamos com queimaduras por todo o corpo em virtude dos choques elétricos. Levaram então o Joel para a ‘esticadeira’, com uma pedra amarrada nos testículos. Fiquei apavorado e me trancafiaram numa ‘geladeira’. Depois me pegaram para assistir às torturas de Joel e me fizeram um montão de perguntas”.

Registros oficiais comprovando a prisão de Joel somente foram localizados em 1991, após a abertura dos arquivos do DOPS/RJ, onde foi encontrado documento do Serviço de Informações do Estado Maior da PM/2, do então Estado da Guanabara, datado de 17/03/1971, que confirma a prisão de Joel em 15/03/1971, descrevendo, inclusive, o material impresso com ele apreendido e, também, seu primeiro depoimento, quando informou o endereço da própria residência. Documentos do DOI-CODI do I Exército de 15/03/1971 e de 19/03/71 também trazem declarações de Joel. O Relatório apresentado pela Marinha, em 1993, ao ministro da Justiça Maurício Corrêa, informa que Joel foi “preso em 15/03/1971 e transferido para local ignorado”.

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Filiação: Rosa Leal Gonçalves Pereira e Enéas Gonçalves Pereira

Data e local de nascimento: 26/12/1938, Salvador (BA)

Organização política ou atividade: AP

Data e local de desaparecimento: 20/10/1970, Rio de Janeiro (RJ)

 

Desaparecido político, seu nome integra a lista anexa à Lei nº 9.140/95. Baiano de Salvador, engenheiro eletricista, trabalhou na Petrobras, na Refinaria de Mataripe, sendo preso em abril de 1964 e, nesse mesmo ano, demitido da empresa estatal. Foi casado com Ana Néri Rabello Gonçalves Pereira, com quem teve quatro filhos. Após ser liberado, trabalhou na Coelba – Companhia de Eletricidade da Bahia.

Foi sequestrado na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, Rio de Janeiro, no dia 20/10/1970, por agentes do DOI-CODI/RJ. Levado para aquele destacamento no Batalhão de Polícia do Exército, foi acareado com o estudante Marco Antônio de Melo, com quem tinha marcado um encontro de Rua. Cecilia Coimbra, psicóloga e fundadora, mais tarde, do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, presa no DOI-CODI/RJ naquele momento, viu Jorge sendo levado para interrogatório.

Em 06/12/1971, o advogado de Jorge Leal conseguiu a suspensão da audiência de um processo na 1ª Auditoria da Aeronáutica, no Rio de Janeiro, com 63 réus acusados de pertencerem à AP, pelo fato de seu constituinte não ter sido apresentado ao tribunal, mesmo estando preso conforme informações de outros acusados. O Conselho de Justiça decidiu ouvir, então, o depoimento de Marco Antonio de Melo, que confirmou a prisão de Jorge no DOI-CODI. Mesmo assim, o I Exército oficiou à Auditoria da Aeronáutica negando o fato.

Em novembro de 1972, a mãe de Jorge Leal, senhora Rosa Leal Gonçalves Pereira, enviou uma carta, que não obteve resposta, à esposa do presidente da República, senhora Scycla Médici, com o seguinte teor:

“Há dois anos meu filho Jorge foi preso na Guanabara. Jorge é casado, tem quatro filhinhos e eu, como mãe e avó, venho lhe pedir para ter pena destas crianças que ainda tão pequenos estão privadas do seu amor e do seu corinho. Os meninos têm 8, 6, 4 e 2 anos. (…) E a menina está com 2 anos e meio, e esta não conhece seu pai. D. Scyla, perdoe-me tomar algum tempo seu para me ouvir, mas acho que não tenho outra pessoa a quem me dirigir. Assim faço neste momento, lhe dirijo o pedido de uma mãe e avó à outra: onde está Jorge?”

Nos arquivos do DOPS/PR o nome de Jorge figura numa gaveta com a identificação de “falecidos”. Em 08/04/1987, a revista IstoÉ, na matéria “Longe do Ponto Final”, publicou revelações de Amilcar Lobo, médico cassado pelo Conselho Federal de Medicina em 1989 por participar das sessões de tortura, que afirmava ter visto Jorge no DOI-CODI/RJ, sem precisar a data. A morte de Jorge e de mais outros 11 desaparecidos foi confirmada por um general entrevistado pelo jornal Folha de S. Paulo, no dia 28/01/1979, cujo nome não foi publicado.

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Filiação: Maria Joana Conceição e Antônio Joaquim da Silva

Data e local de nascimento: 02/05/1930, Timbaúba (PE)

Organização política ou atividade: VAR-Palmares

Data e local de desaparecimento: 31/05/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Dirigente da VAR-Palmares conhecido como Loyola, seu nome também faz parte da lista anexa à Lei nº 9.140/95, que relacionou 136 desaparecidos políticos cuja responsabilidade pelas mortes foi assumida automaticamente pelo Estado brasileiro com a publicação da lei. Preso por agentes do DOI-CODI em 01/05/71, na estação rodoviária de Recife, foi levado para o Rio de Janeiro, São Paulo e de volta ao Rio de Janeiro, onde desapareceu.

Afrodescendente, filho de uma família camponesa pobre, começou a trabalhar aos 12 anos como assalariado agrícola e, em seguida, como operário da indústria de calçados. Estudou apenas até a 3ª série ginasial. Em 1951, casou-se com Paulina Borges da Silva, com quem teve sete filhos. Militante do PCB, a partir de meados dos anos 50, integrou o Comitê Municipal de Recife. Já em 28/10/1954 enfrentou uma primeira experiência de prisão, em Timbaúba (PE), por “atividade subversiva”, sendo liberado três dias depois. Foi novamente detido em 05/05/1956.

Em 1961, foi eleito secretário do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Timbaúba. Em 1963, era membro do Secretariado Nacional das Ligas Camponesas, que ajudou a implantar na Bahia, Rio de Janeiro, Maranhão e Piauí. Em 1963, instalou-se em Brasília, tendo participado no apoio à rebelião dos sargentos da Aeronáutica, ocorrida na capital federal em setembro daquele ano. Após a deposição de João Goulart, em abril de 1964, mudou-se com a família para Goiás, onde trabalhou na agricultura. Em 1966, foi decretada sua prisão preventiva e, desde então, passou a viver na clandestinidade. Militou também no PCdoB e ligou-se à AP em 1967, sendo o quadro mais importante de sua Comissão de Assuntos Camponeses. Em 1968, sai da AP e mais tarde, incorpora-se à VAR-Palmares, integrando o seu Comando Nacional a partir de 1969.

Inês Etienne Romeu, em seu relatório de prisão, afirma que esteve com Mariano no sítio clandestino de Petrópolis (RJ), conhecido como “Casa da Morte”. Inês disse ter estado com Mariano três vezes, duas na presença dos carcereiros e uma a sós. Mariano lhe contou que permaneceu 24 horas preso em Recife, de onde chegou com o corpo em chagas. Em Petrópolis, foi interrogado durante quatro dias ininterruptamente, sem dormir, sem comer e sem beber. Permaneceu na casa até o dia 31 de maio, fazendo todo o serviço doméstico, inclusive cortando lenha para a lareira. Inês afirma, ainda, que teve contato com Mariano até o dia 31 de maio, quando, na madrugada, ouviu uma movimentação estranha e percebeu que ele estava sendo removido. No dia seguinte, indagou a seus carcereiros sobre Mariano, os quais lhe disseram que ele havia sido transferido para o quartel do Exército no Rio de Janeiro. Desde então, nada mais se soube de seu paradeiro. Em princípio de julho, o carcereiro conhecido por Inês como “Dr. Teixeira” lhe disse que Mariano fora executado, pois pertencia ao comando da VAR-Palmares e era considerado irrecuperável.

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Filiação: Julieta Alves de Souza e Romualdo Leal Vieira

Data e local de nascimento: 14/06/1923, Sento Sé (BA)

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local de desaparecimento: 17/01/1970, Rio de Janeiro (RJ)

 

Jornalista, fundador e principal dirigente do PCBR, foi morto em 17/01/1970, no Rio de Janeiro, aos 46 anos, sob brutais torturas. Seu nome integra a lista de desaparecidos anexa à Lei nº 9.140/95. Baiano de Sento Sé, fez o curso secundário em Salvador, iniciou sua militância política aos 16 anos e foi um dos fundadores da União dos Estudantes da Bahia. Durante o Estado Novo, participou de congressos e atividades da UNE. Formou-se em Letras, em Salvador, mas nunca chegou a buscar o diploma.

Ingressou no PCB e, em 1945, passou a integrar seu Comitê Estadual na Bahia, sendo eleito em 1957 para o Comitê Central. Nos anos seguintes, atuaria como dirigente comunista no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Dirigiu os jornais Novos Rumos e Imprensa Popular. Após abril de 1964, tornou-se um dos líderes da corrente de esquerda dentro do PCB. Atuando nas difíceis condições de clandestinidade, foi preso, em julho de 1964, no Rio de Janeiro, sendo libertado somente um ano depois por concessão de habeas-corpus. Em 1966, teve os direitos políticos cassados por 10 anos. Em 1968, ao lado de Apolônio de Carvalho e outros membros dissidentes da direção do PCB, fundou o PCBR.

Em 16 de janeiro de 1970, perto das 20 horas, saiu de sua casa, no subúrbio carioca de Abolição, e nunca mais voltou. Foi preso pelo DOI-CODI/RJ nessa data e morreu no dia seguinte nas dependências do quartel da Rua Barão de Mesquita. As ilegalidades que cercaram a prisão e assassinato do jornalista começaram a ser levadas ao conhecimento das autoridades judiciárias do regime militar em 20/07/1970, denunciadas por presos políticos. Entretanto, o crime nunca foi apurado.

