Entre 3 a 6 de outubro, o CINTRAS de Santiago do Chile sediou o IV Encontro da Rede Latino Americana de organizações que desenvolvem atividades de atenção à Saúde e Direitos Humanos, REDSALUDDHH, com a colaboração do IRCT, Conselho Internacional de Reabilitação contra a Tortura.
Durante estes quatro dias os debates foram intensos e algumas iniciativas ganharam mais força. Dentre elas, a decisão de posicionamento conjunto em datas comemorativas, como por exemplo o 26 de junho, Dia Internacional de Luta contra a Tortura, no sentido de fortalecer nacional e internacionalmente estas campanhas. Foi definido o site da rede, que deverá ser lançado em breve com notícias, artigos, denúncias, bem como o boletim que será também um instrumento de divulgação valioso na atualização de informação entre os países.
Vale lembrar a exposição primorosa de Julia Urquieta, que apresentou um panorama da situação dos DDHH no Chile na mesa de abertura. Na luta contra a impunidade, comum em nossos países, destacou que conseguiram colocar na cadeia o General Contreras, chefe da DINA, e quanto ao processo contra Pinochet, ressaltou a possibilidade de se reverter a atual situação de liberação do ditador através do recurso à Corte Suprema de Justiça.
O cenário chileno tem sido movimentado pelas iniciativas dos filhos e familiares, comprometidos com o tema da Verdade e Justiça, cuja consigna é: “Si no hay justícia hay funa!” Funa significa “identificar” e funciona como o escrache na Argentina, que consiste em localizar pessoas envolvidas com as práticas de tortura e denunciar seus atos nos bairros em que vivem. No trabalho de denúncia e mobilização, também está em curso um movimento que percorre a mesma trajetória feita em 1973 pela Caravana da Morte, agora batizado pelo movimento de DDHH com o nome: “Caravana por la Vida y la Justícia”.
O CINTRAS programou para o último dia atividades marcantes. Visitamos o “Parque pela Paz” onde funcionou um centro experimental clandestino de torturas e extermínio. Desde 1997, por iniciativa das organizações chilenas, este amplo e bem cuidado terreno, resgatado de uma venda ilícita promovida pelos militares, foi transformado em um parque memorial. Junto aos nomes dos que lá tombaram lê-se : El olvido está lleno de memoria. A visita ao Parque produziu em todos nós um grande impacto. Um guia especial, sobrevivente de torturas da Villa Grimaldi como era chamado, fez um relato emocionante e extremamente sensível das experiências que lá ocorreram mostrando-nos os lugares precisos e como era aplicada a tortura aos presos. Dentre os mais diversos tipos, mencionou o pau de arara como uma aquisição originária do Brasil e levada para o Chile por agentes brasileiros.
Em seguida nos dirigimos ao Memorial dos Mortos e Desaparecidos no Cemitério Central onde, junto à entidades de familiares, participamos de uma homenagem aos mortos e desaparecidos, com entrega de uma coroa de flores. Foi também uma oportunidade para visitar o túmulo e homenagear o companheiro Salvador Allende, cujos restos mortais por imposição da ditadura durante muitos anos estiveram em Valparaíso.
Vera Vital Brasil
Equipe Clínico Grupal Tortura Nunca Mais/RJ
Autor: Vera Vital Brasil
Publicado em: 15/04/2004
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