A Equipe Clínico-Grupal Tortura Nunca Mais vem realizando, desde fim de 2002, essa nova atividade, que vem ampliando os horizontes de seu trabalho clínico. No trabalho com os atingidos pela violência atual, vínhamos nos defrontando com limitações de nossas estratégias de atendimento.
Percebíamos que para uma parte da clientela, o trabalho clínico de consultório, mesmo grupal, apresentava limitações de várias ordens. A principal delas: a população mais pobre, alvo preferencial da violência policial e da tortura, não estabelece facilmente um vínculo entre a busca de um psicólogo ou psiquiatra e a violência sofrida. O trabalho clínico de consultório estava bastante distante dessa clientela, e a questão não se resolveria se, simplesmente, mudássemos o consultório de lugar: seria necessário problematizar o próprio consultório e os modos de subjetivação intimistas implicados em sua produção.
Pensamos que poderia ser interessante como estratégia aproveitar os equipamentos de saúde pública já existentes. Alguns membros da equipe já militavam na reforma psiquiátrica, outros, no campo da saúde em instituições penais ou em trabalhos direcionados a adolescentes pobres.
Pensamos na possibilidade de desenvolver um trabalho clínico-político junto aos profissionais que trabalhavam diretamente com a população mais atingida por violações de direitos humanos de vários tipos – com aquela parcela da população que sofria de modo mais contundente os efeitos das políticas perversas do neoliberalismo. Os efeitos multiplicadores de uma intervenção de nossa equipe junto a esses profissionais pareciam promissores – estaríamos, através deles, intervindo sobre aquela parcela da população mais atingida pela violência atual. Foi então que iniciamos o que passamos a chamar “Oficinas Clínica e Direitos Humanos”.
Hoje já realizamos 14 oficinas em Vitória, Porto Alegre, Campinas, Macaé e Rio de Janeiro. Tínhamos um programa inicial, que oferecíamos às equipes, pedindo sugestões. Fomos aperfeiçoando uma estratégia de trabalho que foi progressivamente abandonando o modelo da “aula” e se aproximando mais do modelo da intervenção grupal que justamente caracteriza o trabalho de nossa equipe.
Partindo de nossas percepções sobre a realidade local, dos problemas trazidos pelas equipes, buscávamos estabelecer conexões com alguns temas principais a serem desenvolvidos: uma análise do capitalismo atual e das condições de produção de um fenômeno que se transformou em obsessão para brasileiros: a violência. Mas essa denominação já continha em si os efeitos da produção de subjetividade na contemporaneidade, já estava relacionada a um outro fenômeno que se tornou muito evidente em nossa experiência e precisava ser posto em análise: “a impotência das equipes de saúde”.
Essa impotência precisava ser compreendida como um efeito dos aparelhos de captura que o próprio capitalismo contemporâneo põe em funcionamento. Intervir sobre a impotência era intervir sobre as próprias condições de resistência às redes frias do capitalismo atual.
Nossa equipe também aprendia com a experiência e se transformava, também se potencializava ao sentir a importância política do trabalho que iniciáramos. Nossa experiência de trabalho com os atingidos pela violência do período da ditadura militar pôde servir para instrumentar estratégias atuais das equipes de saúde, em seus enfrentamentos com a violência relacionada ao tráfico de drogas, em sua onipresença nos bairros pobres das cidades brasileiras. Parecia que sempre chegávamos em momentos chaves – em Vitória, no momento em que o governo federal voltara atrás na anunciada intervenção no estado, onde uma máfia criminosa ocupa postos chaves de governo.
Em Campinas, quando a cidade ainda se recuperava da morte do prefeito, recuperação difícil quando a investigação policial quer ocultar e silenciar os aspectos políticos envolvidos.
Em Macaé, a dura realidade do trabalho nas plataformas de petróleo e sua violência falou mais alto e se impôs como tema de direitos humanos.
Em Porto Alegre aprendemos e compartilhamos nossa própria experiência com a equipe do PAICA, um programa já consolidado, voltado para adolescentes em situação de rua. Já participáramos do Fórum Social Mundial.
No Rio, tomamos contato com uma realidade que parece delirar – a da presença constante morte no bairros pobres e de como esse tipo de clientela atingida pela violência agora faz parte do trabalho quotidiano na rede pública de saúde mental.
A experiência das oficinas vem se constituindo em fonte de problematização da própria equipe, ao mesmo tempo em que contribui, para problematizar estratégias de trabalho em saúde, desconstruindo estereótipos e restabelecendo conexões entre questões de direitos humanos e questões clínico-políticas.
Autor: Cristina Rauter
Publicado em: 20/05/2005
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