Em depoimento à 2ª Auditoria do Exército, no Rio de Janeiro, em 20/07/1970, Salatiel Teixeira Rolins, que seria morto por seus próprios companheiros após ser solto, “afirma que pertencia ao PCBR, tendo presenciado o espancamento e tomou conhecimento da prisão do jornalista Mário Alves no dia 16/01/1970, que faleceu em vista de brutal espancamento que recebera e pela introdução em seu ânus de um pedaço de vassoura”.

René Louis Laugery de Carvalho, também em depoimento na mesma auditoria militar, em 20/07/1970 afirmou “que tomou conhecimento, durante os 26 dias que permaneceu naquela unidade (…) da morte de Mário Alves, em consequência de hemorragia interna, decorrente de torturas”.

Carta endereçada ao então presidente da OAB, Eduardo Seabra Fagundes, em 15/07/1980, pelo advogado Raimundo José Barros Teixeira Mendes, denuncia que, no dia 16/01/1970, por volta das 20 horas, Mário Alves chegou preso ao local onde ele também estava detido, o quartel da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, tendo ouvido todo o interrogatório, que se estendeu até cerca de 4 horas da manhã. Declarou que viu Mário Alves pendurado no pau-de-arara e ser carregado da cela já quase sem vida.

Sua esposa, Dilma Borges Vieira, foi uma das precursoras do movimento dos familiares de mortos e desaparecidos. Esteve em todos os possíveis lugares onde pudesse buscar notícias e denunciar o desaparecimento do marido – na Marinha, Aeronáutica, IML, cemitérios. O então comandante do DOI-CODI/RJ chegou a dizer-lhe que ele também buscava Mário Alves.

A carta que escreveu em 29/09/1970 a Aparecida Gomide, esposa do cônsul brasileiro sequestrado no Uruguai pelo movimento guerrilheiro Tupamaro, compõe um dramático relato da época:

“Todos conhecem seu sofrimento, sua angustia. A imprensa falada e escrita focaliza diariamente o seu drama. Mas do meu sofrimento, da minha angustia, ninguém fala. Choro sozinha. Não tenho os seus recursos para me fazer ouvir, para dizer também que ‘tenho o coração partido’, que quero meu marido de volta. O seu marido está vivo, bem tratado, vai voltar. O meu foi trucidado, morto sob tortura, pelo 1º Exército, foi executado sem processo, sem julgamento. Reclamo seu corpo. Nem a Comissão de Direitos da Pessoa Humana me atendeu. Não sei o que fizeram dele, onde o jogaram”.

Em A Ditadura Escancarada, Elio Gaspari narra da seguinte forma as condições da morte de Mário Alves:

“No fundo do corredor havia cinco pequenas celas, cada uma com um colchão de palha no chão, um buraco sanitário no fundo e uma janela gradeada perto do teto. Nelas ficavam os presos que a qualquer momento poderiam ser levados para a Sala Roxa. Não porque houvesse tanta pressa em trazê-los, mas para que ouvissem o que acontecia ao lado. Numa dessas masmorras estava Antônio Carlos de Carvalho. Noutra, Raimundo Teixeira Mendes, eles ouviram:

- ‘Teu nome completo é Mário Alves de Souza Vieira?’

- ‘Vocês já sabem’.

- ‘Você é o secretário-geral do comitê central do PCBR?’

- ‘Vocês já sabem’.

- ‘Será que você vai dar uma de herói?’

Mário Alves ficou oito horas na Sala Roxa. No início da manhã seguinte o cabo da guarda chamou quatro prisioneiros para limpá-la. Num canto, havia um homem ferido. Sangrava pelo nariz e pela boca. Tinha sido empalado com um cassetete. Dois outros presos, militantes do PCBR, reconheceram-no, deram-lhe de beber e limparam-lhe o rosto”.

No livro Combate nas Trevas, Jacob Gorender, também dirigente do PCBR e preso quatro dias depois, acrescenta sobre as torturas:

“Horas de espancamentos com cassetetes de borracha, pau-de-arara, choques elétricos, afogamentos. Mário recusou dar a mínima informação e, naquela vivência de agonia, ainda extravasou o temperamento através de respostas desafiadoras e sarcásticas. Impotentes para quebrar a vontade de um homem de físico débil, os algozes o empalaram usando um cassetete de madeira com estrias de aço. A perfuração dos intestinos e, provavelmente, da úlcera duodenal, que suportava há anos, deve ter provocado hemorragia interna”.

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Filiação: Jacinta Tolchinsky e Leon Pinus

Data e local de nascimento: 30/01/1953, Buenos Aires (AR)

Organização política ou atividade: Montoneros

Data e local de desaparecimento: 12/03/1980, Rio de Janeiro (RJ)

 

Mônica Susana integrava o Movimento Peronista Montoneros, que mantinha resistência armada à ditadura militar argentina. No dia 12/03/1980, voltavam do exílio, Mônica Susana e Horacio Domingo Campiglia, para a Argentina, tendo saído da cidade do México na véspera, num voo da empresa aérea venezuelana Viasa, que fazia conexão em Caracas com um voo da Varig rumo ao Rio de Janeiro. Usavam passaportes falsos e foram sequestrados no aeroporto do Galeão.

Seus nomes não faziam parte da lista de desaparecidos políticos organizada pela Comissão de Familiares por falta de informações precisas no Brasil, apesar das denúncias quanto ao desaparecimento de Campiglia e Mônica terem sido feitas em 1980 ao Comitê Brasileiro pela Anistia de São Paulo e ao CBR – Comitê Brasileiro de Solidariedade aos Povos da América Latina, que atuou em São Paulo.

Mônica era casada com Edgardo Ignácio Binstock com quem teve dois filhos. Edgardo aguardava a mulher no Rio de Janeiro. Desde 2005, Edgardo é secretario de Direitos Humanos da Província de Buenos Aires.

As denúncias do sequestro foram registradas em requerimentos e amplamente divulgadas pela imprensa nacional e argentina a partir de então, foram comprovadas em 2002, quando o Ministério de Justiça e Direito Humanos argentino recebeu farta documentação do Departamento de Estado dos EUA relacionada com violações dos Direito Humanos pelo Estado argentino durante o período de 1975 a 1984.

A referida documentação foi tornada pública sob os auspícios do Freedon of Information Act, tornando-se disponível no endereço eletrônico www.foia.state.gov e contém provas sobre o envolvimento de autoridades brasileiras no sequestro. Dentre os documentos tornados públicos, destaca-se um memorando datado de 07/04/1980, dirigido ao embaixador dos Estados Unidos em Buenos Aires por James J. Blystone, Regional Security Official daquela Embaixada, a respeito de um diálogo mantido com um agente da inteligência argentina. Tal documento não cita órgãos ou pessoas, mas implica diretamente os serviços de inteligência brasileiros na operação que resultou no sequestro dos dois cidadãos argentinos no Rio de Janeiro.

James Blystone manteve reunião com um membro do serviço de Inteligência da Argentina para discutir diversos temas. No início, perguntou ‘brincando’ o que tinha acontecido com os dois Montoneros que tinham desaparecido entre o México e o Rio de Janeiro. A fonte respondeu que diria oficialmente, já que era informação ultrassecreta. Informou que o Batalhão 601 tinha prendido um Montonero e durante interrogatório souberam da reunião que ele teria no Rio de Janeiro com membros da organização vindos do México, citando Susana de Binstock e Horácio Campiglia, o quarto ou quinto na estrutura montonera, e que tinha sob sua responsabilidade a totalidade das operações chamadas TEI – Tropas Especiais de Infantaria – unidade especial dos Montoneros organizada a partir de base no México.

Integrantes do batalhão 601 fizeram contato com seu colega da Inteligência militar brasileira, solicitando permissão para realizar uma operação no Rio de Janeiro. O Brasil deu permissão e uma equipe especial de agentes argentinos, sob o comando do tenente-coronel Román, viajou ao Rio de Janeiro em um C-130 da Força Aérea Argentina, tendo capturado com vida os dois militantes, levando-os sequestrados para a Argentina. Tentando não alertar os Montoneros da operação realizada no Brasil, os argentinos responsáveis pela prisão clandestina ainda cuidaram de hospedar um casal de argentinos num hotel, registrando-os com os documentos falsos de Monica e Horácio, o que terminou deixando rastros do desembarque no Brasil. O documento conclui afirmando que Monica e Horácio estavam presos no Campo de Mayo – centro clandestino de repressão da Argentina.

Esse documento representou a prova substancial utilizada pelo juiz argentino Cláudio Bonadio, para proferir sentença que versa sobre o desaparecimento de 20 Montoneros e ordena a prisão preventiva do ex-presidente Leopoldo Galtieri e de outros 26 integrantes dos órgãos de segurança do país vizinho. Os documentos apontam como responsável pelas operações secretas o Batalhão de Inteligência 601, que era comandado pessoalmente por Leopoldo Galtieri.

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Filiação: Maria Mercedes Gómez e Armando Hebegger

Data e local de nascimento: 09/08/1941, Arrecifes, Província de Buenos Aires (AR)

Organização política ou atividade: Montoneros

Data e local de desaparecimento: 31/07/1978, Rio de Janeiro (RJ)

 

Norberto era cidadão argentino, jornalista, ensaísta e escritor. Desapareceu em 31/07/1978, quando chegou ao Rio de Janeiro proveniente da cidade do México. Seu nome consta no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos e na lista anexa à Lei nº 9.140/95. Em 1964, era secretário-geral da Juventude Democrata-Cristã na Argentina e foi um dos fundadores do Partido Peronista Autêntico, braço político dos Montoneros. Era casado com Florinda Castro e tinha um filho. Vivia no México desde 1977.

Em 30 de julho embarcou às 14 horas, na cidade do México, para o Rio de Janeiro, em um voo da Panam. Desapareceu no Rio, depois de manter contato telefônico com seus companheiros na Espanha. Usava um passaporte com o nome de Hector Esteban Cuello. Seu desembarque no Rio de Janeiro, no dia seguinte, foi confirmado pelo embaixador da Argentina no Brasil. Oswaldo Camchion, que escreveu carta afirmando que uma pessoa argentina de nome Hector Esteban Cuello deu entrada em território brasileiro. Desde então, Norberto não foi mais visto. Gestões feitas junto às autoridades brasileiras em nada resultaram a respeito do seu paradeiro.

No relatório constante do registro nº 1713 da Conadep argentina – Comision Nacional sobre la Desaparecion de Personas, consta que testemunhas afirmaram que o sequestro foi planejado pelos órgãos de segurança argentinos no centro clandestino El Banco, envolvendo os serviços de inteligência brasileiros, que o teriam torturado antes de entregá-lo aos policiais argentinos. Em dezembro de 1978, teria sido visto, vivo, em um centro clandestino argentino. Segundo outros testemunhos, o sequestro aconteceu no dia 03 de julho, no Rio de Janeiro.

O depoimento de sua esposa à Conadep fixa o desaparecimento como tendo ocorrido no Brasil, presumivelmente no Rio de Janeiro, em 31 de julho ou 1º de agosto de 1978. Conta que ele estava trabalhando como jornalista no México desde junho de 1977 e que ela já tinha apresentado denúncia sobre o desaparecimento à OEA, à ACNUR, ao Vaticano e à Anistia Internacional.

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Filiação: Maria Gasparini Bomfim e Orlando da Silva Rosa Bomfim

Data e local de nascimento: 14/01/1915, Santa Teresa, (ES)

Organização política ou atividade: PCB

Data e local de desaparecimento: 08/10/1975, Rio de Janeiro (RJ)

 

Capixaba de Santa Teresa e também membro do Comitê Central do PCB, começou seus estudos em Vitória e se mudou para Belo Horizonte, onde cursou Direito na Universidade Federal de Minas Gerais. Também exerceu a profissão de jornalista, tornando-se, ainda jovem, secretário de redação no Estado de Minas. Em 1946, foi eleito vereador em Belo Horizonte, tendo sido líder da bancada comunista na Câmara de Vereadores.

Foi um dos signatários do Manifesto dos Mineiros, em outubro de 1943, documento esse que acelerou a derrubada do Estado Novo. Foi marcante a sua participação como advogado dos trabalhadores da Mina do Morro, em Conselheiro Lafaiete (MG), numa greve que durou 43 dias. Morou com eles durante o movimento e passou a ser procurado com virulência pela polícia de Minas Gerais. Em 1958, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde dirigiu sucessivamente duas publicações do PCB, Imprensa Popular e Novos Rumos.

Orlando era casado com Sinésia de Carvalho Bomfim e pai de seis filhos. No dia 08/10/1975, dezessete dias antes da morte de Vladimir Herzog, um filho de Orlando Bomfim recebeu telefonema anônimo, em que algum amigo de seu pai comunicava a prisão de Orlando e pedia que a família contratasse um advogado e comunicasse o fato à ABI – Associação Brasileira de Imprensa. Imediatamente, os filhos e o Comitê Central do PCB mobilizaram-se para localizá-lo. Orlando tinha sido preso na tarde daquele dia, no Rio de Janeiro, nas proximidades de Vila Isabel.

Foi impetrado um habeas corpus em seu favor junto ao Superior Tribunal Militar pelo advogado Humberto Jansen Machado, da ABI. No dia 13, o advogado entrou com uma petição na 2ª Auditoria da Marinha, onde Orlando tinha um mandato de prisão preventiva decretado. Cartas foram enviadas ao MDB, ao Ministro da Justiça e a parlamentares. Contatos foram feitos com a OAB, CNBB, Comitê Brasileiro pela Anistia de São Paulo, Comissão Justiça e Paz do Rio de Janeiro e de São Paulo, cardeal Dom Eugênio Sales, sem conseguir qualquer informação oficial a respeito de seu paradeiro. O deputado Getúlio Dias, na liderança do MDB na Câmara, denunciou da tribuna mais esse desaparecimento.

No dia 31 de outubro, durante a comoção nacional provocada pela morte de Vladimir Herzog, a família recebeu a informação, através de amigos e de áreas militares, de que ele estava preso no DOI-CODI/RJ. Todos os contatos foram retomados. Novas cartas foram despachadas e a ABI, solicitada, enviou um pedido de informação ao comandante do I Exército, general Reynaldo Mello de Almeida. Mas, onze dias depois, o I Exército informava que ele não estava e nuca estivera lá. A resposta de outras áreas militares seria idêntica, ninguém assumia sua prisão. O comunicado oficial do general Reynaldo, que seria posteriormente presidente do STM, foi particularmente frustrante para a área sensível aos Direitos Humanos, visto que sua nomeação para o comando regional do Exército tinha gerado expectativas otimistas pelo fato de ser filho de um dos grandes nomes da literatura brasileira, José Américo de Almeida. Numa abordagem que seria soterrada depois que a abertura democrática permitiu a revelação de uma boa parte do ocorrido nos porões da ditadura, sua nota oficial pontificava: “O Exército brasileiro conhece perfeitamente sua destinação constitucional e jamais se afastaria das normas legais vigentes, principalmente na salvaguarda e preservação dos legítimos direitos dos cidadãos e da própria Pátria”.

No dia 27 de novembro surgiu o primeiro boato sobre o destino de Orlando Bomfim. O jornal O Estado de São Paulo recebeu um telefonema anônimo informando que ele estava morto, no mesmo dia, a sucursal carioca da Folha de S. Paulo recebia um telex informando sobre sua morte na prisão, durante interrogatório. De acordo com declarações do ex-sargento do DOI-CODI/SP, Marival Dias Chaves do Canto, (Veja de 18/11/1992), Orlando foi morto com uma injeção para matar cavalos. Foi capturado no Rio de Janeiro pelo DOI-CODI de São Paulo e levado para um cárcere na rodovia Castelo Branco, onde foi executado, sendo seu corpo jogado na represa de Avaré, no trecho entre a cidade de Avaré (SP), e a rodovia Castelo Branco. Nos documentos encontrados nos arquivos secretos do DOPS/SP é possível ler as seguintes informações sobre Orlando Bomfim: “14/7/64 – Cassado pelo AI-1 de 1964; – 1/6/71 – foi condenado a 7 anos de prisão pela Auditoria da 4ª RM. – 22/9/78 – O Conselho Permanente de Justiça da 2ª Auditoria da Marinha o absolveu por insuficiência de provas”.

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Filiação: Laís Maria Botelho Massa e Cristovan Sanches Massa

Data e local de nascimento: 05/10/1945, Rio de Janeiro, (RJ)

Organização política ou atividade: ALN

Data e local de desaparecimento: 30/01/1945, Rio de Janeiro (RJ)

 

Militante da ALN, residia com Ísis Dias de Oliveira na mesma casa no Rio de Janeiro, Paulo César e Ísis foram presos no dia 30/01/1972, pelo DOI-CODI/RJ. Seus nomes integram a lista desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95.

Carioca, Paulo César cursou o 1º grau na Escola Argentina e na Escola Marechal Trompovsky, em sua cidade natal. Fez o 2º grau no Ginásio Santo Antônio, em São João Del Rey e no Colégio Mello e Souza. Sua mãe contava, com orgulho, que o filho ganhou o primeiro prêmio num concurso literário promovido pela Prefeitura do Rio sobre o Dia das Mães, quando fizeram parte do júri Manoel Bandeira e Dinha Silveira de Queiroz. Trabalhou no Banco do Brasil, onde entrou por concurso aos 16 anos. Depois de cumprir o serviço militar, foi trabalhar na agência Paranaguá. Em 1968, iniciou o curso de Ciências Econômicas, na antiga Universidade do Estado da Guanabara, hoje UERJ, passando a participar do Diretório Acadêmico e do Movimento Estudantil. Em 20/03/1969, foi preso pela primeira vez, pelo DOPS/RJ, para averiguações sobre essas atividades. Respondeu a vários processos, sendo absolvido em todos. Em 15 de novembro de 1971, desligou-se do Banco do Brasil e passou a atuar na clandestinidade. Filho do general Cristóvão Massa, e com outros três tios generais, Paulo era chamado pelos companheiros de “general”.

Paulo continuava frequentando a casa dos pais, onde esteve pela última vez um dia antes da prisão. Quatro dias depois, três policiais que se identificaram como sendo do DOPS revistaram a residência na busca de uma metralhadora. Levaram roupas do filho, o que constitui indício eloquente de que ele se encontrava preso. Um deles entregou-lhes um cartão com o nome de Otávio K. Filho, pessoa que nunca mais conseguiram encontrar. O general Massa recorreu aos seus colegas de farda, mas terminaria ouvindo de um deles a terrível frase: “Esqueça o Paulo Massa”. Os pais não obedeceram e o procuraram incansavelmente. O general Massa se emocionou ao saber que o filho tinha codinome de “general” e lembrava que, em 1º de abril de 1964, tinha se apresentado com ele no Palácio da Guanabara, dispostos ambos a defender de armas na mão o regime militar.

Em matéria do jornal Folha de S. Paulo, em 28/01/1979, um general de destacada posição dentro dos órgãos de repressão confirmou a morte de Ísis e Paulo César, dentre outros 10 desaparecidos. Os órgãos de segurança do regime militar acusavam a ambos de participação em, ações armadas, inclusive do assalto à Casa de Saúde Dr. Eiras que resultou na morte de três vigilantes de segurança.

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Filiação: Maria do Carmo Costa Barros e Othon Ribeiro Bastos

Data e local de nascimento: 16/02/1945, Juiz de Fora, (MG)

Organização política ou atividade: MR-8

Data e local de desaparecimento: 11/07/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

Militante do MR-8 foi preso juntamente com Sérgio Landulfo Furtado, de acordo com as informações que puderam ser colhidas, em 11/07/1972, no bairro da Urca, Rio de Janeiro. Há duas versões sobre os fatos: ou foram presos no próprio apartamento em que residiam, ou conseguiram escapar dali e se refugiaram em um ônibus que foi interceptado adiante, em uma barreira dos agentes dos órgãos de segurança que fechava a única saída daquele bairro densamente habitado por oficiais. Foram levados ao DOI-CODI/RJ, sendo torturados e mortos. Os dois nomes integram a lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95.

Paulo era nascido em Juiz de Fora e filho do general de divisão do Exército Othon Ribeiro Bastos. Cursou o 1º e o 2º graus no Colégio Militar do Rio de Janeiro, ingressando na Faculdade de Engenharia da UFRJ. Concluiu sua graduação acadêmica em 1970 e trabalhou como engenheiro hidráulico no departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS). Era casado com Tereza Cristina Denucci Martins. Estava atuando na clandestinidade e respondeu a vários processos por integrar o MR                                                                          8. No “livro negro” do Exército consta que ele teria participado, em 22/11/1971, de assalto a um carro forte da empresa Transport, em Madureira, quando um dos guardas foi morto e outros três baleados.

Denúncias sobre a prisão dos dois militantes foram feitas nas auditorias militares por Paulo Roberto Jabour, Nelson Rodrigues Filho, Manoel Henrique Ferreira e Zaqueu José Bento. Em 1978, o ministro do STM general Rodrigo Otávio Jordão requereu ao tribunal que fosse investigado o desaparecimento de Paulo e de Sérgio, mas nada foi apurado.

O livro Desaparecidos Políticos, de Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, transcreve depoimento do preso político Paulo Roberto Jabour, escrito em 20/02/1979, quando se encontrava recolhido ao Presídio Milton Dias Ferreira, no Rio de Janeiro. Jabour reporta que “Durante o período inicial de minha prisão, tive algumas indicações sobre a prisão e morte de Paulo e Sérgio. Citarei aqui algumas delas: 1) Já transferido para o 1º Batalhão de Guardas, em São Cristóvão, fui chamado, certo dia, no começo de agosto de 1972, à presença de um elemento pertencente aos órgãos de segurança que, de posse de uma fotografia de Paulo, pediu que eu o identificasse como sendo o militante que usava o codinome de Luís, pois isto, segundo ele, melhoraria a situação de Paulo, seria melhor para ele. Presenciou esta entrevista o major Diogo, S-2 do citado quartel; 2) Ainda no começo de agosto e no mesmo quartel, fui chamado a prestar depoimento no IPM instaurado para apurar as atividades do MR-8. A certa altura deste depoimento, o encarregado do inquérito, major Oscar da Silva (com o qual eu havia tido o meu primeiro encontro ainda no DOI-CODI, no 1º Batalhão da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, durante a fase de torturas) insistiu para que eu nomeasse os militantes do MR-8 que eu conhecia. Tendo eu, em resposta a isso, apenas nomeado os companheiros dados, publicamente, como mortos ou sabidamente desaparecidos (…).

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Filiação: Zuleika Borges Pereira Celestino e Pedro Celestino da Silva Filho

Data e local de nascimento: 26/05/1944, Morrinhos, (GO)

Organização política ou atividade: ALN

Data e local de desaparecimento: 12/07/1944, Rio de Janeiro (RJ)

 

Paulo de Tarso e Heleny foram presos por agentes do DOI-CODI/RJ no dia 12/07/1971, no Rio de Janeiro. Seus nomes integram a lista dos desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95.

Goiano de Morrinhos, Paulo de Tarso estudou no Colégio Universitário da Universidade Federal de Goiás, onde concluiu o curso de Humanidades em 1962 e foi escolhido orador da turma. Ingressou na UnB, na Faculdade de Direito, onde se formou, em 1967, aos 23 anos. Foi presidente da Federação dos Estudantes Universitários de Brasília – FEUB. Inscrito na OAB, exerceu advocacia em Goiânia (GO), chegando a fazer sustentação oral em processo no STF. Em outubro de 1968, viajou para a França e fez curso de pós-graduação na Sorbonne. Companheiros de militância política na ALN, informaram que, após a morte de Joaquim Câmara Ferreira, ele era dos principais dirigentes da organização, utilizava o nome de guerra “Vovô” e tinha recebido treinamento militar em Cuba.

Seu pai, Pedro Celestino, advogado e deputado federal pelo estado de Goiás, foi cassado pelo AI-5, em 13 de dezembro de 1968. Usou de todos os meios ao seu alcance para descobrir o paradeiro do filho. Em dezembro de 1971, como resposta à solicitação da OAB, seccional de Brasília, o Ministério do Exército chegou a informar que Paulo de Tarso fora preso por autoridades militares, mas que havia sido entregue à Polícia Federal, devendo o Ministério da Justiça prestar informações. Tempos depois, o Ministério do Exército desmentiu o fato, alegando outro.

Em 20/02/1975, o então ministro da Justiça Armando Falcão fez um pronunciamento em rede de televisão para falar sobre 27 desaparecidos políticos, estando dentre esses o nome de Paulo de Tarso. Na versão do ministro, estavam todos foragidos. Em resposta, Pedro Celestino redigiu carta pública a Armando Falcão, que foi publicada no Jornal do Brasil em 21/02/1975 e em outros jornais do país. No ano anterior já tinha enviado ao general Golbery, homem forte do Governo Geisel, apelando: “Como cidadão e chefe de família é que me dirijo a Vossa Excelência, rogando fazer chegar ao Presidente da República o meu apelo extremo, depois de ver frustrados todos os recursos judiciais e extrajudiciais permitidos pela ordem jurídica vigente no país (…) para encontrar meu filho. Não venho pedir-lhe que o solte, mas o mínimo que se deve garantir à pessoa humana, isto é, seja processado oficialmente, com o direito de sua família dar-lhe assistência jurídica e principalmente humana”.

Apesar do silêncio e da negativa sistemática das autoridades, as provas acerca da prisão e desaparecimento dos dois militantes foram sendo coletadas. Inês Etienne Romeu, em seu relatório de prisão, testemunhou que, durante o período em que esteve sequestrada no sítio clandestino em Petrópolis (RJ), conhecido como “Casa da Morte”, dentre outros desaparecidos ali estiveram, no mês de julho de 1971, Walter Ribeiro Novaes, Paulo de Tarso e uma moça, que acredita ser Heleny. Na casa clandestina em Petrópolis, Paulo de Tarso foi torturado durante 48 horas pelos carcereiros conhecidos por Inês como “Dr. Roberto”, “Laecato”, “Dr. Teixeira”, “Zé Gomes” e “Camarão”. Colocaram-no no pau-de-arara, deram-lhe choques elétricos e o obrigaram a ingerir grande quantidade de sal. Durante muitas horas Inês ouviu-o suplicando um pouco de água.

Em 08/04/1987, a revista IstoÉ, na reportagem Longe do Ponto Final, publicou declarações do ex-médico, então, lotado no DOI-CODI/RJ, Amílcar Lobo, que reconheceu ter atendido Paulo de Tarso quando estava preso nas dependências do DOI-CODI/RJ, sem, no entanto, precisar a data.

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Filiação: Agrícola Maranhão do Valle e Francisco Clóvis Marques do Valle

Data e local de nascimento: 02/11/1950, Recife, (PE)

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local de desaparecimento: 27/10/1973, Rio de Janeiro (RJ)

 

Ramires, militante do PCBR foi morto, juntamente com mais três militantes (Almir, Vitorino e Ranúsia), pelos órgãos de segurança do regime militar em 27/10/1973, no Rio de Janeiro, e a cena para legalização das execuções foi montada na Praça Sentinela, em Jacarepaguá. Ramirez, Almir e Vitorino aparecem totalmente carbonizados dentro de um volkswagen, enquanto o corpo de Ranúsia jaz baleado, embora não queimado. Foram esses os últimos membros do PCBR a serem mortos no longo ciclo do regime militar, encerrando a série iniciada com o assassinato sob torturas de Mário Alves, principal dirigente e fundador do partido, em janeiro de 1970, no DOI-CODI/RJ. Em outubro de 1973, quando dessas últimas quatro mortes, o PCBR já estava reduzido a um pequeno círculo de militantes.

Os documentos oficiais dos arquivos dos Ministérios do Exército, Marinha e Aeronáutica mostram versões desencontradas sobre a morte dos quatro militantes. Alguns fatos só começaram a ser esclarecidos com a abertura dos arquivos secretos do DOPS, no Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco.

No dia 29/10/1973, a imprensa carioca apenas noticiou a morte de dois casais em Jacarepaguá. O Jornal do Brasil estampou “Polícia especula, mas nada sabe ainda sobre os casais executados em Jacarepaguá”, enquanto O Globo noticiou: “Metralhados dois casais em Jacarepaguá”. Nenhum dos jornais citou nomes dos mortos. O mesmo ocorreu na matéria da revista Veja, de 07/01/1973, “Quem Matou Quem?”. Somente em 17/11/1973, tanto em O Globo, quanto no Jornal do Brasil, respectivamente, sob os títulos “Terroristas Morrem em Tiroteio com as Forças de Segurança” e “Terroristas São Mortos em Tiroteio”, se lê: “em encontro com forças de segurança, vieram a falecer, após travarem cerrado tiroteio, quatro terroristas, dois dos quais identificados como Ranúsia Alves Rodrigues, ‘Florinda’, e Almir Custódio de Lima, ‘Otávio’, pertencentes à organização clandestina subversiva intitulada PCBR”.

No livro Dos Filhos deste Solo, Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio assim registram o episódio: “Chovia na noite de 27 de outubro de 1973, um sábado. Alguns poucos casais escondiam-se da chuva junto do muro do Colégio de Jacarepaguá, no Rio. Por volta das 22h. um homem desceu de um opala e avisou: ‘Afastem-se porque a barra vai pesar’. O repórter de Veja (7/11/73) localizou alguém que testemunhou o significado desse aviso: ‘Não ouvimos um gemido, só os tiros, o estrondo e a correria dos carros’. (…) Vindos de todas as Ruas que levam à Praça, oito ou nove carros foram chegando, cercando um fusca vermelho e despejando tiros. Depois jogaram uma bomba dentro do carro. No final, havia uma mulher morta com quatro tiros no rosto e peito e três homens carbonizados”.

Os nomes de Vitorino e Ramires não foram citados nas matérias e, como consequência, esses dois militantes passaram a figurar nas relações de desaparecidos políticos, integrando a lista anexa à Lei nº 9.140/95.

Ramires Maranhão do Valle nasceu em Recife e, no final de 1961, passou no exame para cursar o Colégio Militar, embora não tenha conseguido vaga. Matriculou-se então no Colégio São João, estudando até a 3ª série ginasial e destacando-se também em atletismo. Devido à composição social elitista dessa escola, enfrentou conflitos com colegas que se opunham ao governo estadual de Miguel Arraes. Depois de abril de 1964, preferiu transferir-se para o Colégio Carneiro Leão, onde concluiu a 4ª série. Interessado em agricultura, foi cursar o colegial na Paraíba, na escola agrícola Vidal Negreiros, em Bananeiras. Permaneceu apenas um ano nesse estabelecimento e retornou a Recife, matriculando-se no colégio salesiano Sagrado Coração. Não chegou a concluir o curso secundário devido às perseguições policiais por sua atuação política no meio estudantil. Na primeira vez em que foi preso, aos 16 anos, estava participando de manifestação do Movimento Estudantil contra o acordo MEC-USAID, nas escadarias da Assembleia Legislativa de Pernambuco. Junto com ele foi preso Fernando Santa Cruz, que também seria assassinado pelos órgãos de segurança em 1974. Nessa ocasião, Ramires permaneceu oito dias no Juizado de Menores.

No enterro do Padre Antônio Henrique Pereira, assassinado em Recife em 21/08/1969, Ramires, rompendo a vigilância policial, promoveu um comício relâmpago em uma das pilastras da Ponte de Torre, por onde passava o cortejo. Em decorrência da perseguição policial que se seguiu, teve de passar à vida clandestina, vinculando-se ao PCBR. Atuou cladestinamente em Fortaleza (CE) e radicou-se no Rio de Janeiro em 1971. Em todo esse período, manteve contato com parentes através de cartas, telefonemas ou mesmo visitas, embora raras. O último encontro aconteceu em fevereiro de 1972. Documentos dos órgãos de segurança do regime militar atribuem a ele participação em várias ações armadas, inclusive em duas execuções: a do delegado Octavinho, e a do ex-preso político do PCBR Salatiel Teixeira Rolins, acusado por seus companheiros de ser responsável pela prisão de Mário Alves.

Seu desaparecimento foi denunciado pela família à ONU, ao Conselho de Justiça, Segurança Pública e Direitos Humanos do governo do Estado do Rio de Janeiro e ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. No Relatório do Ministro do Exército, de 1993, consta que foi morto junto com dois companheiros em tiroteio com as forças de segurança.

Os corpos dos quatro militantes deram entrada no IML como desconhecidos e foram necropsiados por Hélder Machado Paupério e Roberto Blanco dos Santos, que confirmaram a versão oficial. A partir de 1991, com os documentos encontrados em arquivos do DOPS foi comprovada a morte dos dois desaparecidos: Ramires e Vitorino. Documentos de informação do Ministério da Aeronáutica de 22/11/1973, de nº 575, encontrado no arquivo do antigo DOPS/SP, afirma: “dia 27/10/1973, em tiroteio com elementos dos órgãos de segurança da Guanabara, foram mortos os seguintes militantes do PCBR: Ranúsia Alves Rodrigues, Ramires Maranhão do Valle, Almir Custódio de Lima e Vitorino Alves Moitinho”.

Apesar de os quatro militantes estarem perfeitamente identificados, os órgãos de segurança omitiram as mortes de Ramires e Vitorino e ainda enterraram todos sem identificação, como indigentes, no Cemitério de Ricardo de Albuquerque, Rio de Janeiro. Em 02/04/1979, seus restos mortais foram transferidos para o ossuário geral e, por volta de 1980 ou 1981, para uma vala clandestina com cerca de duas mil outras ossadas.

No arquivo do DOPS/RJ foi encontrado um documento do I Exército, de 29/10/1973, que narra o cerco aos quatro militantes desde o dia 08/10/1973, culminando com a prisão de Ranúsia na manhã do dia 27/10/1973. O documento inclui interrogatório e declarações de Ranúsia no DOI-CODI/RJ. O relatório fala de farta documentação encontrada com ela e menciona a morte de quatro militantes, dando-lhes os nomes completos. A versão divulgada pelo DOPS é que os militantes do PCBR perceberam a presença de “elementos suspeitos” e tentaram fugir, acionando suas armas. Como o carro teria começado a pegar fogo, não foi possível retirar as pessoas que estavam dentro. Laudo e fotos da perícia no local mostram Ranúsia morta perto do carro, tendo ao fundo um Volkswagen incendiado, onde estavam carbonizados Ramires, Vitorino e Almir.

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Filiação: Aracy Beirodt Paiva e Jaime de Almeida Paiva

Data e local de nascimento: 26/09/1929, Santos, SP

Organização política ou atividade: não definida

Data e local de desaparecimento: 20/01/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Paulista de Santos, engenheiro civil, empresário, Rubens Paiva tinha sido, em abril de 1964, vice-líder do PTB na Câmara dos Deputados, o mesmo partido político do presidente deposto. Teve seu mandato cassado imediatamente, conseguiu asilo na embaixada da Iugoslávia e viveu durante anos no exílio. Desapareceu em janeiro de 1971. Seu nome foi incluído entre os 136 do Anexo à Lei 9.140.

Rubens Paiva era casado com Eunice Paiva, que integrou a CEMDP nos meses iniciais de suas atividades. Tiveram cinco filhos. Em 1982, Marcelo Rubens Paiva, o filho que se tornou escritor e que tinha 11 anos em 1971, emocionou o país ao relatar o grave acidente que o deixou paraplégico, evocando também suas memórias sobre o desaparecimento do pai, em Feliz ano velho, livro de grande sucesso entre a juventude, vencedor do Prêmio Jabuti e lavado ao teatro e ao cinema.

Rubens formou-se em engenharia civil em 1954, na Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie, em São Paulo, sendo escolhido orador da turma. Quando universitário, foi presidente do centro acadêmico de sua faculdade e vice-presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo. Também desenvolveu atividades jornalísticas.

Não sendo militante de qualquer organização clandestina de oposição ao regime ditatorial, voltou a se instalar em seu país, mantendo atividade empresarial regular e próspera. Há registros de que, em 1970, teria reunido documentação empresarial a respeito da corrupção em contratos para a construção da ponte Rio-Niterói, uma das obras que foram conduzidas como alta prioridade pelo regime militar, no período repressivo mais agudo.

No dia 20/01/1971, feriado de São Sebastião do Rio de Janeiro, depois de voltar da praia com duas filhas e receber telefonema de uma pessoa que dizia entregar-lhe correspondência do Chile, sua residência, no Leblon, foi invadida, vasculhada e ocupada por agentes dos órgãos de segurança. Rubens tratou de acalmar a todos e foi levado preso, tendo dirigido seu próprio carro até o Quartel da 3ª Zona Aérea, junto ao aeroporto Santos Dumont. Foi essa a última vez que a família o viu. No dia seguinte, sua mulher e Eliane, a filha de 15 anos, foram presas e levadas para o DOI-CODI/RJ, onde permaneceram sem poder se comunicar com Rubens, apesar de os agentes policiais confirmarem que ele se encontrava lá. Interrogadas várias vezes, Eliana foi libertada 24 horas depois e Eunice apenas no dia 2 de fevereiro. Ao ser solta, Eunice viu o carro de Rubens no pátio interno do quartel, que posteriormente lhe foi entregue sob recibo.

“Levaram-no para uma sala e acarearam-no com duas senhoras (Cecilia Viveiros de Castro e Marilena Corona). Os três foram obrigados a ficar de pé, com os braços levantados. Era um fio que começava a ser puxado pelos serviços de informação do governo dois dias antes, em Santiago do Chile. Elas haviam visitado os filhos, tomaram o avião de volta ao Rio e foram presas ao desembarcar. Na bagagem de uma delas acharam-se pelo menos duas cartas endereçadas a Rubens Paiva. Uma era de Almino Affonso. Outra vinha de Helena Bocayuva, filha do ex-deputado Luiz Fernando (Baby) Bocayuva Cunha. Militante do MR-8, ela fora fiadora da casa do Rio Comprido onde ficara o embaixador americano Charles Elbrick. Mesmo tendo sido identificada e fotografada durante o sequestro, escapulira para o exílio. Rubens Paiva, amigo e sócio de seu pai, escondera-a no Rio.

Uma das senhoras sentiu-se mal, Rubens Paiva amparou-a, foi golpeado por um oficial e respondeu com um palavrão. Surrado, ficou estendido no chão. Horas depois anunciaram que iam levá-lo para o Aparelhão. Era o DOI da Barão de Mesquita. No caminho ele reclamava de que não conseguia respirar, mas chegou consciente ao quartel da Polícia do Exército. (…)

Passava pouco de uma hora da madrugada do dia seguinte, quando Amilcar Lobo, aspirante a oficial e médico do DOI, foi acordado em casa e levado para o quartel. Subiu à carceragem do segundo andar e lá, numa das celas do fundo do corredor, encontrou um homem nu, deitado, com os olhos fechados. Tinha todo o corpo marcado de pancadas e o abdômen enrijecido, clássico sintoma de hemorragia interna. ‘Rubens Paiva’, murmurou duas vezes o preso, abrindo os olhos”.

Para justificar o desaparecimento de Rubens, o Exército divulgou nota à imprensa informando que ele teria sido resgatado por terroristas quando era transportado pelos agentes do DOI-CODI, em 22/01/1971. Tentando dar credibilidade à fuga, as autoridades do Estado fizeram registros do suposto sequestro na Delegacia Policial da Barra da Tijuca. Abriram sindicância para investigar e deliberadamente suspenderam a férrea censura que impunham a esse tipo de noticiário, convocando a imprensa para cobrir a investigação. Mas a história montada era completamente inverossímil. Pela primeira vez, o regime militar começou a ser pressionado publicamente a responder pelos assassinatos sob tortura.

Eunice Paiva recorreu ao STM, tendo negado o seu recurso. O caso foi também levado ao CDDPH – Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, mas seu presidente, ministro da Justiça Alfredo Buzaid, desempatou a votação para indeferir o pedido de investigação.

A morte de Rubens Paiva também é referida no relatório feito por Inês Etienne Romeu, sobrevivente da “Casa da Morte”, em Petrópolis. Ela relata que um dos seus carcereiros, conhecido como “Dr. Pepe” contou-lhe que haviam cometido um erro ao matar Rubens Paiva. Trechos da reportagem de Márcio Bueno, publicada em Retratos do Brasil, 23 a 29 de março de 1987, com o título “O Caso Rubens Paiva, um homicídio executado e até hoje acobertado pelos setores militares” recolhida do site www.desaparecidospolíticos.org.br, resgata os fatos com todos os seus detalhes.

Em 1985, foi solicitada a reabertura do inquérito pelo procurador geral da Justiça Militar, Francisco Leite Chaves. Presidido pelo delegado Carlos Alberto Cardoso, o inquérito conduziu as investigações até concluir que Rubens Paiva fora morto nas dependências do Pelotão de Investigações Criminais/RJ. Quando chegou a este ponto, o encarregado julgou-se incompetente para prosseguir e remeteu o inquérito para a Justiça Militar.

O comandante militar da Região Leste, general Brum Negreiros, indicou o general Adriano Áureo Pinheiro para presidir o IPM. O general Adriano não pediu a indicação de um procurador para acompanhar as investigações, como é praxe nesses casos, cabendo a iniciativa ao próprio Leite Chaves, que indicou o procurador Paulo César de Siqueira Castro. Paulo César enfrentou inúmeras dificuldades para se desincumbir de sua missão, mas persistiu no esforço. O presidente do inquérito impediu que ele acompanhasse as investigações, recusou-se a ouvir as testemunhas indicadas e, por fim, ignorou o prazo de 40 dias que teria para concluir o IPM.

Diante de tantas barreiras, Paulo César começou a fazer investigações paralelas, justificando sua atitude com a falta de confiança quanto ao interesse do encarregado do IPM em realmente apurar os fatos. Chegou a cinco nomes indicados por Leite Chaves como responsáveis pelas torturas, morte e ocultação de cadáver de Rubens Paiva: coronel Ronald José da Motta Batista Leão, capitão de Cavalaria João Câmara Gomes Carneiro, apelidado na Academia Militar de João Coco, o subtenente Ariedisse Barbosa Torres, o major PM/RJ, Riscala Corbage e o segundo-sargento Eduardo Ribeiro Nunes. Em março de 1987, o delegado Carlos Alberto foi assassinado em um duvidoso assalto.

Em todos esses anos, surgiram muitas hipóteses a respeito de onde estaria o corpo de Rubens Paiva. Buscas e escavações foram feitas, sem qualquer resultado. O caso do parlamentar cassado e desaparecido foi evocado por Ulisses Guimarães no emocionado discurso em que promulgou, em 05/10/1988, na qualidade de presidente da Assembleia Nacional Constituinte, a nova Carta Magna que marcou o reencontro do Brasil com o Estado Democrático de Direito.

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Filiação: Diva Landulfo Furtado e George de Souza Furtado

Data e local de nascimento: 24/05/1951, Serrinha, BA

Organização política ou atividade: MR-8

Data e local de desaparecimento: 11/07/1972, Rio de Janeiro (RJ)

 

Militante do MR-8 foi preso juntamente com Paulo Costa Ribeiro Bastos, de acordo com as informações que puderam ser colhidas, em 11/07/1972, no bairro da Urca, Rio de Janeiro. Há duas versões sobre os fatos: ou foram presos no próprio apartamento em que residiam, ou conseguiram escapar dali e se refugiaram em um ônibus que foi interceptado adiante, em uma barreira dos agentes dos órgãos de segurança que fechava a única saída daquele bairro densamente habitado por oficiais. Foram levados ao DOI-CODI/RJ, sendo torturados e mortos. Os dois nomes integram a lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95.

Sérgio nasceu em Serrinha (BA) e foi estudante de Economia da Universidade Federal da Bahia, passando a atuar na clandestinidade desde 1969. Integrou a Dissidência Comunista da Bahia, que se reuniu à Dissidência da Guanabara na constituição do MR-8. Respondeu a diferentes processos na Justiça Militar, sendo julgado à revelia, por participação em várias ações armadas, inclusive o assalto a um carro forte da empresa Transport, em Madureira, em 22/11/1971, quando um dos guardas foi morto e outros três baleados.

No próprio dia de sua prisão, Sérgio havia telefonado à mãe, para dar-lhe um beijo pelo Dia das Mães já transcorrido. No dia 24/07, seus pais receberam telefonema em Salvador, informando que o filho tinha sido preso no Rio de Janeiro. De imediato viajaram para lá, constituindo como advogado Augusto Sussekind, que impetrou habeas-corpus junto ao STM. Nunca conseguiram obter respostas sobre o paradeiro de Sérgio. Estiveram com o general Fiúza de Castro, que negou a prisão, e ainda escreveram ao presidente Emílio Garrastazu Médici e mais tarde escreveram ao ministro da Justiça de Ernesto Geisel, Armando Falcão. Nos processos a que respondia como militante do MR-8, Sérgio continuou sendo julgado e foi condenado à revelia em alguns e absolvido em outros.

Denúncias sobre a prisão dos dois militantes foram feitas nas auditorias militares por Paulo Roberto Jabour, Nelson Rodrigues Filho, Manoel Henrique Ferreira e Zaqueu José Bento. Em 1978, o ministro do STM general Rodrigo Otávio Jordão requereu ao tribunal que fosse investigado o desaparecimento de Paulo e de Sérgio, mas nada foi apurado.

O livro Desaparecidos Políticos, de Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, transcreve depoimento do preso político Paulo Roberto Jabour, escrito em 20/02/1979, quando se encontrava recolhido ao Presídio Milton Dias Ferreira, no Rio de Janeiro. Jabour reporta que “Durante o período inicial de minha prisão, tive algumas indicações sobre a prisão e morte de Paulo e Sérgio. Citarei aqui algumas delas: 1) Já transferido para o 1º Batalhão de Guardas, em São Cristóvão, fui chamado, certo dia, no começo de agosto de 1972, à presença de um elemento pertencente aos órgãos de segurança que, de posse de uma fotografia de Paulo, pediu que eu o identificasse como sendo o militante que usava o codinome de Luís, pois isto, segundo ele, melhoraria a situação de Paulo, seria melhor para ele. Presenciou esta entrevista o major Diogo, S-2 do citado quartel; 2) Ainda no começo de agosto e no mesmo quartel, fui chamado a prestar depoimento no IPM instaurado para apurar as atividades do MR-8. A certa altura deste depoimento, o encarregado do inquérito, major Oscar da Silva (com o qual eu havia tido o meu primeiro encontro ainda no DOI-CODI, no 1º Batalhão da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, durante a fase de torturas) insistiu para que eu nomeasse os militantes do MR-8 que eu conhecia. Tendo eu, em resposta a isso, apenas nomeado os companheiros dados, publicamente, como mortos ou sabidamente desaparecidos (…), o citado major, à guisa de informação, perguntou se eu não gostaria de incluir o nome de Sérgio Landulfo nesta lista; 3) Respondendo a vários processos, tive que comparecer inúmeras vezes ao DOPS para prestar depoimento. Assim, pude constatar, durante o segundo semestre de 1972, que era voz corrente nesse órgão repressivo que Sérgio Landulfo, o Tom, tinha sido morto. Idêntica constatação pôde fazer Nelson Rodrigues – também conduzido frequentemente ao DOPS. A Nelson, o escrivão chamado Bioni confirmou a veracidade da notícia da morte de Sérgio”.

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Filiação: Zuleika Angel Jones e Norman Angel Jones

Data e local de nascimento: 11/01/1945, Salvador, BA

Organização política ou atividade: MR-8

Data e local de desaparecimento: 14/05/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Stuart Edgar Angel Jones foi assassinado sob terríveis torturas na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. Morreu na noite de 14 de maio de 1971 e o nome dele consta da lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95. O caso gerou grande repercussão nacional e internacional.

Filho da estilista de alta costura Zuzu Angel com o norte-americano Norman Angel Jones, irmão da colunista social Hildegard Angel, Stuart nasceu em Salvador e cresceu no Rio de Janeiro. Apaixonado por esportes praticou tênis, natação, capoeira, levantamento de peso e remo.

Era estudante de Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo trabalhado também como professor. Em 18/08/1968, havia casado com Sonia Maria Lopes de Moraes, que também seria morta em 1973, em São Paulo. Moravam na Tijuca.

Militante do MR-8 desde o período em que a organização tinha o nome de Dissidência da Guanabara, Stuart, conforme documentos dos órgãos de segurança integrou sua Direção Geral a partir de meados de 1969, ao lado de Daniel Aarão Reis e Franklin de Souza Martins. Também era apontado como participante de diversas ações armadas e se presume que os militares o torturaram com tamanha brutalidade porque pretendiam, através dele, chegar a Carlos Lamarca, recentemente integrado à organização.

Stuart foi preso por volta das 9h da manhã do dia 14, na avenida 28 de setembro, em Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro, por agentes do CISA. As circunstâncias de sua morte foram narradas, em carta a Zuzu, pelo preso político Alex Polari de Alverga, que esteve com ele naquela unidade da Aeronáutica, na Base Aérea do Galeão.

“Em um momento retiraram o capuz e pude vê-lo sendo espancado depois de descido do pau-de-arara. Antes, à tarde, ouvi durante muito tempo um alvoroço no pátio do CISA. Havia barulho de carros sendo ligados, acelerações, gritos, e uma tosse constante de engasgo e que pude notar se sucedia sempre às acelerações. Consegui com muito esforço olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem número de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semi-esfolada, era arrastado de um lado para outro do pátio, amarrado a uma viatura e, de quando em quando, obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos que eram expelidos”.

Zuzu Angel procurou o filho infatigavelmente, abordando autoridades nacionais e internacionais e concedendo entrevistas a quantos veículos de imprensa tivessem a coragem de publicá-las. Conseguiu fazer chegar sua denúncia ao então senador Edward Kennedy, que levou o caso à tribuna do Senado dos Estados Unidos. Pessoalmente, conseguiu entregar ao secretário de Estado Henry Kissinger, em visita ao Brasil em fevereiro de 1976, uma carta com a denúncia e um exemplar do livro de Hélio Silva, onde era relatada a morte de Stuart. Esse historiador avalia que o afastamento e a posterior reforma do brigadeiro João Paulo Penido Burnier, denunciado como autor do crime, e a própria destituição do ministro da Aeronáutica Márcio de Souza Mello, foram desdobramentos das pressões internacionais sobre o governo Médici. Todos os principais jornais estrangeiros registraram o fato, em especial o Washington Post e Le Monde. No Brasil, os diários O Estado de São Paulo e Jornal do Brasil conseguiram publicar matérias sobre o caso, apesar da censura.

Zuzu foi morta, em março de 1976, sem nunca descobrir qualquer indício do paradeiro do filho. O desaparecimento de Stuart e a luta de Zuzu foram evocados por Chico Buarque e Miltinho na canção Angélica, de 1977, e levados ao cinema, em 2006, pelo diretor Sérgio Rezende, tendo a atriz Patrícia Pilar atuando como a mãe de Stuart.

No Relatório do Ministério da Marinha, apresentado ao ministro da Justiça Maurício Corrêa em 1993, consta que Stuart foi morto no Hospital Central do Exército, mas indicando a data incorreta de 05 de janeiro de 1971. O Relatório do Ministério da Aeronáutica faz menção às denúncias feitas por Alex Polari mas, em vez de esclarecer as circunstâncias da morte, estende-se falando sobre as atividades do denunciante. Limita-se a informar: “neste órgão não há dados a respeito da prisão e suposta morte de Stuart Edgar Angel Jones”.

Passados 17 anos da morte de Stuart, Amílcar Lobo, médico que atuava no DOI-CODI/RJ e que teve seu registro profissional cassado por cumplicidade ou conivência com as torturas, confessou tê-lo atendido no quartel da PE antes de sua transferência para a Base Aérea do Galeão. “Ele tinha equimoses no abdome e tórax causados provavelmente por socos (…) dei a ele analgésicos”, relatou. Disse, ainda, que Stuart estava consciente mas se recusou a lhe dirigir a palavra.

No livro Desaparecidos Políticos, Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa escrevem:

“Para o desaparecimento do corpo existem duas versões. A primeira é de que teria sido transportado por um helicóptero da Marinha para uma área militar localizada na restinga de Marambaia, na Barra de Guaratiba, próximo à zona rural do Rio, e jogado em alto mar pelo mesmo helicóptero. Mas, de acordo com outras informações, o corpo de Stuart teria sido enterrado como indigente, com o nome trocado, em um cemitério de um subúrbio carioca, provavelmente Inhaúma.

Os responsáveis: os brigadeiros Burnier e Carlos Afonso Dellamora, o primeiro, chefe da Zona Aérea e, o segundo, comandante do CISA; o tenente-coronel Abílio Alcântara, o tenente-coronel Muniz, o capitão Lúcio Barroso e o major Pena – todos do mesmo organismo; o capitão Alfredo Poech – do CENIMAR; Mário Borges e Jair Gonçalves da Mota – agentes do DOPS”.

O caso foi levado também ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, que naquele período, e particularmente na gestão do ministro da Justiça Alfredo Buzaid, desempenhou um papel meramente homologatório perante as violências praticadas pelo Estado ditatorial. Em 1972, por 8 votos a 1, o caso foi arquivado, sendo surpreendente o fato de o representante da OAB no órgão, Raymundo Faoro, ter se alinhado em seu voto com essa maioria, onde estava também o senador Filinto Müller, notório torturador durante o Estado Novo.

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Filiação: Maria Garcia Meirelles e Togo Meirelles

Data e local de nascimento: 01/07/1937, Parintins, AM

Organização política ou atividade: ALN

Data e local de desaparecimento: 07/05/1974, Rio de Janeiro (RJ)

 

Jornalista e sociólogo, dirigente da ALN, o amazonense Thomaz Meirelles desapareceu em 07/05/1974, no Rio de Janeiro. Natural de Parintins (AM), chegou ao Rio de Janeiro em 1958, onde teve início seu engajamento político, participando do movimento secundarista através da UBES e, depois de iniciar a universidade, através da UNE. Em 1961, atuou abertamente na resistência em defesa da legalidade constitucional, contra a tentativa de golpe militar que se seguiu à renúncia do presidente Jânio Quadros.

Paralelamente à sua atividade profissional como jornalista, contribuiu na organização de inúmeras manifestações culturais e políticas no final dos anos 50 e início dos anos 60, por meio do Comitê Popular de Cultura da UNE. Sua Militância partidária começou no PCB, tendo depois ingressado na ALN. Casado com a jornalista Mírian Marreiro, teve com ela dois filhos, Larissa e Togo.

Cumprindo todos os trâmites legais em relação a um país com o qual o Brasil mantinha relações diplomáticas normais, Thomaz Meirelles solicitou uma bolsa de estudos para continuar sua formação universitária e seguiu para a União Soviética, em 1962, onde cursou Filosofia na Universidade Central de Moscou.

Retornou ao Brasil em 13/11/1969, já na polarizada conjunta repressiva do início do governo Médici. Poucos meses depois, foi obrigado a viver na clandestinidade. Preso pela primeira vez em 18/12/1970, quando transitava na Rua da Alfândega, Rio de Janeiro, foi levado para o DOI-CODI e lá sofreu a violência das torturas. Posteriormente, foi condenado a três anos e seis meses de prisão. Cumpriu condenação por suas atividades políticas na ALN, existindo em seu processo judicial forte carga contra o fato de ter estudado na União Soviética. Libertado no bairro do Leblon, RJ, e a partir dessa data nunca mais foi visto. Após o seu desaparecimento, foi julgado à revelia, em São Paulo, pela 2ª Auditoria Militar, sendo condenado à pena de dois anos de reclusão.

O nome de Thomaz consta da lista de pessoas desaparecidas e assumidas como mortas por um general responsável pelo aparelho repressivo, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, em 28/01/1979. Notícia veiculada pelo Correio da Manhã do Rio de Janeiro, de 03/08/1979, afirma que 14 desaparecidos políticos foram mortos pelos serviços secretos das Forças Armadas e dentre eles está o nome de Thomaz. A reportagem da Folha de S. Paulo ouviu de dois generais e de um coronel essa informação. Em 15/04/1987, a revista IstoÉ, na reportagem Longe do Ponto Final, publicou declarações do ex-médico militar Amílcar Lobo que havia visto Thomaz no DOI-CODI no Rio de Janeiro, sem precisar a data.

O chamado “livro negro sobre o terrorismo no Brasil”, produzido pelo CIE entre 1986 e 1988, em um trecho delirante que depõe contra a credibilidade e seriedade do documento, registra que, em junho de 1966 “o Comitê Central do PCB realizou uma reunião, na qual criou uma Seção de Trabalhos Especiais que, entre outras atribuições, tinha o encargo principal de preparar o Partido para a luta armada. No mês seguinte, enviou 10 militantes para realizarem um curso de guerrilha em Moscou”, sendo que o nome de Thomaz Meirelles é incluído entre esses 10. Daí a necessidade de tratar com muita reserva a informação incluída na página 776 desse controvertido documento secreto, de que Meirelles teria executado, em junho de 1973, um militante da RAN que tinha sido preso e ajudou os órgãos de segurança a montar a emboscada em que foi morto Merival de Araújo, da ALN. Vale a mesma ressalva a respeito da acusação, incluída em documentos dos órgãos de segurança, de que Thomaz teria participado da execução do delegado Octávio Gonçalves Moreira Junior, do DOI-CODI/SP e do CC, em Copacabana, em fevereiro de 1973.

Nos arquivos secretos do DOPS/SP foi descoberto um documento onde consta que Thomaz foi “novamente preso em 07/05/1974, quando viajava do Rio de Janeiro para São Paulo”. O Relatório do Ministério da Marinha, assinado pelo Ministro Ivan Serpa, relata: “DEZ/72, preso anteriormente e liberado na primeira semana de dez/72, preso novamente no dia 07/mai/74, entre o Rio de Janeiro e São Paulo”. O nome de Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto integra a lista de desaparecidos políticos anexa à Lei 9.140/95.

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Filiação: Mariluce de Sá Leitão Câmara e Roberto Alves Câmara

Data e local de nascimento: 02/05/1947, Campina Grande, PB

Organização política ou atividade: APML

Data e local de desaparecimento: 08/10/1973, Rio de Janeiro (RJ)

 

Paraibano de Campina Grande, Umberto tinha sido estudante de Medicina na Universidade Federal de Pernambuco. Foi presidente do Diretório Acadêmico de sua faculdade, que hoje se chama DAMUC – Diretório Acadêmico de Medicina Umberto Câmara Neto. Em 1968, já militando na AP, foi escolhido representante daquele estado na chapa de Jean Marc Von der Weid, formada por aquela organização clandestina em aliança com o PCdoB para dirigir a UNE, sendo preso no 30º Congresso da entidade, em Ibiúna (SP). Era constantemente ameaçado pelos órgãos de repressão e também por organizações paramilitares como CCC – Comando de Caça aos Comunistas, que, conforme já mencionado neste livro-relatório, assumiu a autoria do assassinato do Padre Henrique e do atentado contra Cândido Pinto, que restou paraplégico, também em Recife no mesmo período. Em 1969, Umberto foi escolhido como um dos vice-presidentes da UNE.

Em 1972, ainda no Movimento Estudantil, participou da tentativa de organizar as comemorações do cinquentenário da Semana de Arte Moderna, frustradas nos principais estados pela intervenção dos órgãos de segurança que efetuaram dezenas de prisões, intolerantes até mesmo quanto a atividades culturais desse tipo. No final de 1972, já estava submetido a vários processos na Justiça Militar e tinha de viver e atuar em estrita clandestinidade. Alinhou-se com Paulo Wright e Honestino Guimarães na cisão sofrida pela AP nesse período, recusando o ingresso no PCdoB, e permaneceu como militante da APML. Foi preso no dia 08/10/1973 pelo DOI-CODI, no Rio de Janeiro, depois de ter encontrado em uma viagem de ônibus seu companheiro de organização, assassinado pelos órgãos de segurança 20 dias depois, José Carlos Novaes da Mata Machado, que provavelmente já estava sendo seguido.

Documento encontrado nos arquivos secretos do DOPS/SP registra: “nascido em 1947, ex-estudante de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco, ex-membro da UNE, preso no dia 08/10/1973, no Rio de Janeiro”. O relatório do Ministério do Exército, de 1993, informa erroneamente que Humberto “foi visto em Recife em Jul/74”, enquanto o relatório do Ministério da Marinha, do mesmo ano, confirma sua morte em outubro de 1973. Seu nome consta na lista de desaparecidos políticos do Anexo da Lei nº 9.140/95.

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Filiação: Yolinda Alves Moitinho e Izaú Lopes Moitinho

Data e local de nascimento: 03/01/1949, Poções, BA

Organização política ou atividade: PCBR

Data e local de desaparecimento: 27/10/1973, Rio de Janeiro (RJ)

 

Vitorino Alves Moitinho, saiu de São Mateus (ES) para estudar e trabalhar no Rio de Janeiro, indo morar com seus irmãos no Catete. Enquanto estudava trabalhou também como bancário e operário. Respondeu a alguns processos por sua militância política, sendo por esse motivo obrigado a viver na clandestinidade. Já militando no PCBR, tinha sido preso antes, na ofensiva contra esse partido ocorrida no Nordeste em março de 1972, deixando como saldo três mortos.

Vitorino Alves Moitinho, Almir Custódio de Lima, Ramires Maranhão do Valle e Ranúsia Alves Rodrigues, militantes do PCBR, foram mortos pelos órgãos de segurança do regime militar em 27/10/1973, no Rio de Janeiro, e a cena para legalização das execuções foi montada na Praça Sentinela, em Jacarepaguá. Vitorino, Ramires e Almir apareceram totalmente carbonizados dentro de um Volkswagen, enquanto o corpo de Ranúsia jaz baleado, embora não queimado. Foram esses os últimos membros do PCBR a serem mortos no longo ciclo do regime militar, encerrando a série iniciada com o assassinato sob torturas de Mário Alves, principal dirigente e fundador do partido, em janeiro de 1970, no DOI-CODI/RJ. Em outubro de 1973, quando dessas últimas quatro mortes, o PCBR já estava reduzido a um pequeno círculo de militantes.

Os documentos oficiais dos arquivos dos Ministérios do Exército, Marinha e Aeronáutica mostram versões desencontradas sobre a morte dos quatro militantes. Alguns fatos só começaram a ser esclarecidos com a abertura dos arquivos secretos do DOPS, no Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco.

No dia 29/10, a imprensa carioca apenas noticiou a morte de dois casais em Jacarepaguá. O Jornal do Brasil estampou: “Polícia especula, mas nada sabe sobre os casais executados em Jacarepaguá”, enquanto O Globo noticiou: “Metralhados dois casais em Jacarepaguá”. Nenhum dos jornais citou nomes dos mortos. O mesmo ocorreu na matéria da Revista Veja, de 07/11/1973, “Quem Matou Quem?”. Somente em 17/11/1973, tanto em O Globo, quanto no Jornal do Brasil, respectivamente, sob os títulos “Terroristas Morrem em Tiroteio com as Forças de Segurança” e “Terroristas São Mortos em Tiroteio”, se lê: “em encontro com forças de segurança, vieram a falecer, após travarem cerrado tiroteio, quatro terroristas, dois dos quais identificados como Ranúsia Alves Rodrigues, ‘Florinda’, e Almir Custódio de Lima, ‘Otávio’, pertencentes à organização clandestina intitulada PCBR”.

Os nomes de Vitorino e Ramirez não foram citados nas matérias e, como consequência, esses dois militantes passaram a figurar nas relações de desaparecidos políticos, integrando a lista anexa à Lei nº 9.140/95.

No livro Dos Filhos Deste Solo, Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio assim registraram o episódio: “Chovia na noite de 27 de outubro de 1973, um sábado. Alguns poucos casais escondiam-se da chuva junto do muro do Colégio de Jacarepaguá, no Rio. Por volta das 22h um homem desceu de um opala e avisou: ‘Afastem-se porque a barra vai pesar’. O repórter de Veja (07/11/73) localizou alguém que testemunhou o significado deste aviso: ‘Não ouvimos um gemido, só os tiros, o estrondo e a correria dos carros’. (…) Vindos de todas as Ruas que levam à Praça, oito ou nove carros foram chegando, cercando um fusca vermelho (AA 6960) e despejando tiros. Depois jogaram uma bomba dentro do carro. No final, havia uma mulher morta com quatro tiros no rosto e no peito e três homens carbonizados”.

O Relatório do Ministério da Marinha, de 1993, registra que ele “teria morrido juntamente com outros subversivos, durante operação não definida”. Não há confirmação de sua morte no Relatório do Ministério do Exército, mas o da Aeronáutica afirma que Vitorino foi “morto em 27/10/1973, num carro, em Jacarepaguá, juntamente com outros três militantes do PCBR”. Documentos dos órgãos de segurança o incluem, ao lado de Ramires, como autor dos disparos que mataram Salatiel Teixeira Rolins.

Seu corpo deu entrada no IML como desconhecido e foi necropsiado por Hélder Machado Paupério e Roberto Blanco dos Santos, que confirmaram a versão oficial. A partir de 1991, com os documentos encontrados em arquivos do DOPS foi comprovada a morte dos dois desaparecidos, Vitorino e Ramirez. Documento de informação do Ministério da Aeronáutica de 22/11/1973, de nº 575, encontrado no arquivo do antigo DOPS/SP, afirma: “dia 27/10/1973, em tiroteio com elementos dos órgãos de segurança da Guanabara, foram mortos os seguintes militantes do PCBR: Ranúsia Alves Rodrigues, Ramires Maranhão do Valle, Almir Custódio de Lima e Vitorino Alves Moitinho”.

Apesar de os quatro militantes estarem perfeitamente identificados, os órgãos de segurança omitiram as mortes de Ramirez e Vitorino e ainda enterraram todos sem identificação, como indigentes, no Cemitério Ricardo de Albuquerque, Rio de Janeiro. Em 02/04/1979, seus restos mortais foram transferidos para o ossuário geral e, por volta de 1980 ou 1981, para uma vala clandestina com cerca de duas mil outras ossadas.

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Filiação: Maria Rosalina Ribeiro e Arlindo Ribeiro Moraes

Data e local de nascimento: 01/08/1939, Ba

Organização política ou atividade: VPR

Data e local de desaparecimento: 12/07/1971, Rio de Janeiro (RJ)

 

Seu nome integra a lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95. Baiano de nascimento, conhecido na militância da VPR como “Careca”, trabalhava como salva-vidas do Serviço de Salvamento Marítimo do Rio de Janeiro, na praia de Copacabana. Era casado com Atamilca Ortiz Novaes, de origem indígena, com quem tinha dois filhos.

Foi preso no dia 13/06/1970, ainda quando trabalhava na praia, e solto dois meses depois, passando a viver na clandestinidade. A partir daí, constam informações de que ele teria assumido, na VPR, a tarefa de cuidar da infraestrutura do comando da organização, tendo participado inclusive dos sequestros dos embaixadores alemão e suíço.

A segunda prisão, que resultou em desaparecimento, ocorreu em 12/07/1971, às 18h30m, no bairro da Penha, Rio de Janeiro, quando ia para um encontro de Rua com o simpatizante da organização conhecido como Alípio, que também era salva-vidas e trabalhava na Barra da Tijuca. A família foi alertada e começou a procurá-lo em diferentes órgãos de segurança. Chegou a fazer contato com um policial que informou, em troca de dinheiro, que ele se encontraria no DOPS. Esse contato foi interrompido, no entanto, quando o policial alegou estar sendo ameaçado de morte.

Os ex-presos políticos Alex Polari de Alverga e Lúcia Maurício Alverga, também da VPR, em depoimentos prestados na época à Justiça Militar, denunciaram que os agentes do DOI-CODI/RJ disseram que Walter estava morto após ter sido torturado naquele órgão de repressão. Sabe-se, também, que os agentes policiais leram para outros presos trechos de depoimentos que teriam sido feitos por Walter.

Inês Etienne, em seu relatório de prisão do período em que esteve sequestrada no sítio clandestino em Petrópolis (RJ), afirma que ali esteve, em julho de 1971, um militante que pensa ser Walter Ribeiro Novais. O carcereiro “Márcio” lhe afirmou que o tinham matado. Agregou que, no período calculado por ela entre 8 e 14 de julho, houve uma ruidosa comemoração dos carcereiros em virtude de sua morte.

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